FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quarta-feira, 16 de setembro de 2009

NESSES DIAS DE DURO SOL!

Hoje vais ficar com a Ti Maria, eu tenho que ir trabalhar lá p’rás meadas! Ou queres ficar com a avó Quitéra?
Oh mãe, deixa-me ficar na Ti Maria! Ela deixa-me brincar com os cães e os gatos.
E com as formigas, acrescentou a rir a mãe do Zé.
- É sim mãe, gosto de ver as formigas, sempre a correr com a boca cheia de palhinhas.
Foi no monte dos salgueiros que o Zé aprendeu a gostar de animais. A Ti Maria e o Ti Pascoal tinham muitos - Cães, gatos, borregos, porcos, patos, perus e galinhas, e o gaiato divertia-se a dar de comer à bicharada, correndo e saltando a brincar, o que não era do agrado dos Tios, ralhando e batendo-lhe, porque ele punha tudo em alvoroço e a fazer estragos.

Filho único, o Zé, fora sempre um gaiato tímido e retraído, isolando-se e sentindo-se feliz em brincadeiras simples, muitas delas inventadas por si. Chegava a levar horas e horas, olhando os carreiros das formigas, correndo enormes distâncias, carregando objectos que muitas vezes ultrapassavam o seu pequeno corpo, e, uma coisa que nunca mais esqueceu, é que geralmente, eram as mais pequenas, as que trabalhavam mais e que levavam os maiores carregos, para as suas longínquas tocas.
Naquele tempo, havia uma enorme rocha, junto do portão de entrada da quinta e o Zé acomodava-se à sua sombra com um pauzinho, ajudando as pequeninas formigas no seu intenso labor. Acontecia que algumas maiores espreitavam próximo da toca, o que as outras traziam, chegando mesmo a tentar tirar-lhes o alimento. Nessa altura o gaiato decidia a contenda, batendo com o pau na atrevida grandalhona.

O Tio Pascoal, quando vinha para almoçar e o via naquelas estranhas brincadeiras, ria-se muito alto, dizendo – o gaiato parece que é parvo, com um sol destes e a brincar com formigas e fingia esmagá-las com as botas, o que punha o miúdo aos gritos, muito zangado.
Sempre a rir, o tio atirava-lhe com um figo e dizia – devias de me ter ido a ajudar a trazer as ovelhas, não é bom estar aí a olhar. Ninguém gosta de ver uns a trabalhar e outros sentados a brincar! Vê bem, que até mesmo essas formiguitas parecem zangadas.
Assim que chegava à cozinha, que era o primeiro compartimento da casa, o Ti Pascoal lançava a mão às sardinhas secas que estavam penduradas ao lado da lareira, enquanto chamava pela mulher – Oh Maria, já cheguei, e vejo que ainda não tiraste a panela do lume.
O Zé, ficava de boca aberta a olhar o velho a comer a sardinha seca e crua, emborcando umas goladas da garrafa de vinho que lhe escorria pelos cantos da boca.
Contrariado com a vida, saia outra vez para a rua a olhar o sol e a praguejar – O raio deste calor vai queimar a erva toda. Onde é que vamos arranjar a comida para o gado? A cara enrugada do ti Pascoal, ficava encortiçada e dura.
O Zé ficava assustado, com o seu vozeirão irado e carrancudo! Tinha ouvido aos mais velhos, lá da rua do forno, dizer que o Sol punha as pessoas malucas. Um pouco triste, perguntava à ti Maria, onde ficavam as meadas. Lá também faz este calor?
CV-13.05.09
Jmr

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