FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















sábado, 19 de setembro de 2009

RAUL SOLNADO
Uma Especial Excepção…

Devo confessar que sempre tive sérias (!) dificuldades em apreciar com isenção o trabalho de certos humoristas. Atribuo esta minha incapacidade de análise a uma falha grave de formação e informação, mas com esta idade, já não há nada a fazer.
Nunca achei graça aos trejeitos e esgares de Jerry Lewis, o mesmo com os Irmãos Marx e ficava impávido com o ar lunático de Buster Keaton.
Dos mais recentes, Beny Hil, Mr. Bean, Herman José, deixam-me completamente indiferente e por vezes até um certo desconforto.
No entanto, guardo com uma grande emoção as cenas rocambolescas desse actor genial, que foi Charles Chaplin, mais conhecido por Charlot, no papel de “O Vagabundo” e a “Quimera de Oiro” dois filmes inesquecíveis. Embora com um registo menos espectacular anoto também com grande simpatia alguns filmes desempenhados por Mário Moreno, mais conhecido por “Cantiflas”, dando como exemplos, “El Pedalito” e o “Analfabeto”.
A nível nacional lembro essa grande figura o teatro e do cinema que foi Vasco Santana. Dos numerosos papéis desempenhados, recordo “O Pai Tirano” e o “Pátio das Cantigas” como dos melhores momentos da comédia em Portugal. Logo a seguir por uma questão cronológica destaco os nomes de Camilo de Oliveira e Ivone Silva; o primeiro já com 75 anos mas ainda a trabalhar muito bem na sua arte de fazer rir.
Ivone Silva falecida em 1987, apenas com 52 anos de idade, foi uma das grandes actrizes que conseguiu alcançar enormes êxitos na sua carreira, como humorista o que infelizmente em Portugal têm sido muito poucas as mulheres que conseguem impor a sua arte num mundo desde sempre dominado pelos homens.
A seguir a estes artistas, considero que Raul Solnado, foi sem dúvida um dos grandes herdeiros de Vasco Santana e o continuador de uma certa forma de fazer humor, com muita graça e sensibilidade.
Raul Solnado, faleceu no dia 08 de Agosto com 79 anos, praticamente ainda a trabalhar em novos projectos. Considerado por muitos como um dos actores mais populares da nossa geração, deixou-nos momentos memoráveis de humor e fantasia, como foi o caso da “Guerra de 1908”, retirado de um sketch de Miguel Gila, adaptado por Solnado com muito sucesso e que ficou como uma das melhores peças humorísticas de sempre.
O “Zip Zip” em parceria com Carlos Cruz e Fialho Gouveia, foi um dos melhores programas de humor vividos em Televisão. Este programa foi muito copiado, mas nunca mais foi possível igualar o retumbante êxito alcançado. A comédia se entrelaçava de forma original e singular com a cultura popular, dando a conhecer ao público novos artistas que vieram a consagrar-se em diversas áreas das artes.
É muito difícil neste curto apontamento, enumerar os grandes êxitos alcançados por Raul Solnado que se distinguiu na arte de fazer rir, mas que também obteve assinalável sucesso no Teatro e no Cinema com interpretações de grande porte psicológico e dramático, como foi o caso do Filme “ A Balada da Praia dos Cães.
Mas acima de tudo, onde a sua estrela foi mais brilhante foi no mundo da comédia, considerado pela crítica como um verdadeiro génio e será como tal que o povo português o lembrará sempre como muito carinho.
Raul Solnado, era para além de muito popular e generoso para com os seus colegas, um cidadão exemplar que intervinha na sociedade com bom senso e tolerância. Prezava e cultivava a amizade com muito afecto, sempre pronto a ajudar quem precisava, e mantendo-se sempre solidário com os amigos.
A Casa do Artista que ajudou a fundar em parceria com Armando Cortês, foi a obra a que se dedicou com muito empenho até ao fim dos seus dias. Deixa para todos os artistas portugueses um legado de extraordinária importância.
Se muitas vezes na vida, para sermos inteiramente justos, temos que por de lado as nossas preferências e os nossos gostos particulares, desta vez apraz-me fazer essa excepção para prestar a minha singela homenagem a esse extraordinário Artista que foi Raul Solnado.
CV –Agosto 2009
Martins Raposo

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

NESSES DIAS DE DURO SOL!

Hoje vais ficar com a Ti Maria, eu tenho que ir trabalhar lá p’rás meadas! Ou queres ficar com a avó Quitéra?
Oh mãe, deixa-me ficar na Ti Maria! Ela deixa-me brincar com os cães e os gatos.
E com as formigas, acrescentou a rir a mãe do Zé.
- É sim mãe, gosto de ver as formigas, sempre a correr com a boca cheia de palhinhas.
Foi no monte dos salgueiros que o Zé aprendeu a gostar de animais. A Ti Maria e o Ti Pascoal tinham muitos - Cães, gatos, borregos, porcos, patos, perus e galinhas, e o gaiato divertia-se a dar de comer à bicharada, correndo e saltando a brincar, o que não era do agrado dos Tios, ralhando e batendo-lhe, porque ele punha tudo em alvoroço e a fazer estragos.

Filho único, o Zé, fora sempre um gaiato tímido e retraído, isolando-se e sentindo-se feliz em brincadeiras simples, muitas delas inventadas por si. Chegava a levar horas e horas, olhando os carreiros das formigas, correndo enormes distâncias, carregando objectos que muitas vezes ultrapassavam o seu pequeno corpo, e, uma coisa que nunca mais esqueceu, é que geralmente, eram as mais pequenas, as que trabalhavam mais e que levavam os maiores carregos, para as suas longínquas tocas.
Naquele tempo, havia uma enorme rocha, junto do portão de entrada da quinta e o Zé acomodava-se à sua sombra com um pauzinho, ajudando as pequeninas formigas no seu intenso labor. Acontecia que algumas maiores espreitavam próximo da toca, o que as outras traziam, chegando mesmo a tentar tirar-lhes o alimento. Nessa altura o gaiato decidia a contenda, batendo com o pau na atrevida grandalhona.

O Tio Pascoal, quando vinha para almoçar e o via naquelas estranhas brincadeiras, ria-se muito alto, dizendo – o gaiato parece que é parvo, com um sol destes e a brincar com formigas e fingia esmagá-las com as botas, o que punha o miúdo aos gritos, muito zangado.
Sempre a rir, o tio atirava-lhe com um figo e dizia – devias de me ter ido a ajudar a trazer as ovelhas, não é bom estar aí a olhar. Ninguém gosta de ver uns a trabalhar e outros sentados a brincar! Vê bem, que até mesmo essas formiguitas parecem zangadas.
Assim que chegava à cozinha, que era o primeiro compartimento da casa, o Ti Pascoal lançava a mão às sardinhas secas que estavam penduradas ao lado da lareira, enquanto chamava pela mulher – Oh Maria, já cheguei, e vejo que ainda não tiraste a panela do lume.
O Zé, ficava de boca aberta a olhar o velho a comer a sardinha seca e crua, emborcando umas goladas da garrafa de vinho que lhe escorria pelos cantos da boca.
Contrariado com a vida, saia outra vez para a rua a olhar o sol e a praguejar – O raio deste calor vai queimar a erva toda. Onde é que vamos arranjar a comida para o gado? A cara enrugada do ti Pascoal, ficava encortiçada e dura.
O Zé ficava assustado, com o seu vozeirão irado e carrancudo! Tinha ouvido aos mais velhos, lá da rua do forno, dizer que o Sol punha as pessoas malucas. Um pouco triste, perguntava à ti Maria, onde ficavam as meadas. Lá também faz este calor?
CV-13.05.09
Jmr

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

FESTAS DE SANTA MARIA DE AGOSTO

Já há muitos anos que durante o mês de Agosto a Câmara Municipal vinha organizando com algum êxito, as Festividades que em 1970 tomaram o nome de FESTAS DE SANTA MARIA DE AGOSTO, na altura com a participação da Paróquia. Mas estas Festas tinham há muitos séculos conquistado grande prestígio junto dos Castelovidenses de todos os visitantes nacionais e estrangeiros.
Nesse ano de 1970 as Festas apresentaram-se com um novo figurino e tiveram pela primeira vez, lugar a espectáculos e cerimónias de grande relevo. Houve uma enorme afluência de público aos Espectáculos que contou com um numerosa presença dos nossos vizinhos espanhóis.
Não resisto a transcrever a “Justificação e Desejo” do Presidente da Câmara em Exercício nessa altura, Sr. Engº. Malato Beliz:
"Ao programar as Festas de Santa Maria de Agosto, o Pároco, a Comissão Municipal de Turismo e a Câmara Municipal pretenderam fazer reviver algumas das mais tradicionais festividades religiosas e populares do Concelho, certos de que elas vão directas ao coração do bom Povo de Castelo de Vide, o qual através dos séculos, sempre as viveu com a sã alegria e a abertura de espírito que tão belamente o caracterizam.
Que elas possam corresponder ao humaníssimo desejo de conviver, de sorrir e de distribuir por quantos nestes dias se reúnam à sua volta, familiares, amigos ou meros visitantes, os tão ancestrais e sempre renovados dotes de Povo hospitaleiro que são seu apanágio.
Que elas possam constituir, ainda, um verdadeiro cartaz turístico para a nossa tão bela região.
E, enfim, que todos aqueles que nos visitem, durante estes dias, estrangeiros e nacionais, se sintam em sua casa e, ao partir, levem consigo a mais grata recordação de Castelo de Vide e da
sua boa Gente."
O Programa desse ano, contemplava:
Os Festejos começaram no dia 02 de Agosto com a Banda União Artística a cumprimentar a população, a que se seguiram durante dias, os Concertos de Música pela Banda União Artística, Exposições, Festa em honra de Nª. Sª. Da Penha, Teatro Infantil, Jogos, Gincanas e Corridas. Homenagem aos ilustres Castelovidenses – Garcia d’Orta e Dr. Morato Roma, com Exposição Bibliográfica e Conferência.
No último dia das Festas, a 15 de Agosto, deu-se grande relevo à visita de autoridades autárquicas da nossa vizinha Espanha que terminou com um grande festival de folclore Luso-Espanhol. Houve ainda neste dia um desfile etnográfico e um cortejo de açafates.
Ressalvando as devidas distâncias no tempo e nas circunstâncias de cada momento, quem é que não concorda com os princípios enunciados nesta “Justificação”? A verdade é que mesmo nos últimos anos e já com a crise a castigar duramente as nossas vidas, os Castelovidenses continuaram a considerar as Festas de Santa Maria como o segundo grande momento de visitar a Família e os Amigos ( o primeiro é sem dúvida a Páscoa). Entretanto, o modelo das Festas foi-se alterando, deixou de haver o Cortejo do Traje e as Touradas no Largo de S. Roque que deram lugar à Feira de Artesanato e aos bons Espectáculos Musicais.
Houve uma boa tentativa de implementar a semana da gastronomia, sem os resultados que seriam de esperar, mas que seria importante experimentar de novo, com outro formato que poderá vir a dar excelentes resultados.
Este ano a Câmara Municipal, resolveu alterar por completo o figurino dos últimos anos e as Festas de Santa Maria de Agosto, ficaram reduzidas em termos de Espectáculos a uma caricatura dos melhores anos. Acabou-se com a Feira de Artesanato das Bancas dos Petiscos e empurraram-se todas as inciativas para os arrabaldes da Vila, num Parque Chamado de Engº. Malato Beliz, junto à Ribeira de São João. O Programa foi curto e pobre, salvando-se apenas o Festival de Folclore, o Concerto da BUA e pouco mais.
Com a excepção de alguns jovens que na sua imensa generosidade, acabam por aceitar “boa a música” que lhe dão; todas as pessoas com quem falei se mostraram profundamente desiludidas e defraudadas com esta mudança tão radical que transformaram as Festas de Santa Maria, como uma pequena festa de fim-de-semana, sem interesse para a maioria da população, dos numerosos Castelovidenses que vivem fora da terra e dos turistas nacionais e estrangeiros.
Note-se, que não pretendo criticar a Associação da Juventude Local (Ekosiuvenis), nem tão pouco o Rancho Folclórico ou a Banda de Música, que tentaram com os parcos meios de que dispunham dar uma certa dignidade aos festejos e às actuações respectivas e julgo até que em anos futuros terão que ser estas e as outras Associações do Concelho a tomar a seu cargo a responsabilidade de organizar as Festas de Santa Maria, pois só assim teremos a garantia destas não acabarem de vez e de terem o relevo e a importância que os Castelovidenses merecem.
É lógico e compreensível que se façam alterações ao formato e modelo seguido durante bastante tempo, mas neste caso particular, penso que seria útil a Autarquia ter apresentado o seu “novo” Programa às forças vivas do município, respeitando a tradição de um evento que tem na história local uma importância de grande relevo cultural e social.
Estou entre aqueles que defendem uma programação e calendarização de iniciativas, ao longo do ano, estimulando e apoiando as Associações na sua realização, respeitando no geral uma Agenda Cultural, Desportiva e de Lazer, que deve ser aprovada no final de cada ano pelos interessados directos.
Por isso mesmo, dou os parabéns pela Autarquia levar a efeito uma grande inciativa de âmbito cultural a que deu o nome de “Viver a História” e que vai ter lugar no próximo fim-de-semana (4,5,6 e 7 de Setembro) e desejo tenha o mesmo sucesso que tem tido noutras terras. No entanto, e dando voz aos numerosos comentários que criticaram a “alteração ao formato” das Festas de Santa Maria, alerto para o bom senso das entidades responsáveis, que sempre tem havido até agora nestas questões cruciais, no sentido de que no próximo ano estas voltem de novo a ter o brilho e a importância que os Castelovidenses e todos os que nos visitam nesta altura do ano, bem merecem.
Não resisto a incluir neste apontamento, o artigo inscrito no Programa das Festas de Santa Maria de Agosto, no ano de 1972:
“FESTAS
Está cheio delas o calendário.
Não há cidade, vila ou aldeia que não tenha as suas.
Festas como as nossas, diz o Povo, não as há em terra alguma.
As comunidades, que a busca do pão parece desfazer, refazem-se e encontram-se nas Festas.
No geral, andem por onde andarem os filhos da terra, as festas que o povo celebrar à volta da sua igreja ou de alguma capela, em louvor de Nossa Senhora, de Santa Margarida ou de Santo António ou de outro Santo, à sua casa os faz voltar.
Querem matar as saudades!
Querem ver as pessoas de família que ficaram, os amigos de infância, as ruas e caminhos.
Querem… sabe-se lá tantas vezes o quê!
Querem voltar.
Festas de Santa Maria de Agosto!
Festas de Castelo de Vide!
Hora alta de comunhão humana e cristã.
Saltando por cima de tudo quanto possa separar, é altura de nos darmos as mãos, de aproveitar ao máximo a graça do encontro, dos filhos com os pais, com os irmãos e companheiros de escola, com a Senhora da Penha, com…
Como é bom, diz a sagrada Escritura, o encontro dos familiares e amigos!
E quem não fica com mais coragem para retomar o trabalho que tantas vezes separa, sabendo que, passado um ano, voltará e terá de novo a graça do encontro?
E que neste encontro matará as saudades que não morrem e fará crescer o amor que as gera?
Festas!
Oxalá não falte quem as faça, embora com sacrifício.
Bendito !
que tanto bem faz e tantos frutos produz! "
O PÁROCO ALBANO
E com esta bonita prelecção termino com os sinceros desejos que para o ano que vem as FESTAS DE SANTA MARIA DE AGOSTO, sejam melhores do que foram este ano.
Martins Raposo
CV-Agosto de 2009