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TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quarta-feira, 19 de maio de 2010

LA CIOCIARA
O MEU LIVRO DE ABRIL
La Ciociara é um dos romances mais importantes que no estilo neo-realista, Alberto Morávia escreveu em 1957, numa altura que o autor, já era considerado um dos melhores escritores contemporâneos e após ter escrito os “Indiferentes”, o “Conformista” e o “Desprezo”. Considerava-no muito próximo de escritores como Elio Vittorini e Pavese, embora alguns críticos lhe encontrassem algumas afinidades com o existencialismo de Sartre, e com obra de Albert Camus.
La Ciociara (A Camponesa) é um romance extraordinário que relata a odisseia de Césira, uma camponesa que casa com um pequeno comerciante que vive em Roma e a deixa viúva ainda bastante jovem com uma filha.
Estávamos no início dos anos 40, a guerra alastrava por todo o mundo. A pequena mercearia de Césira a princípio beneficiou com a situação, até que o Governo Fascista de Mussolini e os Alemães se instalaram em Roma e no Sul da Itália.
Os bens de consumo começaram a faltar e a cidade tornou-se perigosa com o aumento da criminalidade, da opressão e do medo generalizado que os nazis e os fascistas impunham aos mais fracos, atingindo severamente as crianças, os idosos e as mulheres.
Césira foge de Roma, para proteger a sua filha Rosetta dos desmandos da ocupação, procurando no campo a segurança e tranquilidade.
Os obstáculos que encontra pelo caminho, espreitam em todos os lugares, mesmo naqueles onde tem pessoas conhecidas, as dificuldades económicas em que vivem as famílias faz aumentar o oportunismo e o banditismo nas aldeias e vilas campesinas.
Césira é uma mulher corajosa e persistente. Com algum dinheiro que conseguiu ganhar com o comércio, consegue de forma inteligente, escapar a todas as ciladas que os escroques tentam encurralar Mãe e Filha, que decidem fugir para as montanhas, por intermédio de um velho amigo.
Santa Eufémia, assim se chamava o lugarejo onde conseguiram ser aceites, depois de vencerem a hostilidade e desconfiança dos montanheses que lhes cedem uma cabana com o chão térreo, sem qualquer comodidade.
Neste meio claustrofóbico, triste e miserável, apenas se destaca o jovem Michelle, filho de uma das famílias remediadas e que tinha feito estudos superiores na cidade, sendo respeitado pela população, pela sua honestidade e o seu carácter bondoso para com os mais fracos. Odiava a guerra e tinha uma especial aversão aos fascistas, nazis e em geral a todos os corruptos e oportunistas que nestes tempos de morte e destruição apareciam como cogumelos em todos lugares, até mesmo em Santa Eufémia, corajoso afirmava que “não há amigos em tempo de guerra, nem homens, nem dinheiro, nem nada". Michelle, torna-se o anjo da guarda destas duas mulheres desamparadas, num meio hostil e com a guerra a invadir todos os lugares, os refugiados aumentam e ao mesmo tempo fogem para mais longe porque a aldeia já não oferecia segurança.
Com o conflito quase a terminar, os destroços deixados pelos inimigos em fuga, continuaram a aumentar as dificuldades e as agressões não vinham só dos alemães. Os fascistas de Mussolini não lhes ficavam atrás na maldade e nos meios que utilizavam.
Mas foi um alemão que utilizando a sua arma obrigou Michelle a indicar-lhe o caminho a norte das montanhas.

Sem a protecção de Michelle, o ambiente em Santa Eufémia, tornava-se perigoso para as duas mulheres que resolveram sair de surpresa para o vale onde se dizia os aliados tinham derrotado os alemães. A desolação que encontraram nas aldeias destruídas sem ninguém conhecido, obrigou-as a tomarem a resolução de voltar para Roma. No seu íntimo, Césira, tinha esperanças que aqueles americanos, seriam amigos do povo e as ajudariam a chegar a casa sãs e salvas dos imensos perigos que tinham vivido.
Quando julgavam estar próximo dos seus objectivos, aconteceu-lhes o mais trágico imprevisto de todos os maus tempos porque passaram. As sementes da guerra provocam em todos os seres, alterações de personalidade e de caracter, fazendo-as praticar os mais hediondos crimes, sejam eles de um lado ou do outro.
Por absurdo que pareça, a inocência de Rosetta que sua Mãe tão resolutamente tinha defendido, foi violada precisamente por soldados Marroquinos ao serviço dos Aliados quando as duas mulheres já quase tinham alcançado os seus objectivos.
Foram os dias mais terríveis para Césira, pela humilhação sofrida, por não ter conseguido salvaguardar a honra de sua filha, e por ter que se rebaixar a pedir o apoio dos “falsos amigos” que tinham sido uns escroques no princípio da sua fuga.
A guerra para Césira continuava, desmedidamente cruel e dolorosa., agravando-se com a notícia do assassinato de Michelle pelos alemães. Perdera definitivamente o seu melhor amigo que ela amava como se fosse seu filho, o que a levou a desabafar – “que a guerra atinge justamente os melhores, porque são os mais corajosos, os mais altruístas, os mais honestos; uns morrem como o pobre Michelle, outros ficam estropiados por toda a vida, como a minha Rosetta”.
O seu desespero atingiu o cúmulo que a levou quase ao suicídio, perdendo definitivamente a esperança de chegar a casa. Como sempre esta enorme mulher, de uma coragem sem igual, mais uma vez se levanta enfrentando os infortúnios e os azares da vida provocados pela guerra e de cara bem levantada segue em frente até chegar ao seu lar querido e acolhedor.
A guerra tinha acabado, fazendo-lhes renascer nas duas mulheres a esperança de terem conquistado o direito de voltar a viver em paz.
Esta obra monumental, que segue nos seus traços gerais a denúncia do flagelo das guerras que castigam cruelmente os mais desprotegidos, a Mãe Coragem” de Berthold Brecht, prende o leitor da primeira à última página, com uma escrita despojada de artifícios e fantasias. Esta era uma das regras dos neo-realistas que nos quiseram mostrar a miséria de uma sociedade em decadência nos seus valores, agravados por guerras cruéis e injustas. Num tempo em que muitos escritores actuais tecem as piores críticas a este estilo que marcou o Sec. XX, o neo-realismo continua sendo a “escola” que denunciou desassombradamente todas as calamidades provocadas pela burguesia gananciosa, defensoras do capitalismo selvagem e posteriormente do neo-liberalismo que continua nos dias de hoje a ser o mais nefasto inimigo dos trabalhadores de todo o mundo.
Após ter escrito este romance, Albert Morávia foi nomeado para receber o Prémio Nobel da Literatura, mas à última da hora por imposição da CIA, a Academia viu-se obrigada a atribuir a Boris Pasternack o mais alto galardão da Literatura.
La Ciociara foi adaptada ao cinema pelo argumentista, Cesare Zavattini e realização Vitorio de Sica que escolheu Sophia Loren para interpretar a corajosa figura de Césira.
Martins Raposo - Abril 2010
DADOS: Extractos do próprio Livro de Morávia; Wiquipédia; Google;Site Literatura. A última imagem sobre o momento em que Berlim é conquistada, é uma simples homenagem aos heróis que há 65 anos conseguiram derrotar o nazismo.
JMR

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