FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quinta-feira, 30 de abril de 2015

                                            MIA COUTO
 
O escritor Moçambicano, nascido no ano de 1955, é já um nome cimeiro das letras a nível mundial que para além de romancista, escreve  também poesia e crónicas diversas.
Na sua juventude e incentivado pelos pais inscreveu-se em  medicina tendo abandonado a Universidade para se dedicar ao jornalismo. Foi durante algum tempo o Director da Revista "Tempo" e trabalhou também na Revista "Notícias".
Terra Sonâmbula foi o seu primeiro romance escrito em 1992 que teve um sucesso imediato, tendo-lhe sido atribuído o Prémio Nacional da Ficção Moçambicana. Varanda do Frangipani, O Último Voo do Flamingo, O Outro pé da Sereia, A Confissão da Leoa e  Venenos de Deus, Remédios do Diabo, são entre outros alguns dos seus melhores romances.
É precisamente sobre esta última obra que acabei de ler que quero deixar aqui uma pequena síntese da trama deste belo romance que começa com um jovem que se inscreve como cooperante na área da medicina, para trabalhar em Moçambique. Esta sua decisão prende-se com o seu encontro num Congresso de Medicina, com uma belíssima mulher por quem se apaixonou de imediato.
Ele vai até Vila Cacimba e procura junto dos pais pelo paradeiro de Deolinda a mulata feiticeira que o tinha deslumbrado em Lisboa. Bartolomeu o Pai, está muito doente e é a Mãe D. Munda que manter acesa a chama familiar que sofre com a ausência da filha a estagiar em parte incerta.

Sidónio Rosa, assim se chama a nossa personagem principal, é adoptado pelas gentes simples desta pequena povoação, onde ainda muitos vivem das recordações do antigamente, quando os colonos ainda mandavam. Para eles o Dr. Sidonho era muito bem vindo numa altura em que grassava uma doença misteriosa e mortal que fatalmente desmembrava as famílias.
Os mais velhos, a começar por Bartolomeu contavam-lhe as suas histórias algumas das quais eles próprios tinha vivido. O velho falava-lhe de um tempo em que tinha sido mecânico do Infante D. Henrique, como tinha viajado pelo mundo inteiro o e dos portos em que tinha conquistado muitas mulheres. As suas recordações nunca mais acabavam e o médico ouvi-a com paciência e curiosidade.
O tempo vai passando e Deolinda que a princípio ainda ia escrevendo, falando dos seus estudos e adiando com mais estágios, por fim já não dá notícias, não se sabe onde está, nem tão pouco se está viva.
Mas as histórias continuam na voz do velho Bartolomeu que tem como inimigo principal o Administrador da pequena Vila. Este por sua vez acusa-o de ser um mentiroso, devolvendo as acusações como tendo sido o verdadeiro causador do desaparecimento de Deolinda.
São acusações muito graves que implica actos de violência sexual praticados pelo próprio pai, ou como este diz, ter sido o Administrador. No meio desta confusão as duas mulheres, D. Munda e D. Esposinha dão as suas versões como a verdade de factos passados entre as duas famílias.
O mistério vai-se adiantando com o autor a praticar uma escrita envolta em brumas e acontecimentos de uma magia africana que faz parte da cultura africana, com situações que ultrapassam a realidade, em volta de um nevoeiro apocalíptico que serve ao mesmo tempo para o leitor se aperceber de algumas verdades que as personagens vão deixando antever como um fim trágico e cheio de aparentes contradições.
Afinal Deolinda não era filha do casal dos Sozinhos. Ela era a irmã mais nova de D.Munda mas que estes quando regressaram à Vila trouxeram a criança como sendo sua filha.
Já no final, desvenda-se que a jovem tinha morrido da doença da Sida e tinha sido enterrada num cemitério que tinha sido utilizado para enterrar os estrangeiros. Algumas vozes acusam-na de ter infectado o presumível pai que está também às portas da morte.
O choque foi enorme para o médico (que também não é ainda médico) que resolve abandonar a Vila. D. Munda no final tenta incarnar o corpo da Jovem e assim envolver Sidónio Rosa na sua paixão existencial.

Depois de visitar "o cemitério dos alemães" acompanhado de D. Munda ele vive uma experiência entre a realidade e o sonho que o envolve no habitual nevoeiro cerca a pequena povoação e é nesse denso nevoeiro que sabe que o velho Bartolomeu morreu e é enterrado num pequeno barco com a inscrição de Infante D. Henrique e que sua casa desaparece.
D. Munda acompanha o Médico à Camioneta que o levará para a capital e entre lágrimas e suspiros se despedem para sempre de forma dramática. Sidónio chora de magas e D. Munda diz-lhe - "Chore no meu peito, é a campa de Deolinda"
O médico sai de Vila Cacimba alucinado por fantasmas e pelo perfume da flor que se chama "beijo da mulata".É com este final, assim termina  este belo romance de Mia Couto, que aconselho a todos os meus amigos a lerem com a devida atenção.
CV. 30.04.2015
Martins Raposo

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