FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















terça-feira, 20 de agosto de 2013


          A MORTE DE UM GRANDE ESCRITOR
                                    
Tínhamos saído de Castelo de Vide para uma curta viagem, quando via internet soubemos  da triste notícia. Urbano Tavares Rodrigues, um dos nossos melhores escritores contemporâneos, acabava de falecer em Lisboa. Alentejano por adopção e por fortes laços familiares, Urbano deixou-nos uma imensa obra literária que ultrapassa regiões e fronteiras. De qualquer modo e apesar do escritor ter revelado influências do existencialismo, na verdade as gentes do campo alentejano marcaram grande parte da sua obra. O escritor engajado politicamente, faz parte da nobre galeria dos resistentes à ditadura salazarenta e como tal sofreu as consequências desse tenebroso regime fascista. A coerência e a verticalidade com que sempre defendeu os seus ideais, pagou-os com o afastamento do ensino, a prisão e o exílio e perseguição constante dos esbirros que procuraram destruir o escritor e a sua obra. São dele as palavras: Serei Comunista até ao último momento!

Em 1983 foi organizada pela Câmara Municipal de Coruche, a primeira Feira do Livro na "Princesa do Sorraia" que incluía para além dos pavilhões das diversas editoras, uma semana de Filmes ligados a problemas da Juventude, vários espectáculos de música popular e um encontro entre dois grandes escritores e um musicólogo de muitos saberes. Um desses escritores foi o Urbano Tavares Rodrigues que nos falou sobre os seus livros, os escritores que influenciaram a sua obra e sobre as terras e gentes do Alentejo.
O outro escritor foi o Batista Bastos que dissertou sobre o movimento neo-realista e os autores contemporâneos que entrevistou como jornalista e crítico literário.

Ruben de Carvalho deu-nos uma lição sobre os diversos estilos da música dos anos 60. Foi um encontro memorável a que tive a honra de assistir como ouvinte atento e como responsável pela "equipa" que elaborou o programa deste evento que terminou com um concerto memorável de Carlos Paredes.
Depois do colóquio acompanhei os escritores e o musicólogo, no jantar servido no Restaurante "O Farnel", pela extraordinária cozinheira D. Silvéria e o apoio às mesas de seu marido o Sr. João Peseiro que a sua habitual simpatia e muito profissionalismo, fez questão de presentear os convidados com os melhores vinhos da região. Tive então, o prazer de assistir a uma interessante e viva discussão sobre literatura, entre o Urbano e  o BB. Infelizmente, o nosso escritor já na altura não podia beber álcool, mas nem por isso a conversa deixou de ser animada. Lembro-me que o Ruben, o mais jovem dos três, assistia com visível satisfação à conversa  dos dois amigos. Urbano  atencioso e calmo, enfrentava o vozeirão do BB, argumentando com serenidade os pontos de vista do amigo.
Foi a partir desta data que comecei a ler os livros que Urbano Tavares Rodrigues já tinha escrito e que depois veio a escrever. Distingo apenas alguns deles - Bastardos do Sol, Vida Perigosa, Uma Pedrada no Charco, Terra Ocupada, A Impossível Evasão e o Último dia e o Primeiro. Falta-me ainda ler alguns dos seus romances, das novelas e dos muitos ensaios que escreveu.
Apesar de Urbano ter sido distinguido com vários prémios literários e de ter numerosos leitores, estou convicto de que o facto da sua opção política declaradamente de esquerda, levou a que os diversos poderes instalados, depois do 25 de Abril, o terem relegado para o esquecimento forçado por Governos travestidos de democratas, mas que no fundo sentem algum saudosismo do passado. É muito triste, mas é mesmo assim! Este homem que nos deixa uma obra multifacetada por romances, ensaios, peças de teatro, contos, novelas e antologias, continua menorizado pelos críticos e sem um estudo pormenorizado conforme o exige o valor literário da sua obra.   
Aqui fica a minha modestíssima homenagem ao Homem e ao Escritor que merece que o País o reconhecem entre os seus maiores.
CV-15 de Agosto de 2013
Martins Raposo
Informações: Google, Jornais PT

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