FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quarta-feira, 7 de outubro de 2009

DOS LIVROS E DOS POEMAS
DO QUE MAIS GOSTEI EM AGOSTO!



Arei o rio e pesquei
Peixe que a terra engodou
Semeei trabalho e cresceu
Desolação e miséria
Que o patrão nos legou

Circulava a vida em carris
A riqueza em vagonetas
Da Mina ao Pomarão
E os filhos de Bárbara santa
Ordeiros sempre servis
Como se foram marionetas.

E o rio?!... Tudo levava
Pela estrada do Guadiana,
Sem protesto, sem queixume...
Ao Sol feito de lume
Cada dia da semana
A esperança, de barco vogava!...

Para quê o sofrimento,
O labor, os perigos
Esventrar da terra minério
Se só entende o capital
A igualdade desigual
Dos ricos senhores e mendigos
Que lhes engorda o império?!...

Arei o rio e pesquei
Destroços que a vida deixou
Foi-se o canto do trabalho
O formigueiro da mina
Só o silêncio quedou...

A. Busca
18Jan2001
Foi sem dúvida o Poema “Hino ao Pomarão” do meu amigo, António Manuel Pacheco Busca, que me levou a escolher o livro “MINAS DE SÃO FRANCISCO” de Fernando Namora, para reler em Agosto (Agora ando numa de reler livros antigos!), na mira de descobrir alguma semelhança entre o Poema e o Livro e confesso que não fiquei defraudado. O Escritor e o Poeta aproximam-se cada um à sua maneira na descrição do sofrimento desumano que este trabalho exigia dos operários.
“As Minas de São Francisco”, também conhecidas como as “Minas da Panasqueira”, estavam localizadas na aldeia com mesmo nome, uma Freguesia do Concelho da Covilhã, que fica nas faldas Serra da Estrela, perto do Rio Zêzere. A exploração do Volfrâmio começou nos finais do Sec. XIX, tendo os seus momentos altos, durante as duas guerras mundiais. A partir de 1911 a exploração ficou a cargo de uma grande empresa estrangeira e chegar a ter mais de 800 trabalhadores. A Aldeia de São Francisco tinha em 1960, 2508 habitantes. Em 2001 só contava com 692 residentes.
As Minas de São Domingos, datam do ano de 1855, altura em que iniciaram as extracções das “Pirites Alentejanas”, perto de Mértola e junto ao Rio Guadiana, na aldeia do Pomarão que nasceu em 1859, com a vinda dos Mineiros e desapareceu na década de 60 quando a mina foi desactivada e reduziu a população de Mértola a menos de metade.
Fernando Namora exerceu a profissão de médico, na aldeia de Tinalha , próxima das minas de São Francisco e conseguiu com o seu Romance recriar um quadro vivo e realista de como viviam os mineiros, explorados de forma desumana e arriscando a vida em cada momento pela precárias condições em que eram obrigados a trabalhar, sem a devida remuneração e a assistência medica e social necessária.
A figura central do Romance é o mineiro, no seu colectivo, com os seus dramas, as doenças, os suicídios e a desilusão dos dias repetidos, sem esperança. Braços fundamentais numa máquina de exploração desenfreada e desumana. A mina sugava-lhes o sangue e a alma, despersonalizando-os como seres, reduzindo-os a simples farrapos humanos com os gazes e a “silicose” a desfazer-lhes os corpos.
O escritor, descreve ainda o meio social envolvente, com outras figuras menores a manobrar oportunistamente para sugar ainda mais os trabalhadores, desde o comerciante ganancioso, aos capatazes que faziam o jogo duplo de exercer o mando sobre os trabalhadores com uma crueldade superior ao que lhes era ordenado pelos superiores, escondendo cobardemente os riscos que os trabalhadores corriam com a falta de segurança.
Os “Engenheiros” beneficiando de um estatuto especial, os únicos “senhores” visíveis nesta trama, entregavam o tratamento mais odioso aos chefes, mas também nada faziam por minorar o sofrimento dos operários, um deles que nos parecia ser o mais brando, valendo-se do seu cargo, acabou desgraçando uma ingénua e indefesa rapariga.
Neste Romance, são desmistificadas as “lendas” dos mineiros ganharem rios de dinheiro com o contrabando do minério que escondiam dos seus superiores. A verdade é que só muito poucos conseguiam iludir a apertada vigilância dos capatazes e aqueles que se atreviam, eram facilmente descobertos sofrendo duras represálias, prendiam-nos e nunca mais podiam voltar à mina e nem mesmo noutros serviços eram aceites.
Os poucos que conseguiam ter artes para enganar os chefes, também pouco gozavam com a aventura, sendo que o produto do desvio ficava todo nas mãos dos merceeiros e dos taberneiros. A Família nunca ficava beneficiada e nem os aventureiros marginais ao sistema conseguiam escapar, todos ficavam apanhados na rede apertada pelos que controlavam a exploração.
A Mina, era como um gigantesco polvo que asfixiava e matava tudo em redor, destruindo os campos e as hortas outrora férteis deixando o ventre da terra cheio de buracos e valas, onde o cascalho substituía as plantas. Nem o pobre do Ti Cardo, o velho herói que a tudo resistiu, defendendo o seu pedaço de terra, foi traído por um filho desnorteado e cego pela ambição.
O romance acaba em tragédia, sem esperança nem glória, prenunciando um fim próximo, tal como veio a acontecer anos mais tarde. O leitor fecha os olhos e revê outras Minas, outros lugares, com os mesmos dramas humanos e agradece em espírito a esse grande escritor chamado FERNANDO NAMORA que teve a coragem de denunciar as crueldade com que “Wolfram Mining and Smelting Company Lda”. exploravam os operários das “Minas de S. Francisco”.
O escritor fez parte dessa plêiade de Grandes Escritores, entre os quais se encontravam os nomes Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira, Alves Redol, Ferreira de Castro, Manuel da Fonseca, José Rodrigues Migueis, e muitos outros, integrados na escola do Neo-Realismo, que entendia a arte como interventiva na transformação da sociedade, mais justa, digna e humana. O Neo-Realismo, foi uma literatura de resistência ao fascismo salazarista e talvez por isso mesmo, é ainda hoje, a Escola Literária mais atacada pelos “Modernistas”, pelos “pensadores” e críticos engajados no sistema liberal e neo-capitalista, que tudo fazem para ocultar as suas obras, denegrindo-as e menosprezando o seu valor.
Esta minha apreciação, não quer de forma alguma criticar todos os escritores honestos e sem compromissos com “o sistema”, mesmo que bastante afastados das minhas ideias, têm obras de grande qualidade, algumas bastante críticas em relação à sociedade actual.
Infelizmente, outros que no início da sua vida literária, escreveram obras de grande alcance social, optaram por escolher outros estilos e conseguiram impor-se com grande sucesso como foi o caso do Prémio Nobel, José Saramago. Muito embora continue a gostar de algumas das suas obras mais recentes, continuo a ter uma grande saudade dos tempos em que escreveu o Livro “Levantado do Chão” esse Livro que o escritor disse ter sido um sonho que o deixa-se dizer no final: “Isto é o Alentejo”.
Mas, voltando a Fernando Namora, que nasceu em Condeixa-a-Nova, a 15 de Abril de 1915 e faleceu em Lisboa no dia 31 de Janeiro de 1989, legou-nos uma vasta obra com livros que marcaram toda uma geração, entre os quais destaco apenas os mais conhecidos e quase todos lidos – Retalhos da Vida de Um Médico, A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio, Domingo à Tarde, O Homem Disfarçado, Rio Triste e o Livro de Poesia Mar de Sargaços.
Alguns dos seus livros foram adaptados ao Cinema – Domingo à Tarde por António de Macedo e Retalhos da Vida de Um Médico, pelo cineasta, Jorge Brum do Canto que obtiveram assinalável êxito.
E a finalizar gostaria de publicar neste texto, o belíssimo Poema de António Pacheco Busca, o que só farei com a devida autorização do autor que espero me ansiosamente, acompanhado das suas criteriosas e justas críticas (que são muito importantes para os meus pobres escritos) com sou sempre bafejado.
Até já Amigo!
CV-Setembro 2009
Martins Raposo
In: Wikipédia, Jornal do Fundão, CM da Covilhã.
PS: O Poema “Hino ao Pomarão” se for autorizado, ser incluído no princípio ou a seguir à frase : E a finalizar…
O que achas?
Manda notícias. Obrigado.

2 comentários:

  1. Caro Amigo Sr. Raposo,

    Vi o seu interessante blogue. Deixo-lhe uma informação:
    O livro "As Minas de San Francisco", de Fernando Namora, não se refere às Minas da Panasqueira, mas às minas que ficam junto da ribeira do Taveiró, nas proximidades da aldeia de Mata da Rainha, no Concelho do Fundão.
    Albano Mendes de Matos (albanomatos83@sapo.pt)

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  2. Caro Amigo Sr. Raposo,

    Li o seu interessante blogue. Uma informação:
    O livro "As Minas de San Francisco", de Namora, não refere as Minas da Panasqueira, mas as minas localizadas na margem da ribeira do Taveiró, próximo da aladeia de Mata da Rainha, no Concelho do Fundão.
    Albano Mendes de Matos (albanomatos83@sapo.pt)

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