FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















terça-feira, 2 de agosto de 2011

ESTRELAS DE SEMPRE!

RECORDAÇÕES, COM MÚSICA DO ZECA!
Neste dia em que o Zeca Afonso fazia 82 anos de idade, gostava de ter o “dom” de escrever algo de invulgar que não fosse o repetido refrão de frases bombásticas, onde falha a autenticidade do conhecimento pessoal, como é o meu caso que só muito fugazmente tive a felicidade de contactar com o nosso mais famoso intérprete da música de intervenção portuguesa.
Antes dos breves encontros pessoais, tive o privilégio de em Luanda, conhecer a sua obra nos finais dos anos 60, através do Jorge que tinha conhecimentos em Cabinda por onde entravam alguns livros e música que o poder não deixava circular livremente.
Este pequeno grupo a que demos o nome de “Germinal” em homenagem ao grande escritor Émile Zola, era composto por pessoas com os mais diversos gostos, desde o Teatro à Música de que alguns de nós fazíamos parte. Cada elemento trazia para a discussão o seu saber e as suas experiências, mas aos fins de semana os sons predominavam, tanto nas conversas como na acção. Alguns de nós tocavam num Conjunto Musical.
E foi assim que conheci as canções do Zeca, do Adriano, do Letria, do Fausto e de outros que abriam o caminho da música popular e de intervenção.
O Zeca Afonso era sem dúvida o guia principal que servia de exemplo para animar os serões sobre política que interessava à maioria dos elementos do grupo. Os “Vampiros”, o “Menino do Bairro Negro” a “Menina dos Olhos Tristes” e o “Canta Camarada” vieram antes da “Balada de Outono” e do “Menino de Ouro”. Era a juventude que predominava e os seus gostos, mesmo a nível da música local Angolana, inclinavam-se predominantemente para os temas de forte conotação social e política.
Pessoalmente, assisti a dois espectáculos do Zeca Afonso em Luanda onde se deslocou algumas vezes, acompanhado de outros artistas. O mais importante foi em 1975, no novo estádio de Futebol da Cidade que encheu por completo.
                                   
Mais tarde em 1984, tive a sorte de organizar um extraordinário espectáculo em Coruche com a figura do Zeca como cabeça do cartaz que incluía ainda o Janita Salomé, e o Júlio Pereira. Quando digo da “sorte”, refiro-me ao facto de após termos concluído o acordo para sua presença, ter acontecido um problema no Cinema da Vila, que impedia a realização de qualquer actividade pública. O Concerto acabou por se realizar no amplo auditório da paróquia, graças à boa vontade do Padre Silvestre.
O grande “Trovador” apesar de se encontrar já debilitado pela doença, conseguiu levar a assistência ao rubro com a qualidade do seu repertório e a colaboração dos excelentes músicos que o acompanhavam. Foi um dos melhores espectáculos de sempre que hoje ainda muitos Coruchenses se lembram com emoção.
Lá estava a assistir o nosso querido amigo José Labaredas, autor da fotografia que o Zeca tirou em Londres de boina preta e que fez questão de inserir na capa de um dos seus álbuns.
Foi também com o José Labaredas que no dia 23 de Fevereiro de 1987, fomos a Setúbal para o último adeus e caminhámos lado a lado com milhares de pessoas que percorreram o percurso da Escola Secundária de São Julião até ao Cemitério da Senhora da Piedade, a cantar as canções mais emblemáticas do Zeca Afonso.
Por muito que os fariseus palavrosos nos façam promessas com louvaninhas de cinismo,ao falar sobre o talento do Zeca, a verdade é que neste País ainda não houve vontade suficiente para fazer a homenagem digna que o Zeca merece. Enquanto isso não acontece devemos ajudar a divulgar a sua obra em acções que não desmereçam o valor e a dignidade deste grande génio da cultura popular.
Aos mais novos é bom que não esqueçam o Zeca e continuem a ouvi-lo, não só as canções que já citei mas todas as canções que prefiguram na sua obra monumental, de que acrescentarei apenas mais alguns títulos: A Morte saiu à Rua, Coro dos Caídos, Ronda dos Paisanos, Resineiro Engraçado, O Meu Menino é de Ouro, Venham Mais Cinco, A Morte saiu à Rua, Era Um Redondo Vocábulo, o Avô Cavernoso, Coro dos Tribunais, O Que faz Falta, Era de Noite e Levaram-no,Os Fantoches de Kissinguer, Teresa Torga, O Dia da Unidade, Como Se Faz Um Canalha, Quem Diz que é Pela Rainha, a mítica Grândola Vila Morena, etc. etc. etc.
Numa opinião muito pessoal e naturalmente pouco pacífica, julgo que a Grândola Vila Morena, apenas com ligeiríssimas alterações, poderia muito bem substituir, o nosso velho e desactualizado Hino.
O Zeca Afonso para além de intérprete invulgar, foi também um Poeta de grande sensibilidade, com letras de grande significado em termos populares e nos temas de intervenção. Foi compositor e acima de tudo soube acarinhar os seus amigos com solidariedade activa, recebendo em troca a colaboração de grandes músicos, compositores e poetas portugueses e também no estrangeiro, muito principalmente em Espanha, na Galiza onde ainda hoje se mantém uma grande comunidade de fervorosos fãs do nosso Artista.
Em Portugal foi sempre aplaudido e seguido com paixão por numerosos adeptos das suas canções. O Povo adorava-o! Do poder nunca quis receber coisa alguma e os prémios para que foi indicado por Ramalho Eanes, ainda em vida e por Mário Soares a título póstumo, foram recusados com serenidade mas com firmeza.
Aos poderes constituídos antes do 25 de Abril e a muitos outros que nos governaram depois de 75, nunca lhe agradaram a gigantesca figura de intelectual e o poder e influência que exerceu efectivamente junto de muitos jovens.
Como confessei logo de início, falta-me o engenho e a arte para expressar e descrever os meus sentimentos de emoção, de respeito e de gratidão por ter tido a felicidade de viver no seu tempo e ter em muitos dos meus actos individuais e colectivos ter levado as suas canções como símbolo e bandeira para dar mais força às manifestações onde muitas vezes estive integrado, na luta por um mundo melhor de que o Zeca foi um dos mais fieis protagonistas.
Assim deixo-vos com as palavras do Poeta Manuel Alegre – o Zeca foi um homem fraterno, despojado, por vezes até ao exagero. Mas era assim, um revolucionário franciscano…Talvez as sociedades não consigam suportar a força subversiva de um tal despojamento. Por isso o Zeca foi tanta vez censurado. Por isso continua simultaneamente a encantar e a incomodar.
Até Sempre Zeca!
Olhão, 02.08.2011
Martins Raposo
http://www.youtube.com/watch?v=Io_RidA1mlI

1 comentário:

  1. José Afonso, foi como escreves, o «nosso mais famoso intérprete da música de intervenção». Sim, Zeca foi o mais famoso, mas foi sem desmerecimento de outros igualmente extraordinários e dedicados à causa da luta popular, como o foram os desaparecidos Adriano Correia de Oliveira ou até o António Macedo e os, felizmente ainda vivos José Mário branco, Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho e tantos outros, Zeca foi, escrevia eu, o maior de todos.
    De todos gosto, todos aprecio, mas Zeca... ele se ainda estivesse entre nós, certamente não gostaria que o escrevesse, mas... de facto era (é) o maior.
    Um grande, grande abraço por esta evocação.

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