FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quinta-feira, 23 de setembro de 2010

JOSÉ SARAMAGO
O ESCRITOR A OBRA E O HOMEM























"O escritor é um Homem como todos os outros.
Sonha"
Já passaram dois meses desde o falecimento de um dos maiores escritores da Literatura portuguesa e já quase toda a gente escreveu sobre a Obra e a Vida de José Saramago. Belos e extensos textos sobre a sua biografia e imensos escritos laudatórios sobre os seus livros. Desde o mais alto magistrado da nação ao mais simples cidadão, com particular relevância para o mundo dos intelectuais, escritores e jornalistas de todo o mundo, enviaram palavras de grande elogio sobre a sua obra, sobre o humanismo e a verticalidade do homem e do escritor.
Também eu gostaria de escrever qualquer coisa que transmitisse o meu pensamento sobre este escritor que mereceu a minha atenção como simples leitor da sua obra e a admiração sincera da sua postura como cidadão impoluto, defensor dos mais fracos, defensor da liberdade e de um mundo melhor pelo que lutou toda a vida, intervindo onde se praticavam injustiças sociais e políticas.
Gostaria de saber transmitir o que realmente senti com a sua morte que entristeceu uma grande parte das gentes do meu país. Muitos dos seus livros tinham uma componente política e denunciadora das políticas neo-liberais que têm causado os maiores crimes contra a humanidade, abrindo cada vez mais o fosso entre os que possuem todas as benesses e as riquezas dos países e aqueles que nada têm para além dos seus braços para trabalhar a quem tudo lhes é negado, muitas vezes até o trabalho necessário para seu sustento e da família.
Mas escrever para quê e para quem? O que posso dizer que não tenha já sido dito, nestes dois últimos meses? No entanto, o meu atrevimento já me levou a “escrevinhar” sobre outros escritores, alguns dos quais de muito menor importância que o nosso Prémio Nobel. Saramago que eu conheci pessoalmente e que tenho quase toda a sua obra, com alguns livros autografados pelo autor, certamente desculparia as referências que recolhi em vários Jornais e Revistas, testemunhos de grandes escritores, jornalistas e políticos que deixaram a sua mensagem de mágoa e tristeza após o seu falecimento.
José Saramago, faleceu na sua casa em Lanzarote, no, dia 18 de Junho de 2010, tendo de acordo com o seu testamento, sido transferido para Lisboa. O Governo decretou dois dias de luto nacional e a Câmara Municipal de Lisboa realizou uma Cerimónia Oficial com intervenções de António Costa, Jerónimo de Sousa, Carlos Reis, Mª. Teresa Fernandez de la Veja (Vice-primeira ministro do Governo Espanhol) e Gabriela Canavilhas.
O Funeral realizou-se no Cemitério do Alto de S. João, com a presença de muitas centenas de pessoas vindas de todo o país.

José Saramago, contava 87 anos e nascera na Vila de Azinhaga, Concelho da Golegã, em 16 de Novembro de 1922. Filho de camponeses que a falta de recursos obrigaram a sair da sua terra para Lisboa. Estudou na Escola Industrial Afonso Domingues e exerceu durante algum tempo a profissão de Serralheiro Mecânico. Mais tarde passou a trabalhar nos Hospitais Civis de Lisboa. Em 1946 casou com Ilda Reis de quem se separa em 1970.Em 1947 publica o seu primeiro livro; Terra do Pecado obra menor que não recebeu os favores do público e em 1966 Os Poemas Possíveis também sem grande eco. Depois de 1970, mantém durante 20 anos, um relacionamento amoroso com a escritora, Isabel da Nóbrega. Dá início à sua actividade jornalística e finalmente depois de ter escrito vários livros em prosa e poesia acabou por se dedicar exclusivamente à escrita, deixando-nos livros como, Levantado do Chão, Memorial do Convento, A Jangada de Pedra, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre a Cegueira, A Caverna, O Homem Duplicado, Viagem de Elefante e Caim que foi a sua derradeira obra. Para além dos livros mencionados, escreveu muitos outros Romances, Poesia, Cadernos e Crónicas sobre vários assuntos.

Em 1986, Saramago conheceu a jornalista espanhola, Pilar del Rio de quem afirmou –“Se tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer Pilar, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”. Foi Pilar que esteve sempre ao lado do escritor durante os 24 anos que lhe restou de vida.
 O Escritor foi galardoado com muitos prémios atribuídos em Portugal, Espanha, Itália e Inglaterra, destacando-se entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela, atribuído pela APE, em 1992, o Prémio de Consagração de Carreira, pela SPA em 1995 e no mesmo ano o Prémio Camões e finalmente em 1998 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura.







Personalidade impar da nossa Literatura, deixou-nos algumas frases que definem o escritor e a obra, entre as quais se destacam: Se podes olhar, vê./ Se podes ver, repara./ Tal como o fosso entre os ricos e os pobres se torna cada vez mais profundo, também o fosso entre os que sabem e os que não sabem está a tornar-se vertiginoso. Essa é outra cegueira da razão./ Sou de onde nasci, sou da terra que me criou./ Tu estavas e agora já não estás. Isso é a morte./ Deus é o silêncio do universos e o ser humano o grito que dá sentido. Deus não é mais que um nome./ É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já.



Do muito que escreveram sobre José Saramago transcrevi algumas frases que me parecerem as mais apropriadas em definir a sua Vida e a sua Obra, aqui ficam os testemunhos por ordem alfabética de:
Fernando Gómez AguileraTrabalhador das Letras, príncipe da Literatura. A Vida de José Saramago está marcada pelo trabalho, pela coerência e pelo compromisso de uma literatura livre, fundada na imaginação e na consciência; Filipa Melo – Filho de gente pobre e quase analfabeta, fez-se sozinho para existir com uma ideia do mundo. Tornou-se escritor, um homem com convicções inabaláveis, mas também de escondidas fragilidades. Este é o retrato do primeiro português a receber o Prémio Nobel da Literatura; Gabriela Canavilhas – Foi uma referência luminosa de dignidade e grandeza à escala Universal; Jerónimo de Sousa – A sua dimensão intelectual, artística, humana e cívica, fazem dele uma figura maior da nossa história; Harold Bloom – A Literatura vai sentir a sua falta, do mais talentoso romancista contemporâneo; Hélia Correia -Era uma personalidade impressionante pelo talento, pela verticalidade e pela coragem; José Luís Peixoto – Ele construiu um mundo que no futuro vai estender o seu eco; José Luís Zapatero – Os espanhóis choram Saramago como um dos nossos; José Sócrates – Foi um dos grandes vultos da nossa cultura e o seu desaparecimento, torna a nossa cultura mais pobre; Lídia Jorge – Morreu um escritor genial; Manuel Queiroz – Para se amar a escrita de Saramago não é precisoconcordar em tudo com Saramago. Porque tinha um talento divino; Mário de Carvalho – Era um daqueles escritores tocados pela Graça. Esta Graça encontro-a em todas as suas páginas; Pedro Dias de Almeida – Enquanto jornalista, escritor; militante político e cidadão empenhado, José Saramago travou várias batalhas e alimentou algumas polémicas. Arma favorita: a palavra, sem hesitações; valter hugo mãe – Fica-nos o que fez, o que nos deixou, seguramente erguido diante do tempo como uma muralha.
Como já disse, muitas outras personalidades, pessoas ligadas às artes; escritores, políticos, jornalistas e pessoas simples do povo, se referiram a Saramago, com palavras de elogio e de pesar. Só não as transcrevo por falta de espaço, numa crónica que não devo alongar demasiado Muito poucas pessoas levantaram a sua voz contra o escritor, foram os mesmos que em vida o caluniaram levantaram entraves aos seus livros, mesmo sem os ler, apenas por motivos políticos, mentalidade retrógrada e inquisidora.
Aqui deixo a minha singela homenagem, ao Homem e à Obra de José Saramago que considero a par de Camões, Gil Vicente, Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Maior, entre os maiores, Saramago será sempre um dos melhores escritores da Literatura Portuguesa.
“Só não subiu ao céu, porque à terra pertencia!”
Martins Raposo
CV- Setembro de 2010
DADOS RECOLHIDOS IN: JL, Visão, Expresso, O Público, DN e Jornal I.