FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

DO SOFRIMENTO DOS POBRES!


NÃO SABER E NÃO PODER!



Joaquim era um menino bonito e forte! Nascera em Fevereiro de 1943 e parecia pela sua curiosa vivacidade vir a ser um menino inteligente. Toda a Família ficou radiante com o nascimento deste menino.
José, o irmão mais velho 14 meses tomou uma especial atenção a este mano que prometia ser um bom companheiro para as suas brincadeiras.
A mãe de José tinha-lhe dito que já tivera um outro irmão, nascido em 1940, mas que faleceu alguns semanas depois. Talvez por isso olhava para o Joaquim com uma ternura redobrada de atenções e cuidados. Quando este adoeceu, recusou-se a sair do seu lado, faltando ao trabalho para poder acompanhar a sua doença, sempre atenta a todos os seus movimentos de aflição.
Moveu mundos e fundos para que internassem o seu menino no Hospital. Alguns dias depois o médico chamou os Pais e disse-lhes que não havia cura para o menino. O vosso filho tem um “nascido ruim” e o sangue não está bom. Não vai resistir a uma operação e não temos remédios para o salvar. Têm que se conformar, mais dia, menos dia…
Família pobre, sem meios e conhecimentos e sem ninguém "influente" que os pudesse ajudar, não baixaram os braços, eles não queriam aceitar o que parecia inevitável. Já tinham perdido o primeiro filho!
Alguém lhes sugeriu um “ervanário”, muito bom, que vivia lá para os lados do “porto” na Ribeira da Vide.
A Mãe levou o Joaquim ao conhecido “ervanário”, que lhe receitou três chás diferentes, sem quase olhar para o pobre menino, que gemia cheio de dores. Saiu do cubículo incomodada com os maus cheiros de coisas podres e azedas que enchiam o compartimento acanhado, os copos mal lavados e as garrafas vazias indicavam um ambiente com poucas condições de higiene.
Os dias corriam lentos e tristes, o  menino não melhorava e a Mãe inconformada ainda recorreu a outros “ervanários/curandeiros” que lhe receitaram outros medicamentos caseiros que também não tiveram qualquer resultado. Um deles chegou a insinuar que o menino tinha sido envenenado.
- Mas por quem meu Deus? Disse a Mãe! Isso não pode ser verdade, nós damo-nos bem com toda gente e os vizinhos são bons, se mais não ajudam é porque não podem. São pobres como nós!
Os Pais não se conformavam com o cruel e fatal destino,  decorridos alguns meses, o Joaquim acabou por falecer, sem nunca terem chegado a saber qual teria sido a verdadeira doença.
Naquele tempo, as famílias pobres não tinham direito a Médico de Família. Quando as pessoas adoeciam iam ao Hospital, os médicos eram muito poucos para atender toda a população do Concelho, sentiam-se impotentes perante os parcos meios de que dispunham, mesmo com grande esforço e dedicação era muito difícil resolver os inúmeros problemas de saúde. Por isso os curandeiros, os ervanários e os simples “adivinhos” eram muito procurados por gente do povo e até por pessoas com alguns meios económicos.
Algum tempo depois, saímos da Rua da Amoreira, no Castelo para a Quinta dos Exames, perto do Monte de Carvalho e umas vizinhas levaram-nos a ouvir as prédicas de um Jovem Pastor dos Adventistas do 7º Dia.
A igreja estava cheia, o pastor tinha parentes na aldeia e possuía uma voz influente e simpática e com uma máquina de Filmar, projectava imagens que se adaptavam ao sermão do dia, que eu seguia sem grande interesse até ao momento em que o Pastor falando da ressurreição dos mortos, afirmava que havia casos de meninos, que passados sete anos, voltavam ao convívio dos vivos
O Zeantónio estava fascinado com as palavras que ouvira e logo ao chegar a casa, perguntou à Mãe há quanto tempo tinha o Joaquim falecido. Será que vai voltar Mãe?
A Mãe comovida, com os olhos marejados de lágrimas de uma dor que ainda sentia, mas sabendo já das experiências da vida que as coisas não se passavam assim como pregava o Pastor, sentiu-se na obrigação de explicar por palavras simples que aquilo que o Pastor queria dizer é que por vezes aconteciam fenómenos que a fé transformava em verdadeiros milagres.
Seguiu-se um longo silêncio, mas a Mãe vendo o filho na expectativa à espera de uma resposta mais convincente, acabou por confessar que nunca em sua vida tinha assistido a milagres desta natureza. Ela tinha ficado órfão de mãe e de pai, muito criança e se não fosse a sua avó materna dificilmente teria sobrevivido. A perda de um Filho é muito dolorosa, mas perder a Mãe e o Pai é ainda muito maior.
Na pequena cabecinha do pequeno, de cinco anos apenas, deu-se um choque tremendo. A “mentira” do Pastor tinha-lhe retirado o sonho que mais queria ver realizado – o de voltar a brincar com o seu mano Joaquim!
Depois dessa noite, nunca mais os vizinhos conseguiram convencer o Zé a acompanhá-los à sua Igreja!
CV-2009
Martins Raposo









segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

DA MÚSICA

CARMEN DE BIZET – UM BOM ESPECTACULO


A bonita Sala do CAEP – Casa de Espectáculos de Portalegre, estava praticamente esgotada, na expectativa de assistirem a uma versão livre de Cármen de Bizet, adaptada pelo Ballet Flamenco de Maria Carrasco, acrescida com muita boa música flamenca e uma coreografia muito bem encenada por Maria Carrasco que desempenha também a figura principal com uma força dramática fora do vulgar,
As restantes personagens, revelando uma enorme experiência e profissionalismo tiveram um desempenho digno dos melhores aplausos, os bailados, parte deles acompanhados por músicos ao vivo, deram-nos momentos de grande beleza estética, seguindo de perto o tema principal da obra de Prosper Mérimée e seguindo as partes principais da musica composta por Georges Bizet que continua a cativar o grande público.

Georges Bizet, que nasceu em Paris, é considerado um dos grandes representantes do romantismo com obras como os “Pescadores de Pérolas”, “Don Procópio e a Suite L´Arlesiene, esta última  alcançou um grande sucesso, mas foi com a Cármen que obteve o seu maior êxito. Infelizmente, o autor já pode usufruir essa suaúltima glória, por ter falecido pouco depois desta belíssima obra que Brahms chegou a considerar como uma das melhores Óperas do género.



Foi um Espectáculo de grande qualidade esta Cármen com adaptação e encenação de Maria Carrasco, que recebeu calorosos aplausos do público, levando os actores a ofereceram-nos três bonitos “encores” o que de certo modo veio atenuar a única nota dissonante provocada pelo sistema de aquecimento da Sala avariado, e com a cafetaria fechada que deu azo a alguns comentários menos simpáticos que creio que com algum esforço poderiam terem sido evitados, até porque a escolha criteriosa dos espectaculos de grande qualidade que nos têm oferecido, merecem os nossos melhores elogios.
Portalegre,19.12.2009
Martins Raposo


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O MEU LIVRO DE NOVEMBRO


"A CONSPIRAÇÃO CONTRA A AMÉRICA"
O MEU LIVRO DE NOVEMBRO

De: Philip Roth



















Este Livro foi escrito em 2004, mais de 60 anos após os acontecimentos que provocaram a Segunda Guerra Mundial, com Hitler a intensificar a monstruosa perseguição aos judeus e o governo nazi a preparar os tenebrosos campos de concentração onde foram exterminados milhões pessoas inocentes apenas porque pertenciam à comunidade judaica. O Holocausto marcará assim o século XX, como uma das tragédias mais dramáticas da história da Humanidade.
Fhilip Roth, nasceu em 1933, na América, na cidade de Newark, de origem judaica, tem dedicado muitos dos seus livros e ensaios, à problemática da exclusão dos Judeus em muitos países do mundo. A “Conspiração Contra a América” tem como tema a vitória (virtual), nas Eleições Americanas de 1941, de Charles Lindbergh, um perigoso populista que ganhou fama de herói pelo facto de ter concluído com êxito o primeiro voo transatlântico, ligando Nova York a Paris.
Intitulando-se o salvador da Pátria com o falso propósito de afastar a América do conflito que já alastrava a todos os países da Europa, Lindeberg um confesso simpatizante do nazismo, começou uma perseguição à vasta comunidade judaica, perseguindo e assassinando os seus melhores líderes, corrompendo os mais fracos e isolando os mais fortes.
De certa forma, este Livro de desesperança de medo e de opressão, com a maioria do povo americano duplamente enganado por uma enorme farsa levada aos extremos pelo populismo demagógico de um verdadeiro fanático anti-semita e pró-nazi. Enquanto prometia evitar que os jovens americanos entrassem na guerra, tomava declaradamente posições contra os aliados, chegando a ameaçar o Canada. No cúmulo da hipocrisia falava de Paz, mas fazia a guerra mais suja e criminosa, contra uma minoria étnica no seu próprio País.
Mas o mais trágico deste livro de pura ficção(!) é a de que não só tudo poderia ter acontecido, transformando em realidade os planos de loucura e de tragédia para o povo americano e para todos os povos do mundo, como ainda nos dias de hoje, a humanidade não está completamente livre de aparecer um líder semelhante a este Lindberg que com um populismo radical e extremista destrua tudo o que de bom se construiu por um mundo melhor, mais tolerante e mais humano e em Paz.
O Livro de Philip Roth tenta avisar-nos e convida-nos a estarmos alerta contra todas as formas de intolerância. As “cores” com que nos descreve as cenas mais dramáticas, podem não cativar alguns leitores, mas em minha modesta opinião, o facto desta obra ter sido escrita em data muito recente, o autor de forma muito hábil e eficaz quis lançar um “Alerta Geral” para nos precavermos contra os Populistas, os Demagogos e os Fundamentalistas de todas as espécies.
CV- Dezembro de 2009
Martins Raposo
APONTAMENTOS: Philip Roth é hoje considerado um dos melhores escritores da Literatura Mundial, tendo sido premiado com o Prémio Pulitzer em 1997, com o seu livro “Pastoral Americana”. Em 2002 ganhou a Medalha de Ouro da Ficção, atribuído plea Academia Americana de Artes e Letras.
 “A Conspiração contra a América”, recebeu o prémio da Sociedade de Historiadores Americanos, pelo “excepcional romance histórico sobre um tema americano”.
Recentemente recebeu dois dos mais prestigiados prémios do PEN/Nabokov em 2006 e o PEN/Saul Bellow em 2007.
Adeus Columbus, O Complexo de Portnov, Diário de uma Ilusão, Casei com um Comunista, Pastoral Americana, o Animal Moribundo, Homem Comum, Teatro de Sabath, são alguns dos Livros da sua extensa obra literária.
FONTES: Wikipédia, Portaldaliteratura e Wook.





segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

QUANDO UM HOMEM QUIZER


Tu que dormes a noite na calçada de relento

Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

És meu irmão amigo

És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme

Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

E sofres o Natal da solidão sem um queixume

És meu irmão amigo

És meu irmão

Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

Tu que inventas bonecas e comboios de luar

E mentes ao teu filho por não os poderes comprar

És meu irmão amigo

És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

És meu irmão amigo

És meu irmão

Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Paulo de Carvalho


Dia de Natal


Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos,

entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento

e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa

a sua comoção é tanta, tanta, tanta,

que nem dorme serena.
Cada menino

abre um olhinho

na noite incerta

para ver se a aurora

já está desperta.

De manhãzinha

salta da cama,

corre à cozinha

mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza

da matutina luz

aguarda~o a surpresa

do Menino Jesus.

Jesus,

doce Jesus,

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

do Pedrinho

uma metralhadora.

Que alegria

reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortas:

tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

que caíam

crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,

dia de Amor, de Paz, de Felicidade,

de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão