FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quinta-feira, 20 de novembro de 2014


Uma Vida De Sol e de Chuva!

Um pequeno conto

O velho Antunes, voltava já tarde do seu hortejo, vergado sobre o peso do saco das batatas e das couves  que sua esposa lhe pedira logo de manhã!
-Ainda bem que chegastes, já não tínhamos nada para cozinhar. Acabaram-se as couves e as batatas, precisava destas  hortaliças para misturar com o feijão.
João Manuel Antunes, gostava de se levantar cedo e nessa manhã nem sequer parou na Taverna do Tavares que ficava logo ali perto de casa. O costumado copito de aguardente bem podia esperar pela tarde. Ainda tinha que sacar cinco ou dez tostões à sua Esmeralda. Ela é que administrava os parcos meios que possuíam, resultado da pequena reforma e do seu trabalho diário.
A manhã estava fria, tinha geado e as plantas estavam cobertas por uma fina camada branca de gelo. Das oliveiras caiam algumas gotas, tornando as suas folhas verdes e luzidias e as azeitonas que começavam  a ter a sua cor negra. Estavam grandes e prontas a ser colhidas. O Antunes olhou-as pensativamente, estava na hora de estender os panos e encostar as escadas, subir e colher o fruto. Terminou a inspecção  do arvoredo que estava carregado de frutos. Abanou a cabeça, com um longo suspiro e com uma espécie de queixume levou as mãos aos quadris.
Antunes, a meia voz desabou só para consigo; Isto da velhice é a pior coisa que nos pode acontecer, vêm as dores nos ossos, a falta de paciência e de forças para as tarefas da agricultura que ainda é bastante dura para alguns que como eu têm que tratar da terra com as antigas ferramentas.
Entrou dobrado na cabana que tinha apenas único espaço, com alguns mochos espalhados à volta de uma pequena lareira. A um canto tinha uma mesa e alguns utensílios pendurados que serviam para fazer breves refeições. Do outro lado estava uma velha tarimba com um enxergão cheio de folhas de milho.
Nesta manhã ainda em jejum, procurou num  pequeno saco, donde tirou um naco de pão já um pouco duro. De uma das gavetas retirou o queijo e as azeitonas. Acendeu a lareira sobre o lume pôs uma trempe onde colocou uma velha cafeteira de alumínio com  um pouco de água. Alguns minutos depois com a água a ferver, retirou-a do lume e adicionou-lhe duas colheres de café com um pouco de açúcar amarelo.
Já com a caneca a fumegar, veio até à porta espreitar o sol que começava lentamente a clarear o dia. Ainda é cedo pensou ! Retirou da cantareira uma garrafa de aguardente  deitando algumas gotas no café. O lume estava grande e convidativo. Antunes sentou-se a pensar na vida. Era bom que o meu António viesse uns dias antes do Natal com os filhos, sempre me davam uma boa ajuda na colheita. As oliveiras este ano estão bem carregadas, ainda vão dar uns bons litros de azeite.
Veio-lhe então à lembrança as discussões que a Família tinha tido lá em casa quando ele apareceu anunciando a sua vontade de comprar a quinta do "tio" Anacleto. Os mais acerados foram os filhos que tinham vindo todos passar a Páscoa à terra. A Camila dizia que os Pais não precisavam de estar a comprar terras que já não iam ter proveito e lucro. O António perguntava, se  a reforma do caminho de ferro não lhe chegava para viveram bem. O pais já não têm idade de aventuras.  Até a Ana  a mais nova, dizia que se a reforma não chegasse, os pais podiam muito bem ir para sua casa no Algueirão. Aonde comem dois, comem mais dois ou três.
Dos três filhos só a Camila, a mais velha, não era casada. Tinha tirado o Curso de Professora e vivia no Barreiro como Professora. Era a que vivia melhor e vinha mais vezes a casa dos Pais. O António, trabalhava como carpinteiro na construção civil. Casara muito jovem  e tinha três filhos. A mulher andava sempre doente e a educação dos filhos, todos rapazes, ficaram-se pelo básico. Cada um trabalhava no que aparecia ocasionalmente. O casal vivia em dificuldades permanentes.
A Ana também tinha casado muito jovem, com um rapaz aqui da Vila. A escassez de trabalho levaram-nos a ir para fora da terra como os outros. Ela trabalhava de mulher a dias em várias casas de gente da média burguesia. O marido pertencia como soldado à GNR. Tiveram duas filhas já um pouco tarde para a sua idade, mas viviam remediados sem grandes complicações.
Naquele ano, o Antunes, fazia dois anos que se tinha reformado dos caminhos de ferro. Trabalhara mais de trinta anos, nas oficinas no Entroncamento. O vencimento não era grande, mas depois que os filhos tinham saído de casa, ele e a sua Esmeralda, sempre muito comedida nos gastos de casa, conseguiram arranjar um pequeno pé de meia. Quando se reformou, venderam a casita que tinham comprado com grandes sacrifícios mas que na altura ainda lhes rendeu uns bons patacos. O sonho de voltar à terra concretizava-se ao fim de trinta e cinco anos de ausência.
Ainda hoje se lembra da alegria da Esmeralda ao voltar para junto dos familiares e de alguns amigos que tinham na Vila. Compraram uma casita na Rua do Alecrim, muito modesta mas em boas condições. Ainda sobraram alguns cobres, esses mesmos que ele resolveu aplicar na compra da "Quinta dos Canchos Brancos". As reticências dos filhos de nada valeram. Ele estava com 67 anos e a esposa tinha menos três. Ainda se sentiam com forças para cuidar da Horta.
Hoje passados dez anos, não estava nada arrependido de ter feito esta compra. As terras eram ferteis e felizmente tinham um poço que nunca secava e deitava quase todo o ano, água para o tanque que transbordava e alimentava um pequeno regato onde crescia o agrião, a salsa e a hortelã.
Encostado à cabana, o Antunes construiu com pedras soltas, uma pequena casota onde guardava as ferramentas para o amanho das terras. Seguiam umas toscas capoeiras, feitas com ripas de madeira e redes, tudo de forma artesanal mas que faziam muito jeito para as criações de coelhos, galinhas e alguns perus. Um pouco afastado havia uma pocilga que os antigos donos tinha deixado e que ele mantinha sempre ocupada com dois ou três porcos.
Tudo isto lhes dava imenso trabalho e se não fosse a esposa, Antunes já tinha desistido desta aventura há bastante tempo. Mas Esmeralda eram uma mulher forte e felizmente sem maleitas graves, não era raro vê-la a sachar e a mondar as couves, os feijões e o mais que se criava naquele bom rincão.
A quinta ficava a pequena distância da Vila que se fazia bem a pé quando o tempo estava bom. Muitas vezes ela acompanhava o marido logo pela manhã. Nesses dias almoçavam na cabana ou debaixo do carvalho, de sombra grande e generosa.
No Outono o entusiasmo redobrava e o filho António metia sempre umas férias para vir ajudar nas colheitas, dos cereais e da vinha. Ajudava o Pai a fazer o vinho e a aguardente que saía sempre muito bem. A vizinhança adorava, o Antunes que gostava de repartir. Quando terminavam as colheitas, matava um porco e fazia uma festa, para a qual todos os filhos e netos eram convidados, assim como os amigos mais chegados. Os filhos levavam sempre abundantes produtos e alguns "bicos" que ajudavam os mais necessitados a minorar os seus problemas.
Na noite em que descamisavam a milharada, Antunes convidava o Ambrósio, para animar a festa com o seu acordeão. Vinha a família, os amigos e os vizinhos e debaixo do enorme carvalho, havia cantares, risos e anedotas toda a noite, misturados com algumas ousadias dos jovens que entravam alegremente no jogo do milho rei. A quem saia tinha o direito de beijar a moça que estava mais perto. 
A meio da noite o milho estava todo fora das maçarocas, loiro e luzidio, pronto a ensacar. Então o pessoal abria o baile, com os rapazes e as raparigas namoradeiras, a que se juntavam os mais velhos exigindo do acordeonista as modas mais antigas. O vinho escorria pelas gargantas, acompanhado de boas febras, queijo  e azeitonas.
Raro era o ano em que depois da festa acabar, se seguia o namoro a sério de jovens que tinham participado na festa.
O Outono estava a chegar e o inverno vinha depois para acabar mais um ano, sem mais nada a acrescentar neste modo de vida por si escolhido, desafiando o tempo, para acalentar um sonho de criança. Ele tinha nascido num pequeno hortejo que pertencia ao seu avô.
CV-1998
José A. Raposo

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