FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


                                        OS TRANSPARENTES

Acabei à poucos dias de ler os Transparentes do jovem escritor Angolano, Ondjaki.
A emoção que senti ao ler este livro, não foi só pelo tema, ou pelas personagens em particular que de qualquer modo desempenham todos estranhas figuras estereotipadas, e, por vezes bastante estranhas a um quotidiano que se quer marginal e imprime uma áurea de realismo mágico, com situações incríveis, no centro de uma cidade em constante transformação. Foi também o sentimento de alguém que viveu intensamente grande parte da sua juventude nesta mesma cidade e que acompanhou muito de perto o chamado desenvolvimento que a partir dos anos 6o se verificou na capital angolana.

A descrição da cidade torna-se caótica e em completa desagregação moral e social, onde a maioria da população vive miseravelmente do trabalho precário, a maioria  vivendo de expedientes, nem sempre os mais racionais e que resultam em muitos casos o tipo de desenrascanço que impera também do lá de cá no continente europeu. Vivem em tugúrios e apartamentos em vias de desagregação e no meio de ruas esburacas e cheias de poeira e de esgotos a céu aberto.

A cidade está rebentar pelas costuras, as guerras obrigaram milhares de pessoas a fugir das suas aldeias natais e a refugiaram-se na grande urbe, quintuplicaram a população, invadindo o asfalto, as avenidas e os altos prédios que no tempo do colonialismo eram vedado o acesso aos gentios. A guerra trouxe também os estropiados e os loucos que se espalharam por todos os cantos onde pudessem estender a sua esteira que tanto podia ser numa varanda ou num apartamento em ruínas.

É num destes prédios que vivem as personagens principais deste  romance que vivem na penúria  que os arrastam para uma vida de desenrascanços. Através  destas pessoas que vivem em comunhão nas suas desgraçadas vidas, ficamos a saber o que se passa nesta cidade (Luanda) onde se misturam as pessoas honestas que passam enormes dificuldades com a falta de emprego

Por outro lado o autor denuncia os pequenos e grandes vigaristas  que proliferam na cidade, assim são apresentados fiscais como corruptos e até de "gente superior que manda mais do que Deus". Aquele projecto da "Cipel" que tem como objectivo a exploração de petróleo no meio da cidade.

Para distrair o povo da imensa confusão instalada, o Poder  inventa um mega espectáculo para que toda a população assista a um eclipse fantástico. A alegoria  é de facto muito eficaz num romance que mistura o realismo com uma comédia fantasista que se lê com imenso agrado. Gostei muito deste livro que li nos últimos meses do ano de 2014.

CV- Setembro de 2014

Martins Raposo

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