FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Apenas cinco anos…
O velho estava sentado à lareira com a filha, lastimava-se com o tempo e a ingratidão dos "ajudas", que só ficavam no campo quando andavam muito precisados, depois desapareciam sem dizer agua vai. Estávamos em Janeiro e o Inverno estava muito agreste com muita chuva e frio. Há mais de quinze dias que mal se via o sol, amanhecia a chover e por todo o dia a agua corria por todo o lado, descendo os valados e engrossando as ribeiras que extravasavam o leito inundando os campos, arrastando nas correntes os animais mais pequenos.

- Na semana passada perdi um cordeiro já grandote. Deve ter resvalado na encosta da Ribeira da Vide. Sem ajudas e com os cães fracos e inúteis não consigo guardar o rebanho como deve ser. - O borrego era dos seus?
- Não era, mas o patrão assim que soube, disse logo para repor um dos meus. Não basta a miséria do ordenado mal dar para as sopas, como ainda o mau tempo me rouba os cordeiros. Já só tenho três depois dos outros dois terem morrido, um atacado pelos lobos e agora este vai na enxurrada.
-Onde é que anda o João?
-Qual deles? O mais velho anda aos mandados na D. Francisca, o mais pequeno deve andar por aí a vadiar, mas ele é tão pequenito.
O velho coçou a cabeça rala de cabelos brancos. Pensando bem o gaiato podia vir comigo, preciso de separar o rebanho, as cabras não podem estar mais tempo com a ovelhas. Eu dava-lhe as sopas, sempre ajudava.
A filha ia argumentar, mas o velho atalhou – Oh mulher, o que é tens nessa cabeça dura. Eu só quero ajudar, há por aí muito "ganapos" à boa vida, é só eu querer e levo um ou dois. Depois mais conciliador – Oh Quitéria a vida é assim, nós somos pobres e tu já tens cinco bocas, sem contar com o teu marido que muitas vezes não consegue arranjar trabalho. Estamos em crise, a guerra deu-nos cabo da República que dizia ser a favor dos pobres. Uma gaita…
Leve lá o gaiato, a verdade é que a vida está muito difícil e já há dias em que vai faltando a comida para tanta gente e os que podem ajudar, ainda nos gozam, dizem que somos mal governados. A vida é um inferno!
E foi assim que o João, apenas com cinco anos feitos em Abril, abalou para a Atalaia como ajuda do avô Pedro, na guarda das ovelhas e das cabras que só se lembra de serem muitas e mais altas do que ele.
Naquele Inverno, a erva não crescia com o gelo e o avô zangava-se muitas vezes com João que corria para junto das ovelhas, elas o defendiam do cajado que voava direito à sua cabeça.
Foram tempos muito duros, de madrugada quando saia da choupana, tinha que ir com grande cuidado pois os campos quando não estava a chover, estavam acamados de geada que lhe feriam os pés descalços, abrindo-lhe feridas dolorosas.
Naqueles ermos da Herdade, dias e dias sem ver ninguém, o João transido de frio, pensava na Mãe e nos Irmãos e nas brincadeiras no Castelo. Das duas vezes que fugiu o avô o veio buscar depois de levar uma sova da mãe e com os puxões de orelhas que o velho o arrastava até aos campos de martírio e sofrimento. Foram dois anos terríveis que jamais poderá esquecer.
O Ti Pedro, até nem era má pessoa, mas a vida dura tinha embotado os sentimentos, sempre a trabalhar nos campos dos senhores, ganhando uns míseros patacos, só há muitos poucos anos quando as forças já fraquejavam, o patrão concordou com o seu pedido para ser o pastor da casa. Já trabalhava nesta herdade há mais de cinquenta anos e tinha passado por todos os serviços mais duros da lavoura, abrindo valas, cavando os milheirais, ceifando as searas, debulhando os cereais com o mangal, vindimando e fazendo o vinho nas tunas. Tudo isto sem férias e sem regalias sociais, quando chega-se o tempo de não poder andar atrás do gado seria despedido sem apelo nem agravo, forçado a pedir de porta em porta, como tantos outros.
Quando chegava a noite, o velho acendia a fogueira à porta da choupana, para fazer as sopas, enxugarem as roupas e ao mesmo tempo afugentarem as raposas e os lobos que vigiavam e atacavam o rebanho ao menor descuido. Depois de terem comido as couves com feijão, o avô desembrulhava o queijo seco e duro e se estava com boa disposição, repartia com o neto, uma pequena parte a que juntava um bocado de pão de centeio.0
Nessas noites se a chuva não incomodava, ficavam um pouco de mais tempo ao lume e depois da ceia o velho tirava o cantil da choça, bebia duas ou três goladas de vinho e arrotando alarvemente, olhava com simpatia o “pequenote” que era um pouco reguila mas era despachado e leve a correr atrás do gado. Passava a mão calosa sobre os cabelos crespos do rapaz e desabafava – Esta vida é mesmo madrasta para com os pobres, devias de ir para a Escola, com algumas letras talvez escapasses a esta escravatura.
O João abanava a cabeça – Avô, o que eu quero é ir trabalhar numa horta. Tinha ouvido dizer que as pessoas que trabalhavam nas hortas dormiam na Vila e comiam bem – coelhos, frangos e muita fruta e ainda recebiam dinheiro.
O velho ficava fulo – Se te queres ir embora vai. Pensas que alguém te arranja trabalho? Onde é que tens força para pegar numa enxada? Se te fores embora, tenho logo aí meia dúzia de gaiatos mais fortes e valentes e sem medo das cobras e dos lobos. Ingrato e mal agradecido é o que tu és!
Levantava-se num repelão, sacudia os safões, tirava a peliça que punha em cima da palha e deitava-se com uma velha manta a cobrir os ossos. Ainda bem que o lume estava grande e o calor entrava pela porta da choupana sempre a resmungar baixinho acabava vencido pelo sono.

O João, olhava o escuro da noite com os seus olhos muito vivos e atentos, parece que tinha ouvido o uivar de um lobo. Chamou o “farrusca”, o cão mais pequeno que o avô deixava dormir na sua enxerga aquecendo-se um ao outro. Hoje a noite estava cheia de medos, ergueu a sua pequena cabeça para o céu à procura do sete-estrelo que o avô dizia que dava sorte e suspirando pensava – que bom seria trabalhar numa horta, nem que fosse como “ajuda”.






1 comentário:

  1. É isto meu caro a "memória intacta", para que não esqueçamos e não deixemos que apaguem a nossa memória.
    Mas não nos podemos satisfazer apenas com isso, é muito pouco para tanto sofrimento. É preciso mais, muito mais...
    É preciso lembrar ou informar as gerações as presentes e as vindouras, que o caminho para chegar aqui, não foram cravos e flores nas espingardas. Para chegar aqui “choramos” sangue e suor.
    E antes da minha ou da tua, a dos nossos pais e a dos nossos avós comuns - bisavós no caso - Fortunato do Carmo Carrilho e Joaquina Rosa Pascoal.
    E tudo isto se faz com estes relatos, estes testemunhos.
    A vida foi ruim, mas ainda assim lembro a Intacta memória da Sophia…
    Um abraço
    José Carrilho

    Intacta memória – se eu chamasse
    Uma por uma as coisas que adorei
    Talvez que a minha vida regressasse
    Vencida pelo amor com que a lembrei.
    (Sophia Andressen)

    ResponderEliminar