FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quarta-feira, 25 de abril de 2012

                       ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

                             “UMA ESTRELA GIGANTE”
Foi um “GIGANTE DA CULTURA POPULAR PORTUGUESA” com talento, grande generosidade e uma paixão determinada na defesa dos valores da nossa cultura popular, servindo-se da sua belíssima voz para divulgar os melhores poetas portugueses, escolhendo naturalmente todos aqueles que de acordo com os seus ideais defendiam a conquista da Liberdade, numa altura em que as “hienas” ao serviço da ditadura salazarenta perseguiam todos os que se erguiam em defesa dos valores Democráticos e Progressistas.
“O que pretendo fazer – afirmou Adriano nos inícios da sua carreira – é, honestamente, renovar a música portuguesa, tentando um caminho que não seja o único, dizendo às pessoas algo mais do que as chachadas”alienatórias que por aí se cantam”.
Quando Adriano chega a Coimbra em 1959, segue na esteira de Edmundo Bettecourt, Artur Paredes, Fernando Machado Soares e do Zeca Afonso, dando o seu melhor para a criação do movimento da balada que apostava fortemente na mudança de novos ritmos e letras que se inseriam na nova cação de resistência.
Nesta fase Adriano dá a sua voz a poemas de Reinaldo Ferreira, Manuel Alegre, Fiame Hasse Brandão, Urbano Tavares Rodrigues e Borges Coelho. Com músicas de José Afonso, Luís Cília, José Niza, António Portugal e Rui Pato. Ao mesmo tempo apresentava com sucesso as suas próprias composições. Vivia-se o tempo da Praça da Canção em Armas por um novo mundo.
 Em 1963, grava o EP, “Trova do Vento Que Passa”, um Poema de Manuel Alegre, com António Portugal e Rui Pato a acompanhar a voz de Adriano que nos diz: Mesmo na noite mais triste/ Em tempo de Servidão/ Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não.. Esta canção torna-se de imediato um dos maiores hinos de resistência e de contestação ao regime ditatorial, a par dos “Vampiros” de Zeca Afonso, gravado no mesmo ano.
O “Canto e As Armas”n editado em 1969, com poemas de Manuel Alegre, marca uma data histórica na nova canção portuguesa, anunciando com coragem invulgar os ventos de mudança da História. Segue-se o álbum “Cantaremos” com Poemas de Rosália de Castro, Manuel Alegre, António Gedeão e Assis Pacheco, com o apoio musical de Rui Pato, José Niza e Carlos Alberto Moniz.
O Outono de 1971 marca de facto, o momento mais importante da mudança radical, imposto pelo movimento da “Nova Canção” com “Cantigas de Maio” de Zeca Afonso, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, “Os Sobreviventes” de Sérgio Godinho e “Gente Daqui e de Agora” de Adriano Correia de Oliveira. Sobre este movimento recolhemos o depoimento de José Niza que nos dizia – “Foi esse Outono, um Outono musical histórico. O Outono de uma viragem decisiva na evolução da música popular portuguesa”.


                                       
O álbum “Gente Daqui e de Agora” é uma das obras imprescindíveis para compreendermos a evolução da MPP, seguindo rigorosamente os princípios enunciados por Adriano que nos diz – “A intenção é a de dar voz à poesia que tratem de temas que tenham a ver com a nova realidade social”. Na canção “E Alegre Se Fez Triste” Poema de Manuel Alegre, ouvimos a voz do Adriano – Aquela clara madrugada que/viu lágrimas correram no teu rosto/ e alegre se fez triste como se/ chovesse de repente em pleno Agosto…
Quando chegámos ao 25 de Abril, Adriano lançou o álbum “Que Nunca Mais” com poemas de Manuel da Fonseca que na altura a crítica considerou um dos melhores álbuns do cantor. Uma das canções mais famosas deste álbum, “Tejo Que Lavas No Rio” que muita gente desconhece ser daquele escritor Alentejano.

Os anos próximos são de grandes e pequenos espectáculos, percorrendo o País de lés a lés, passando por cidades e aldeias, levando a mensagem das suas canções de intervenção, junto de um povo que em muitos sítios nunca tinha ouvido a sua voz e a sua música. Fazia esse trabalho junto do povo, com imensa alegria, generosamente, não recebendo nada em troca, para além de um bom petisco e um bom vinho de que era apreciador.
Os anos passam e algumas situações políticas trazem-lhe o amargo da desilusão. Já então os “fariseus” da política portuguesa, se lançavam encarniçadamente contra os ideais do 25 de Abril, atacando as suas conquistas mais emblemáticas, como foi o caso da Reforma Agrária que começou logo no ano de 1975, no Governo de Mário Soares, com António Barreto, ambos servirem de carrascos destruidores de uma das mais belas conquistas da Revolução.
Adriano lança em 1978, “Notícias de Abril” que relatam a sua experiência em Trás-os-Montes, junto de um povo que ainda tinha muito por descobrir da sua música tradicional e popular. A canção “na Herdade dos Cortiços” põe nas palavras de um pastor essa frase de imenso significado –“Homem que manda no homem/como quem manda no gado/não cabe aqui entre a gente…”. É mais uma canção de denúncia, mas cheia de esperança.

Apesar das contrariedades, do silêncio a que parte da comunicação social ostensivamente o cercavam, Adriano continuava incansável a trabalhar em projectos musicais de grande qualidade, como foi o álbum “Cantigas Portuguesas” uma obra feita com o brilhante profissionalismo a que o artista já nos habituara., onde pontuam as canções: Lira, Canto dos Ceifeiros e Quando eu Chegar ao Barreiro e a Canção do Linho” que nos diz: “Já se vai tecendo no Norte/um linho novo/Já se vai mudando a sorte/da nossa gente/ do nosso povo…ou então este verso tão denso e esperançoso – “Eu canto o Alentejo novo e colectivo/ Como quem canta um amigo que parte/Ninguém pode vencer um povo que resiste/ E tem Catarina por estandarte”.
Adriano morre no dia 16 de Outubro de 1982, em Avintes, sua terra natal, tem apenas 40 Anos de idade e uma montanha de projectos por concretizar, alguns já quase em fase de conclusão e que serão postumamente editados.
Todos os Escritores, Poetas, Músicos e Compositores que trabalharam com o Adriano Correia de Oliveira ou que simplesmente tiveram o privilégio de o conhecer, são unânimes em lhe tecerem os maiores louvores, reconhecendo o seu génio como intérprete e compositor e ao mesmo tempo a verticalidade e coerência com que sempre defendeu o seu ideal humanista. Defensor acérrimo dos mais desfavorecidos, incansável lutador da liberdade, da fraternidade e da igualdade.
José Niza, caracteriza assim o Adriano –“ Porta-voz da juventude dos anos difíceis de 60, trovador da resistência ao fascismo e à guerra colonial, Adriano cantou os grandes poetas da sua geração. O que Manuel Alegre escrevia na clandestinidade, no exílio, na guerra, Adriano cantava. E, cantando, a poesia ganhava novas dimensões, andava de boca em boca, transformava-se em armas corrosivas do sistema, impossível de encarcerar – Não se pode cortar a raiz ao pensamento – como diz o Poeta”.
Manuel Alegre na hora da despedida do grande cantor, também não lhe poupou elogios: “Adriano Correia de Oliveira foi e é um dos grandes símbolos duma luta de uma geração. Uma geração marcada, que ao longo deste ano viu partir alguns dos seus. Ele foi o mais corajoso dos trovadores do seu tempo, o mais generoso. O que mais deu e o que menos quis para si”
Vou terminar esta pequena homenagem registando mais uma vez as palavras de um dos seus melhores amigos, que nunca o traiu, nem abandonou e que definiu quanto a mim de uma forma absolutamente genial o verdadeiro carácter e a personalidade de uma dos melhores cantores de todos os tempos. As palavras finais são de José Niza: “Disse há dias numa entrevista que o Adriano era o Salgueiro Maia da revolução dos cravos que as suas canções ajudaram a fazer. É que ele arrancou com elas como se fossem carros de combate que, naquela noite de Abril, saíram de Santarém. Sem medo, como Salgueiro Maia.
Não quis benesses. Não quis coisa nenhuma, como Salgueiro Maia. Não tirou o lugar a ninguém. E assistiu paciente, à subida daqueles que trepavam nas suas costas. Sem sequer os sacudir.
Morreu pobre, como sempre foi, não quis enriquecer, não quis servir-se do seu nome para ser vedeta. Não cedeu a ninguém, a nenhuma coisa. Não se vendeu por preço nenhum”.
O nosso país tem tido ao longo da sua história alguns heróis que lutaram pelas suas ideias até à morte. Grande parte foi deliberadamente esquecida com as habituais barras de silêncio impostas por pessoas que têm interesse em reescrever a história à sua maneira, servindo-se de todos os falsos pretextos para destruir os feitos e as obras, daqueles que se baterem pelos ideais da democracia e da liberdade.
Adriano Correia de Oliveira, tem sido vítima deste processo. Digamos o mesmo em relação a todos os seus companheiros de que relembrarei alguns dos nomes, como Carlos Paredes, Fausto, José Jorge Letria, Sérgio Godinho, Francisco Naia, Fernando Tordo, Luís Cília, Zeca Afonso, Vitorino, José Mário Branco, Luísa Basto, Samuel, Padre Fanhais, Pedro Barroso, Pedro Caldeira Cabral, José Barata Moura, Júlio Pereira, Maria Guinot, Rão Kyao, Carlos Mendes, Ermelinda Duarte, Janita Salomé, Manuel Freire e muitos, muitos outros.
A indicação destes nomes que alguns críticos podem acintosamente dizer que nem todos foram heróis da resistência e já não falo dos Grupos Musicais que os houve também de grande valor, eu direi apenas que nunca é demais lembrarmos as vítimas do ostracismo e do silêncio imposto para que os mais novos não cheguem a conhecer os nossos cantores mais emblemáticos na luta contra o fascismo. "A lavagem da história" continua e os seus hediondos autores continuam a sua obra destruidora e criminosa.
Recuso-me a assinalar os nomes com graus de distinção ilimitada. Quero dizer, tenho sérias dificuldades em dizer – este ou aquele é o maior de todos! Tenho uma grande admiração por todos que dentro das suas capacidades, conhecimentos e qualidades naturais souberam impor a sua obra, mas repugna-me ouvir gente de duvidosa estirpe, classificar hipocritamente como o maior, seja ele, cantor, músico, poeta ou escritor, como sendo o maior de todos, deixando muitos jovens na dúvida. Por isso considero que todos os nomes que mencionei tiveram e alguns felizmente ainda têm o direito de pertencer a essa grande plêiade de lutadores pela Democracia e pela Liberdade.
Adriano está entre os maiores cantores de todos os tempos! É sem dúvida um dos heróis do 25 de Abril.
VIVA O 25 DE ABRIL!
25 de Abril de 2012
NOTAS: In Livro "Adriano Correia de Oliveira -Vida e Obra por Mário Correia