FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















terça-feira, 19 de outubro de 2010

SAUDADES DO ADRIANO

ONDE ESTÃO TEUS COMPANHEIROS?


Por princípio, gosto mais de glorificar a data de nascimento das pessoas a que me refiro nos meus escritos, mas por vezes sinto a necessidade de assinalar a data do seu desaparecimento tão grande é a mágoa e a falta que certas pessoas nos fazem nos tristes dias que estamos a passar no nosso país.
Adriano foi um dos mais activos e corajosos intérpretes da “Canção de Protesto que começou a ter grande importância em meados dos anos 60 e da qual fizeram parte Zeca Afonso, Manuel Freire Luís Cília, entre outros. Eles foram os obreiros que revolucionaram uma nova forma de cantar em português. Intérpretes dos nossos melhores Poetas, entre os quais António Gedeão, Manuel Alegre, Manuel da Fonseca, Reinaldo Ferreira, e da música de verdadeiros génios na arte de compor e de tocar, como foram Rui Pato, António Portugal, António Menano, Machado Soares e José Niza.

E assim se fizeram canções imortais como "Menina dos Olhos Tristes, Trova do Vento que Passa, Tão Forte Sopra o Vento, História do Quadrilheiro, Pedro Soldado, Fala do Homem Nascido,Homem Nascido, Tejo que Lavas o Rio",  e tantas outras que a sua voz maravilhosa tornou célebres, nos fez pensar e nos encantou.
Foi ele que cantou: “Ninguém pode calar/ A voz da Liberdade”; “Mesmo na noite mais triste/ E em tempo de solidão/ Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não”;” Ó Alentejo dos pobres/ Reino da desolação/ Não sirvas quem te despreza”.
Adriano, tinha a firme convicção de que as letras e as músicas das suas canções revolucionárias podiam influenciar as mentalidades e modificar a postura de muitos portugueses que o ouviam e seguiam a sua carreira com atenção.Ele conseguiu manter sempre a mesma postura corajosa, na defesa dos seus ideais bem expressa neste poema: “Venho dizer-vos que não tenho medo/ A verdade é mais forte que as algemas”.
 Era assim o Adriano! Um bom gigante que erguia bem alto a sua VOZ! Aquela voz que tanto podia ser grave, forte e possessiva, como podia ser insinuante e colorida como um manto de preciosidades raras da natureza. O seu longo repertório, incluía para além das canções de intervenção, muitas canções populares que o nosso povo tem guardado desde os tempos mais antigos dos trovadores de gesta. Teve grandes êxitos e muita juventude o seguiu como um ídolo antes e depois do 25 de Abril até à derrocada do 25 de Novembro de 1975, em que os vencedores iniciaram os ataques a todas as conquistas conseguidas com a Revolução dos cravos.
O  conceito de cultura popular foi de certo modo adulterado, numa visão distorcida das realidades  do nosso povo, manipulando a juventude, moldando-a em conformidade com os principios do neoliberalismo e de uma pretensa aldeia global no qual o economicismo elimina toda a filosofia de ideais progressistas e humanistas. A obra de Adriano e de muitos dos seus companheiros foi a partir de então, relegada para o fundo das gavetas dos novos senhores do poder.
É um  facto comprovado que a participação de Adriano na acção cívica e  revolucionária através da canção, levou a que os meios de comunicação tenham feito tudo para fazer desaparecer o seu trabalho de artista, intérprete e compositor. Aliás, toda essa gente com responsabilidades nas direcções de informação, ainda em vida do grande intérprete o tinham emparedado nos muros do silêncio, com rancor e raiva. Tinham e ainda têm,  pavor das palavras das suas canções que lhes queimam as más consciências.
Hoje, está tudo muito pior, vinte e oito anos passados após o seu desaparecimento físico, pouco resta da sua memória, e muito menos de quem queira  falar do seu nome e da sua obra. Os tempos voltam a estar ameaçadoramente sombrios, na eminência de uma catástrofe que nos envolve a todos, mas ataca muito em especial a classe trabalhadora, por quem Adriano generosamente tanto se bateu em sua defesa.
Para agravar esta tristeza, regista-se o facto dos seus companheiros de luta terem desaparecido quase todos.Uns porque faleceram, outros porque se cansaram e acomodaram. Outros ainda, no pior sentido, já se passaram para o outro lado da barricada sem pudor e sem vergonha.
Restam muito poucos dos teus Companheiros! E mesmo esses poucos, desapareceram de circulação. Não se ouvem. Não aparecem. Esconderam-nos!
Eu bem digo para ouvirem a tua VOZ! Mas as pessoas têm pressa, estão cheias de preocupações.São as prestações do carro e da casa. São os filhos no desemprego. É o futuro hipotecado. Todos correm sem tino e sem tempo de ouvir.
É pena, mas vou continuar a gritar. É preciso ouvir o ADRIANO!
Que saudades temos de ti Adriano! Que falta nos fazes!
Martins Raposo
CV-16 de Outubro de 2010
NOTAS:  Texto apoiado no Livro " Adriano Correia de Oliveira - Vida e Obra, de Mário Correia.
Fotos extraídas da Net.

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