FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















sábado, 13 de novembro de 2010

DA MÚSICA,COM AMOR!

                                                       Vaso grego, em cerâmica 450 AC
A partir desta data e enquanto as “forças” o permitirem, vou escrever sobre o tema “Da Música, com Amor”, apresentando neste Blogue, pessoas ligadas ao mundo da música portuguesa, sejam compositores, autores de letras, e intérpretes que se tenham distinguido pelo valor do seu trabalho. Neste projecto estão contemplados todos os géneros e estilos musicais.
Por princípio será apresentado apenas um Artista por mês e o critério tem por base a data do seu nascimento, começando pelos mais antigos, sem contudo ser esta uma regra inflexível, podendo eventualmente haver alterações que tenham a ver com comemorações importantes ou com dados que possuo em cada momento.
Os “artigos” são de responsabilidade pessoal, mas abertos a sugestões e críticas construtivas que podem ser corrigidas e publicadas conforme a sua importância.
Impõe-se um esclarecimento prévio - Este trabalho não tem qualquer intenção de se apresentar como crítica ou de promover a defesa deste ou aquele género musical e muito menos individualizar este ou aquele artista.
Esta coluna pretende ser o mais imparcial possível, independente das minhas preferências pessoais que poderei apresentar em textos separados deste tema.
A Figura deste mês de Outubro recaiu sobre:


LUÍS DE FREITAS BRANCO
Luís Maria da Costa de Freitas Branco, nasceu em Lisboa no dia 12 de Outubro de 1890 e faleceu nessa mesma cidade em 27 de Novembro de 1955, Foi criado no seio de uma família madeirense de tradições intelectuais e artísticas, influenciando os seus gostos juvenis para a aprendizagem da música. Seu Tio paterno, João de Freitas Branco foi o mais entusiasta e que mais apoiou Luís e seu irmão Pedro que também foi Director e Compositor de grande mérito.
Teve excelentes professores alguns dos quais Mestres já consagrados em toda a Europa, entre os quais destacam-se: Augusto Machado, Adrés Goni, Tomás Borba, Luigi Mancinelli, Desiré Pâque e Vicent D'Índy, Gabriel Grovlez. Para complementar a sua aprendizagem, viajou pela Europa, ouvindo os Concertos dos grandes Mestres e Compositores daquela época, entre os quais se destaca, Debussy com quem terá estado várias vezes em Paris.
Esta Família faz-me lembrar, com a s devidas distâncias do país e da época, os BACH, que maravilharam o mundo com as suas obras, de Pais para Filhos, mas Sebastião Bach sobressaiu agigantando-se com uma obra ímpar que o elevou ao mais alto patamar da consagração e da fama.
Na Família de Freitas Branco, é o Luís que sobressai naturalmente pela importância e pelo valor das suas composições que abarcam estilos e géneros tão diferentes como as simples Canções musicadas e com inspiração forte dos grandes Poetas Portugueses, entre os quais se contam, Luís de Camões, Antero de Quental, F. Fernando Pessoa, António Boto e José Gomes Ferreira, entre outros.
O Compositor tem grandes peças para Música de Câmara, entre as quais se encontram as célebres Sonatas, os prelúdios e os Quartetos de cordas.
Na Música para Orquestra, nos quais é incluída a “Morte de Manfredo” e as “Suites Alentejanas nºs. 1 e 2; as Sinfonias. Compôs para o Cinema banda sonora dos Filmes; Gado Bravo de Lopes Ribeiro; Douro, faina fluvial de Manuel de Oliveira; Vendaval maravilhoso de Leitão de Barros e Algarve além-mar de Lopes Ribeiro.
Para a Música Coral, compôs muitos temas também inspirados em Poemas dos nossos Poetas; Auto da Primavera, Dez madrigais camonianos, Hino a Santa Teresinha, Lembras-me (João de Deus), Canção do Pastor, Canção da Pedra (Afonso Duarte), Só te canta a Ti (José Gomes Ferreira.
Não cabe nesta pequena crónica enumerar a extensão de toda a sua Obra que teve reconhecimento a nível mundial, tendo sido executas por grandes Orquestras Europeias e algumas delas foram dirigidas pelo seu Irmão Pedro de Freitas Branco.
A sua obra didáctica foi de uma extrema importância pelo sentido de renovação que imprimiu aos seus escritos, e às propostas efectuadas para a remodelação do ensino musical no Conservatório Nacional, advogava a obrigatoriedade do ensino a nível da Escola, desde o Ensino Elementar até à Universidade e propunha para o efeito um projecto de grande importância.
Neste trabalho de renovação teve a colaboração e o apoio do Grande Mestre Viana da Mota que infelizmente viria a falecer ainda antes das suas propostas serem recusadas pelas mentes retrógradas e anti-culturais dos responsáveis governamentais. Apesar desses contratempos ainda foi nomeado membro do Conselho Disciplinar do Ministério de Instrução e Vogal do Instituto para a Alta Cultura (?) e Professor do Curso Superior de Composição no Conservatório.
È desta altura que se conta um episódio lamentável que ocorreu com o seu discípulo Fernando Lopes Graça. Quando este, estava fazer o seu Exame para Piano, no Conservatório, a PIDE apareceu para o prender, tendo de imediato o Júri de que fazia parte Luís de Freitas Branco, protestado e imposto que o aluno acabasse a sua prova que terminou em primeiro lugar com 18 valores., mas acabou sendo levado para a prisão.
Mais tarde, Luís de Freitas Branco, comentava este triste episódio – “O meu discípulo Fernando Graça continua preso e está à mercê de gente que tem do valor dele a mesma noção que a minha égua picarça, pode ter do valor de Shakespeare”.
Esta sua atitude marca a nobreza de cidadão, de civismo e moral engrandecida pelo conhecimento, pela experiência e pelos valores humanistas que se revelam na sua imensa Obra Musical. É verdade que nos seus tempos de juventude terá tido algumas simpatias pela causa monárquica e mais tarde chegou a ter algumas ligações com os integralistas António Sardinha e Alberto Monsaraz, mas o tempo e a amizade que encontrou em pessoas como António Arroio, Bento de Jesus Caraça, Lopes Graça, com quem chegou a colaborar na Biblioteca Cosmos, levaram o compositor a ligar-se aos numerosos Escritores e Músicos que se opunham ao regime.
Esta postura de cidadão e de interveniente por causas justas contribuíram para a sua demissão de todos os cargos públicos que teve como Professor e como Mestre. Foi um das primeiras vítimas das “depurações” efectuadas pelo Fascismo no Conservatório Nacional, no qual terá lamentavelmente colaborado um dos seus companheiros, o Mestre Ivo Cruz, que foi nomeado para o seu lugar.
Foi expulso do programa que tinha na Emissora Nacional porque segundo dizia o Director, Luís de Freitas Branco se apresentou no programa com uma gravata avermelhada, no próprio dia em que teria falecido o Chefe de Estado, Marechal Carmona.
Luís de Freitas Branco esteve sempre acima das traições e ameaças que os esbirros a mando do fascismo lhe fizeram em toda a sua vida, chegando a proibir a apresentação pública de algumas das suas obras, mas nada disso foi suficiente para abafar o prestígio e a fama alcançada por um dos maiores compositores de sempre da música portuguesa.
A sua Obra aí está para testemunhar o seu valor incontestável e só é de lamentar que a mesma não seja conhecida da grande maioria dos jovens músicos portugueses, não só porque os média, se desinteressam na sua divulgação e as próprias Bandas de Música, o tenham afastado das estantes o seu vasto repertório.
Felizmente que ainda tive o privilégio de conhecer parte da sua obra, por intermédio do Major Silvério Campos que foi Maestro da Banda Militar do R.I. 15 de do RIL (Luanda), que foi um dos melhores Mestres que tive como músico militar, pelas suas qualidades técnicas e pelo seu profundo humanismo. O então Alferes Silvério Campos, apresentava frequentemente obras do grande compositor, entre as quais se contavam as Suites Alentejanas.
Para terminar proponho a audição do 1º. Suite Alentejana (a mesma que serviu de música de fundo, na inauguração da Exposição sobre o Centenário da República em Castelo de Vide (Outubro/2010).
Mas por favor não fiquem por aqui, sempre que estejam tristes ouçam, Luís de Freitas Branco! A sua música deixa Portugal mais lindo, menos cinzento, mais azul!
Martins Raposo
CV – Outubro 2010
Bibliografia in: Enciclopédia da Música em Portugal, de Salwa Castelo-Branco;História da Música Ocidental, de Donald  J. Grout e Claude V. Palisca, do Google e do Youtube - Clip a Música e Imagens Fabulosas do nosso quarido Alentejo. Parabéns jpmrp.
.

Sem comentários:

Enviar um comentário