FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















domingo, 30 de novembro de 2014

                                                               EÇA DE QUEIROZ

A 25 de Novembro de 1845, nasce, na Póvoa do Varzim, o escritor português José Maria Eça de Queirós [ou Queiroz, conforme a grafia vigente na sua época]. Iniciou a sua carreira nas letras, quando era finalista do curso da Faculdade de Direito de Coimbra, com folhetins dominicais na Gazeta de Portugal. De 1866 a 1875, Eça escreve temas românticos mas já com processos de descrição realista. Fazem parte desta época, Prosas Bárbaras, Mistério da Estrada de Sintra e alguns contos. De 1875 a 1887, entra na fase realista, com uma forte crítica social. Neste período, cria o romance de costumes, com análise objectiva e, por vezes, até cruel da sociedade, tendo por sustentáculo a ironia. O Crime do Padre Amaro, O primo Basílio, O Mandarim, A Relíquia, Uma Campanha Alegre e Os Maias, pertencem a este período, sendo esta última obra considerada o expoente máximo do realismo português. Numa terceira fase, de cariz nacionalista / realista (1887 a 1900), de tendências por vezes excessivas, embora atenuadas pela moderação e pelo sarcasmo, inserem-se A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras, A Correspondência de Fradique Mendes, Últimas Páginas e diversos contos. In.: Efemérides - 25.11.2014
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A 25 de Novembro de 1845, nasce, na Póvoa do Varzim, o escritor português José Maria Eça de Queirós [ou Queiroz, conforme a grafia vigente na sua época]. Iniciou a sua carreira nas letras, quando era finalista do curso da Faculdade de Direito de Coimbra, com folhetins dominicais na Gazeta de Portugal. De 1866 a 1875, Eça escreve temas românticos mas já com processos de descrição realista. Fazem parte desta época, Prosas Bárbaras, Mistério da Estrada de Sintra e alguns contos. De 1875 a 1887, entra na fase realista, com uma forte crítica social. Neste período, cria o romance de costumes, com análise objectiva e, por vezes, até cruel da sociedade, tendo por sustentáculo a ironia. O Crime do Padre Amaro, O primo Basílio, O Mandarim, A Relíquia, Uma Campanha Alegre e Os Maias, pertencem a este período, sendo esta última obra considerada o expoente máximo do realismo português. Numa terceira fase, de cariz nacionalista / realista (1887 a 1900), de tendências por vezes excessivas, embora atenuadas pela moderação e pelo sarcasmo, inserem-se A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras, A Correspondência de Fradique Mendes, Últimas Páginas e diversos contos. In.: Efemérides - 25.11.2014
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Apontamentos - Eça foi desde sempre o meu escritor predilecto e considero-o um dos melhores romancistas do mundo. A primeira vez que ouvi falar deste escritor foi nos princípios dos anos 50 e foi pela voz de um Padre que fazia uma alocução sobre as heresias a que ele assistia e uma delas era o facto de algumas pessoas lerem livros de escritores amaldiçoados pela Santa Madre Igreja. Faziam parte do índex estabelecido pela PIDE e da própria Igreja.
Eu era um miúdo de 10 anos e pouco sabia de Literatura, embora já tivesse lido muitos livros, mas a maior parte diziam respeito a histórias de aventuras e de heróis do far-west comprados na loja do Sr. Cid em Monforte.

Naquele dia tinha ido tocar com a Banda dos Encarnados, numa procissão na Freguesia de Vaiamonte. O Padre referia-se ao livro O Crime do Padre Amaro, como sendo um panfleto inspirado pelo Diabo e quem lesse o livro estaria a praticar um verdadeiro sacrilégio. Não compreendi de imediato o significado das palavras do zangado Padre e tive que perguntar aos mais velhos o que ele queria dizer. O Mestre mandou-me calar e aconselhou, não te metas nestas coisas, quando fores mais crescido certamente saberás compreenderes mas para já fica sabendo que o Senhor Padre avisa - Quem ler aquele livro estará a cometer um enorme pecado.

Em fins da mesma década, a frequentar à noite, o 1º. Ano, na Escola Comercial Júlio das Neves, em Tomar um colega da minha turma, sabendo do gosto que tinha por ler romances de escritores portugueses e por demonstrar alguma curiosidade por saber coisas de que se falavam em segredo com os amigos, sobre Democracia e o Socialismo, certo dia disse-me.


- Queres ler uma obra importante sobre o Socialismo?

Fiquei um pouco admirado com a pergunta, vindo do Carlos que era mais novo do que eu e que pelo seu comportamento nas aulas parecia um rapaz muito ajuizado e pacífico, mas respondi-lhe - Sim quando puderes trazer o livro ficas a saber que vou ler com muita atenção.

Daí a alguns dias o amigo Carlos, passou-me um bilhete que dizia para nos encontrarmos fora da Escola para emprestar o tal livro. Enquanto caminhávamos para casa e sem mais ninguém por perto entregou-me o Livro com todas as cautelas.
- Não mostres este livro a ninguém, está proibido pela censura e é muito perigoso. Não leves muito tempo a lê-lo e não andes com ele na rua.
Agradeci-lhe apreensivo e nessa noite fria de Dezembro, corri de imediato para o  quarto onde residia e quase tive medo de acender a luz. Fechei as Janelas que eram num rés-do-chão de uma casa de gente pobre que me tinha alugado o quartito, onde mal cabia uma cama de solteiro.
Depois da luz acesa, abri o embrulho que trazia o livro e fiquei espantado com o título de "A Capital" de Eça de Queiroz.
Depois de ler algumas páginas, dei conta de que devia de haver alguma confusão na cabeça do Carlos, pois eu já tinha ouvido falar no Capital mas que este seria de um escritor russo, embora não soubesse o nome, não tinha nada a ver com o Eça de Queiroz que era português.
A história do personagem principal desta obra era muito simples e fácil de compreender, tratava-se de alguém puramente ingénuo e sem conhecimentos para alcançar a fama que tanto almejava. O Jovem que tinha abalado da província para Lisboa (A Capital) para se lançar na escrita e tornar-se famoso, acabou na miséria e voltou para Oliveira de Azeméis ainda mais pobre do que quando se meteu naquela aventura.
Prevendo que havia alguma confusão na cabeça do amigo Carlos, não tive coragem para o desiludir e entreguei o livro agradecendo e dizendo apenas que tinha gostado muito.
Na altura fazia parte de um pequeno grupo que estava a preparar uma peça de Gil Vicente. O encenador, era um aluno mais velho que frequentava o 3º. ano mas  de quem o Carlos  era muito amigo. Chamava-se Serrano e trabalhava numa Fábrica na Matrena. Ele vinha muitas vezes ao café que nós frequentávamos  depois das aulas para tirarmos algumas dúvidas sobre as aulas, ajudava-nos em alguns problemas e partilhava a amizade com muita simpatia e compreensão.
Num fim-de-semana encontrámo-nos por acaso no Jardim do Hotel dos Templários e conversa puxa conversa, veio à baila o tal livro do Eça de Queiroz e  perguntei quem era este escritor.
O Serrano, sempre muito compreensivo sobre a minha total ignorância. disse-me - Não tarda que venhas a ter conhecimento com as suas obras, mas A Capital até nem é das mais conhecidas. Deves ler os Maias, O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio entre outros bons livros desse grande escritor. Ele foi um dos principais escritores que se interessou pelo novo estilo que já existia noutros países que era o Realismo. E terminou dizendo - Eça de Queiroz é dos melhores da nossa Literatura.
Depois de o ouvir com muita atenção, confessei-lhe a  minha dúvida - Então diga-me lá se este escritor tem alguma coisa a ver com o Socialismo dos Russos.
Ele sorriu complacente e disse - Eça de Queiroz foi um  escritor muito crítico da sociedade do seu tempo, era um humanista à sua maneira, mas também muito caustico em relação ao poder existente na altura, mas daí a ser um escritor socialista vai uma grande distância. Ele era um burguês e como tal viveu toda a sua vida, mas tinha ideias muito próprias sobre o Romantismo que vigorava até então. Fez parte de um grupo de escritores muito firmes nas novas ideias sobre a Literatura e foi um dos mais influentes da sua geração.


- Já me dei conta da tua confusão, o que querias ler é uma obra de Marx (Filósofo Alemão) que se chama O Capital. Um destes dias vou-te emprestar um resumo dessa obra, está em espanhol, mas ajudo-te nas palavras mais difíceis de compreender. Este sim é um Livro proibidíssimo pela Censura e pela PIDE. Ai de ti se souberem que andas a ler estes livros . É um segredo que fica só entre nós os dois.
Prometi guardar o segredo com todas as cautelas e que ninguém o vai saber. Dias depois o Serrano entregou-me um caderno volumoso onde vinham os princípios da obra de Marx, escritos em espanhol.
E foi assim que tive o segundo encontro com o grande escritor. A partir de então comecei a ler todos os livros que havia sobre Eça de Queiroz, mas o Crime do Padre Amaro só mais tarde consegui ler numa edição brasileira e já estava em Luanda.
Agora como notas finais, não deixo de comentar as palavras de Mario Soares num artigo em que comentava a demissão do Ministro Miguel Macedo e a prisão do ex-primeiro Ministro José Socrates. Referindo-se aos episódios desta semana declarou ter havido coisas boas e más ( La Palisse). Pela minha parte refiro o dia 25 de Novembro de 1975,como a parte má da historia contemporânea. Penso ter sido uma tragédia e o começo dos ataques às conquistas alcançadas com o 25 de Abril de 1974. Das boas é saber que neste dia nasceu em 1845, um dos grandes escritores da Literatura Universal.
CV-25.11.14 - Martins Raposo
 

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