EM VEZ DE UM LIVRO, UMA CANÇÃO!
Este “apontamento” era para falar de Alberto Morávia, um dos melhores escritores do Sec. XX de quem acabei de ler “A CIOCIARA”, um romance maravilhoso sobre a as injustiças e os crimes da II Grande Guerra e o extraordinário amor de Mãe para salvar a sua Filha do conflito. Mas desta vez, necessito de alguns momentos de reflexão, antes de escrever sobre este Livro que marca uma época de desesperança e de sofrimento por um povo, neste caso o italiano que foi espezinhado pelos fascistas a mando de Mussolini e pelos nazis de Hitler que enviaram os seus soldados para evitar o desembarque dos aliados no Sul da Itália.
LUZ CASAL
Enquanto lia o livro, ouvi uma extraordinária intérprete espanhola, chamada Luz Casal que nasceu em 11 de Novembro de 1958 na Galiza e se notabilizou no início da sua carreira como cantora pop-rock.
Em 2007, a cantora passou por momentos de grande sofrimento e de luta contra o cancro da mama que acabou vencendo com uma perseverança igual ao empenho com que sempre dedicou à sua carreira. Afectada espiritualmente com essa grande luta, acabou por lançar o Álbum “Vida Tóxica” que reflecte esses momentos de angústia e de esperança, numa dessas canções “Bajo tu abrazo” teve a parceria de Rui Veloso.
O seu último Álbum “La Pasión” aparece-nos com um espírito mais confiante, mas marcado com um romantismo fora de vulgar, escolhendo o velho estilo dos “Boleros”, que Tonia La Negra, Los Panchos, José Feliciano e Aldemar Dutra. A sua voz inconfundível, quente e sensual, dá a cada uma das suas interpretações uma emoção particular, mesmo que muitas das suas canções já tenham sido interpretadas por grandes artistas, ficamos sempre emocionados pelo calor da sua voz sensacional e apaixonada, em grandes temas como “Alma Mia”, “Historia de Un Amor”, “ Un Ano de Amor”, “Piensa en Mi”. Esta última canção foi utilizada por Almodôvar no seu Filme “Saltos Altos”.
Luz Casal anda em digressão pela Europa com este último Álbum “La Pasión”, esperemos que venha a Portugal em breve para ao vivo no encantar com a paixão que dá voz aos “Boleros” que têm também a marca do compositor brasileiro, Eumir Deodato e o selo da Editora “Blue Note”.
Enquanto isso não acontece, fiquemos com a sua voz no Youtube.
CV – Abril 2010
Dados: Wikipédia, Youtube, Ípsilon.
Martins Raposo
terça-feira, 20 de abril de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
PEDRO ABRUNHOSA
UM DOS ÍCONES DA MÚSICA PORTUGUESA
A sua nova imagem impõe-se com uma gestualidade provocatória, combinando o vestuário negro, com os célebres óculos escuros que jamais vai tirar nos seus espectáculos e no contacto com o público.
UM DOS ÍCONES DA MÚSICA PORTUGUESA
A propósito de uma mensagem que o meu Amigo Álvaro Monteiro, bancário por acaso e necessidade, mas grande músico e invulgar intérprete de Jaz e de música portuguesa, actuando actualmente com o duo “Álvaro & Zé Victor", que tem merecido o aplauso dos numerosos admiradores que conquistaram com actuações memoráveis, em toda a zona de Sesimbra, Setúbal e outras localidades.
Como ia dizendo, hoje enviou-me um post, em que se vê o músico Pedro Abrunhosa, nos primórdios da sua carreira musical, integrando um grupo musical, ainda sem os famosos óculos que marcaram mais tarde o culto da sua personalidade. Aproveitei para dar uma espreitadela ao seu vasto currículo e aqui ficam alguns dados para os mais jovens que não conheceram este extraordinário intérprete de Jaz que tantos êxitos alcançou nos anos 80.
Pedro Machado Abrunhosa, nasceu no Porto, em 20 de Dezembro de 1960, descendente de músicos amadores que o incentivaram a seguir os estudos das artes musicais.
O seu primeiro instrumento foi o Contrabaixo de Cordas, integrando o Grupo de Música do Porto, dirigido pelo Maestro Cândido de Lima. Ao mesmo tempo iniciou as suas experiências na área do Jaz, seguindo de perto nomes como Billy Hart, David Liebman, Todd Coolman e outros. Neste período formou a Banda de Bolso e o Sexteto de Pedro Abrunhosa, tendo efectuado numerosas actuações com músicos internacionais e foi um dos co-fundadores da Escola de Jaz do Porto.
Já na década de 90 com a composição do Álbum Viagens, deu-se a grande viragem no estilo de composições musicais, aproximando-se musicalmente do “pop-rock”, reforçando a sua atitude de rebeldia e de contestação à situação política.
A sua nova imagem impõe-se com uma gestualidade provocatória, combinando o vestuário negro, com os célebres óculos escuros que jamais vai tirar nos seus espectáculos e no contacto com o público.Os anos 90 são contemplados com grandes espectáculos e com grandes êxitos musicais, radicalizando o seu estilo musical com aproximações ao “funky e ao hip-hop”, utilizando técnicas de “sampling” com as suas interpretações que transitam invariavelmente do canto para a pura declamação. O Álbum “Silêncio” obtém enorme sucesso em todos os seus espectáculos.
A sua já longa carreira como intérprete e compositor afirmou-se como um dos grandes “ícones pop”da musica portuguesa contemporânea, reconhecido além fronteiras, muito em especial em Espanha e no Brasil onde famosos intérpretes como Elba Ramalho e Zeca Baleiro, têm utilizado as suas canções nos seus reportórios.
São muitos os Prémios que Abrunhosa já conquistou, entre os quais se contam dois Globos de Ouro, vários prémios da Revista Blitz, da Rádio Nova Era e ainda o Prémio da Melhor Banda Sonora em Espanha e o Prémio Melhor Compositor pela RCL.
Esta pequena súmula da bem sucedida vida deste extraordinário músico está naturalmente muito reduzida na verdadeira dimensão, que ainda muito recentemente nos surpreendeu com a criação de uma nova formação musical, “Comité Caviar”, confirmando a coragem de prosseguir com a sua irreverência e demonstrando que se pode ser “contestatário militante” sem perder a excelente qualidade que as suas composições sempre têm tido.
CV- 24.03.10
Martins Raposo
NOTAS: Dados recolhidos na Enciclopédia da Música em Portugal no Sec. XX, Wikipédia e Álvaro Monteiro, para o qual vai um abraço amigo e o meu muito obrigado, pelas excelentes músicas que tem enviado.
O Duo "Alvaro& Zé Vitor"
segunda-feira, 22 de março de 2010
ISABEL FIGUEIRA
UMA ATLETA EXTRAORDINÁRIA
Isabel Maria Andrade Figueira, nasceu em 05 de NOvcembro de 1979, viveu uma parte da sua juventude em Castelo de Vide, onde teve os seus primeiros treinos de natação, modalidade em que se viria a notabilizar como mais adiante veremos pela excelente entrevista que concedeu a meu pedido, para ser publicada no Jornal NCV. Isabel Figueira, licenciou-se em Educação Física e Desporto, é Tecnica Superior de Desporto na Câmara Municipal de Faro e Treinadora no Clube de Natação de Faro.
JMR - Conte-nos um pouco como foi a sua infância.
IF - Tive uma infância normal como tantas outras crianças, com a particularidade de ter tido uns pais que me apoiaram e trilharam comigo os caminhos que decidi percorrer e um irmão que tem sido até hoje um alicerce na minha vida.
JMR – Onde iniciou os seus estudos? Como foi a sua iniciação desportiva?
IF - Fiz até ao 9º ano na Escola C+S de Castelo de Vide e o Secundário na Escola Secundária Mouzinho da Silveira em Portalegre.
Desde cedo que o meu pai me incutiu a mim e ao meu irmão (também ele atleta) o gosto pela prática desportiva. Foi nas aulas que o meu pai dava nas piscinas em Portalegre que aprendi a nadar e mais tarde passei para a associação desportiva de Castelo de Vide onde fui acompanhada pelo meu antigo treinador (João Augusto) até ao momento em que iniciei a minha vida académica em Faro.
JMR – Com que idade começou a praticar desporto de competição?
IF - Comecei a praticar desporto de competição com 6 anos.
JMR – O facto de o seu pai ser professor de E F e além disso se ter distinguido no atletismo, teve alguma influência na decisão?
IF - Possivelmente um pouco.
JMR – Nos campeonatos europeus, realizados em Cádiz, em 2009, a Isabel obteve três medalhas de ouro e dois recordes da Europa. Como viveu esses momentos? Foi a melhor época da sua carreira?
Os resultados que obtive em Cádiz foram fruto de muito trabalho ao longo da época e de um verão praticamente todo passado na piscina e no ginásio a treinar, fiquei por isso muito feliz com os resultados. IF - Sim, esta foi uma das melhores épocas da minha carreira.
JMR – Quais as provas e os prémios mais importantes que alcançou. Pode-nos indicar o lugar onde decorreram as provas e o porquê da sua importância?
IF - A minha carreira é longa e já participei em inúmeros campeonatos, menciono por isso os últimos prémios mais importantes para além obviamente de Cádiz. A ascensão do meu actual clube (Clube de Natação de Faro) à 2ª divisão e o bronze obtido no meeting internacional da Póvoa de Varzim foram os últimos prémios de destaque.
JMR – Consegue dar-nos o número de provas e prémios que já consegui ganhar?IF - Como referi anteriormente, a minha carreira é longa, já perdi a noção do número das provas e dos prémios que consegui ganhar.
JMR – Como vai ser o seu calendário de provas para esta época?
IF - Participei em muitas!!! Até aos 17 anos representei a Associação Desportiva de Castelo de Vide.
JMR – Qual ou quais os clubes em que já esteve inscrita? Actualmente qual o clube que representa?
IF - Representei o Clube de Natação de Portalegre, a Associação Desportiva de Castelo de Vide e quando vim para Faro para a Universidade, integrei o Louletano Desportos Clube, mais tarde a convite de um amigo, representei o Clube Futebol Benfica e actualmente estou no Clube de Natação de Faro.
JMR – Acha que Castelo de Vide tem condições para a prática da natação? Em sua opinião o que deve ser feito para que esta prática tenha mais adeptos e se possam realizar provas com regularidade?
IF - Castelo de Vide tem condições em termos de infra-estruturas, no entanto não existe uma escola de formação como em todos os clubes pelos quais já passei, e este aspecto é fulcral na criação de uma equipa de competição.
JMR – Quais os seus sonhos e a sua maior ambição em termos desportivos?
IF - O meu sonho neste momento é ser a mulher com 30 anos mais rápida do mundo aos 50 e 100 metros bruços, e a minha maior ambição é continuar com capacidade de lutar para me superar.
JMR – Quais as suas referências a nível desportivo? Tem algum(s) ídolo(s) desportivo(s)?
IF - Admiro o Phelps, e o nadador japonês Kosuke Kitajima.
JMR – Qual o seu hobby preferido?
IF -Tenho vários, praticar outros desportos, ir à praia, cinema…
JMR – Deseja deixar alguma mensagem aos castelovidenses e em particular aos jovens?
IF - Aproveito a oportunidade para deixar algumas mensagens:
Uma à autarquia da vila que me viu crescer, para que não se esqueça de valorizar e congratular os feitos que os castelovidenses vão conseguindo…
Outra de agradecimento ao meu antigo treinador João Augusto, porque muito do que sou como atleta a ele lho devo.
Aos meus pais, irmão e amigos, obrigada por estarem sempre!
E para os jovens de Castelo de Vide…
tem pelos vossos sonhos porque não há impossíveis!
NOTAS: Esta Entrevista já foi publicada no Jornal "Notícias de Castelo de Vide"" na sua Edição de Março. No entanto, trata-se de um projecto pessoal que a Direcção do NCV, teve a gentileza de publicar. A elaboração das perguntas e composição foram de minha autoria e as respostas estão na íntegra tal e qual a Isabel Figueira respondeu de forma muito objectiva, precisa e clara, realçando o valor incontestável da Entevista.A sua inserção neste Blogue corresponde sob o meu ponto de vista, ao interesse geral que a mesma possa ter para todas as pessoas que não tenham acesso ao Jornal. JMR
quinta-feira, 11 de março de 2010
MATOS SERRA, UM HOMEM QUE GOSTA DE POESIA (PARTE II)
O Júri do certame era composto pelo Professor António Matias, a Professora Maria das Dores e o Professor Jacques Songy, tendo como convidado de honra o Sr. Miguel Rasquinho, Presidente da Câmara Municipal que se congratulou com o sucesso deste evento que de ano para ano aumenta o número de concorrentes.
O auditório da Biblioteca Municipal estava completamente cheio, com a presença de numerosos concorrentes e convidados. De acordo com a informação do Júri, este ano foi difícil de selecionar os premiados, devido à superior qualidade dos trabalhos apresentados.
Este certame, muito semelhante ao que outras Autarquias do Alentejo vêm promovendo em prol da cultura popular, ganhou ao longo dos anos uma grande popularidade e os concorrentes vêm de todas as regiões do País, alguns dos quais são já caras bastante conhecidas nesta simpática Vila de Monforte, onde grangearam bastantes amigos.
Não é valida qualquer comparação com os Jogos Florais promovidos pela Câmara Muncipal de Castelo de Vide que decorreram pela 2ª. vez em Castelo de Vide, neste ano de 2009, quer em termos de experiência quer do número de participantes, muito embora se deva dizer que o trabalho coordenado pelo Sr.Major Carlos de Oliveira, foi muito importante e merece que a nossa Autarquia o continue a apoiar para que a obra não esmoreça. De qualquer modo, agrada-nos saber que há mais "Majores da Cultura" neste recanto do Alentejo.
CONSELHO AOS SENIORES
Inevitavelmente o tempo vai
A hora flui e urge o dia-a-dia…
Não penses muito nisso e abstrai,
Põe na vida a doçura da poesia.
Põe graça nas palavras e recria
O teu sonho de um dia que se esvai
Noutro sonho de amor e alegria
Que adoça a tua vida e descontrai.
E, revive o teu tempo de criança
Com prazer, alegria, sonho e graça
Olha o tempo que passa, não espera…
Abre-lhes as portas largas da bonança,
Convive sem espinhos nem mordaça
E faz do teu Outono a Primavera.
M.S.
PÁSSAROS DE FOGO
Em pássaros de fogo
chega o pelotão da morte
para impôr como jogo
a lei do mais forte.
Da orla da mata
parte fogo e metralha
e o terror se espalha
por cada cubata.
Morteiro a morteiro
há corpos caídos
em sangue esvaídos
no pó do terreiro
que serão consumidos
no horror do braseiro.
O menino escuro
indefeso chora
pretende ir-se embora
mas...treme inseguro,
ainda o vejo agora
tem as tripas de fora.
Ainda o vejo agora
mas tento esquecê-lo
ao menino que implora
num eterno apêlo.
Era terno e puro
mas... morreu p'lo futuro
já não pode tê-lo
é por isso que eu juro
que tento esquecê-lo.
Eu tento esquecê-lo...
mas a toda a hora
continuo a vê-lo...
tem as tripas de fora
e num pranto sem fim
é dentro de mim
que o menino chora.
M.S.
COMENTÁRIO AO ADÁGIO POPULAR "BURRO MORTO, CEVADA AO RABO"
( Poesia picaresca)
Neste tão velho ditado
o rabo que vem descrito
tem sentido figurado,
ele é, ao fim e ao cabo,
'ma outra forma de rabo...
não o propriamente dito;
dito não literalmente...
não é cauda propriamente
mas algo mais redondito
aquela forma inocente
que é, afinal, somente,
'ma espécie de buraquito,
que fica localizado
no ponto mais recuado
da 'strutura do burrito.
Dar de rabo na moral,
não sou eu a fazer tal.
Por isso, devo dizer:
O que houver para fazer,
não se guarde p'ró final
quando a pena já não vale.
Dizia certo poeta,
de forma muito concreta,
muito concreta e serena...
Para se atingir a meta
tudo vale sempre a pena
se a alma não é pequena:::
Mas... eu, nem sou da poesia...
nem de grande pensamento...
nem me tenta a fantasia
de ir fazer filosofia
sobre o rabo de um jumento
que para além de figurado
é um burro já finado,
e por esse passamento
eu só não choro e lamento
por ser um burro inventado.
M.S.
DEMOCRACIA
(Crítica social)
Quando a coerência e a razão
puserem laivos de amor
em cada coração...
Nesse dia!...
será dia de mudança!
O Sol voltará a iluminar a esperança
e haverá de novo
flores na rua e risos de criança
paz e harmonia!
Quando a Justiça. enfim, tiver vencido,
o amor for um dado adquirido
houver solidariedade,
sem embuste
e com verdade...
e for a voz dos justos libertada...
reataremos a obra começada,
num Abril mais florido.
E ouviremos a música prometida...
e ver-se-á uma bandeira erguida
e desfraldada...
a hipocrisia voltará ao seu redil
e ver-se-á envergonhada
de tanto embuste e tanto ardil
e será de novo Abril
com cravos muitos mil
numa Pátria libertada.
Quando a mentira for banida
e da razão uma bandeira içada,
e a voz dos justos for ouvida
e não seja a verdade acorrentada
para que seja comedida e controlada
dos barões a gula desmedida...
A justiça reinará
e... nesse dia
diremos que haverá
enfim...DEMOCRACIA!...
Autor: Francisco Matos Serra
DADOS RECOLHIDOS: Matos Serra, O Distrito de Portalegre e Câmara Municipal de Monforte.
JMRaposo
MATOS SERRA, UM HOMEM QUE GOSTA DE POESIA!
A mais recente colaboração foi a sua intervenção, na Evocação dos 65º. Aniversário do Capitão de Abril, Salgueiro Maia, dando-nos mais uma vez o testemunho da amizade que o ligava ao nosso herói conterrâneo, o respeito pela intérprete ousadia do jovem Capitão, ao mesmo tempo que manifestava a sua preocupação pelos tempos de crise e de desesperança em que vivemos.
Hoje, este nosso amigo, vive voluntariamente afastado das ondas palacianas que nunca o seduziram, numa Quinta junto às Termas de Cabeço de Vide que é um pequeno jardim, construído sobre ruínas de um velho casarão, pedra a pedra, árvore a árvore, pelas suas mãos. Neste retiro bonançoso, junto de sua dedicada esposa, Maria Antónia, vai dando largas à sua fértil imaginação poética. Escreve sempre em forma poética e a sua vasta produção, vai decerto transformar-se em livro que eu aguardo com a certeza de que terá enorme sucesso.
Francisco Matos Serra nasceu em Monforte, no dia 26 de Março de 1937, filho de gente humilde, trabalhadores rurais que sofreram as agruras impostas aos trabalhadores pelo Estado Novo, mas sempre de cabeça levantada. Senhores do campo, vivendo uns no Assumar, outros em Monforte, gente rija e de numerosa prole.
Francisco, ainda sofreu na pele a dura lei do proletariado agrícola, passando a sua juventude, junto dos ganhões e dos pastores nas herdades dos agrários que nesta região detinham todos os poderes, sob o beneplácito de Salazar, o ditador. No seu tempo ainda apareciam os malteses, de duro traço e alma de aventureiros românticos que eram adorados pelos campesinos que ouviam as suas histórias rocambolescas, relatadas sempre com um humor por vezes cáustico, por vezes ingénuo, mas admiráveis no seu imaginário de raízes populares.
Apetrechado com estas ricas experiências, o descendente dos Serra, não se conformava com a rude vida que levava, rebelando-se com as injustiças sociais de que ainda foi vítima, saíu da sua terra, para outra vida e para outros muitos lugares que percorreu, com o seu porte altivo, de “guerreiro”, idealista e sonhador.
Matos Serra, é um dos amigos da nossa Terra, que há muitos anos nos honra não só com a sua amizade, mas também com uma colaboração prestigiada pela enorme simpatia de um comunicador por excelência, com saber e conhecimento pessoal dos actos que descreve com simplicidade e elegância.
Corria o ano de 2000, quando a Associação de Pais das Escolas de Castelo de Vide, o convidou para falar com os alunos, sobre os acontecimentos do 25 de Abril, vividos pelo anfitrião, como jovem oficial militar. Daí para cá, voltou várias vezes à Escola, sempre a convite da Associação de Pais.
Colaborou activamente com o GACV, na Sessão “Poetas de Abril”, realizado em 30 de Outubro de 2004, contactando com os Poetas Populares que participaram neste evento. Ajudou a realizar a “Exposição Revisitar Abril”, nas Comemorações do 30º. Aniversário da Revolução dos Cravos.
Por estranho que pareça, este nosso Amigo é praticamente desconhecido da sua faceta extraordinária que o liga à Poesia Popular, e digo estranho por que o Matos Serra é na verdade um dos melhores Poetas Populares da nossa Região, com um palmarés de Prémios de grande mérito, os últimos dos quais tive o prazer de presenciar nos XVII JOGOS FLORAIS DO OUTONO DE 2009, realizados em Monforte, no dia 11 de Outubro e promovidos pela Câmara Municipal.
Matos Serra, foi neste precioso evento, galardoado com o 1º. Prémio (ex-aequo) com o Poema “Conselho aos Seniores”, o 2º. Prémio, com a Poesia “Poesia é Vida Eterna, outro 2º. Prémio com o Soneto, “O Bosque em Alvoroço” e o 3º. Prémio no Tema Poesia a Mote, com a Poesia “Ir às Tertulhas (tertúlias), tendo ainda, sido distinguido com Sete Menções Honrosas.
Para não tornar este apontamento demasiado extenso, não posso por agora alongar-me muito mais nesta área da Poesia Popular, em que o nosso amigo já provou ser um dos mestres exímios, no jogo das palavras, com um sentindo romântico carregado de um lirismo sedutor, aliado a um fino sentido de humor onde não faltam as cenas picarescas tão usuais nos meios campestres e bucólicos, no chão do nosso Alentejo.
É mais do que uma certeza de que voltaremos a falar desta figura que se destaca agora no mundo da poesia, mas que tem ainda muito que nos contar da sua história como militar de Abril, interveniente e activo nos momentos mais quentes da Revolução dos Cravos. Homem Vertical, seguro e solidário nos momentos de crise, enfrentando com coragem e dignidade todas as adversidades impostas pelos “próceres” vencedores do 11 de Novembro.
Hoje, este nosso amigo, vive voluntariamente afastado das ondas palacianas que nunca o seduziram, numa Quinta junto às Termas de Cabeço de Vide que é um pequeno jardim, construído sobre ruínas de um velho casarão, pedra a pedra, árvore a árvore, pelas suas mãos. Neste retiro bonançoso, junto de sua dedicada esposa, Maria Antónia, vai dando largas à sua fértil imaginação poética. Escreve sempre em forma poética e a sua vasta produção, vai decerto transformar-se em livro que eu aguardo com a certeza de que terá enorme sucesso.De vez em quando o Poeta, desce à cidade de “José Régio” (ele, que adora Pessoa), para participar em amenas tertúlias, aumentando em cada dia o enorme espólio de amizades que crescem espontaneamente em cada pessoa que vai conhecendo, com a mesma simplicidade com que dispõe os cravos e as gardénias do seu jardim.
CV - Novembro 2009
Martins Raposo
Nota: Seguem noutro texto os Poemas de Matos Serra
quarta-feira, 3 de março de 2010
UMA TRAGÉDIA MORTAL
Em vésperas de Natal
Em vésperas de Natal
Paulo Jorge Samarra Trindade, nasceu em Lisboa no dia 29 de Março de 1969 e era filho dos Castelovidenses, Sr. Rogério Trindade e de D. Camila Samarra, já falecida.
O Paulo era neto da minha Tia Libânnia, irmã do meu Pai.
No dia 22 de Dezembro, este jovem apenas com quarenta anos de idade, foi mortalmente colhido por um automóvel desgovernado, com o seu condutor perdido de bêbado que veio embater violentamente na paragem do autocarro que o malogrado Paulo Jorge se preparava para tomar a caminho do emprego.
Paulo Jorge que nem sempre teve sorte nos seus empregos, encontrava-se agora com uma situação estável, nos serviços de segurança na Securitas, colocado na Carris, onde era estimado por superiores e companheiros.
A cerimónia do funeral acompanhada por muitos familiares e amigos, deu-se na Igreja da Charneca do Lumiar e o infeliz foi sepultado no Cemitério do Lumiar. Era bem visível a consternação por esta tragédia provocada por uma pessoa que já tem cadastro criminal e que cobardemente abandonou o carro e a vítima que teve morte imediata. Havia no local uma senhora e duas crianças que sofreram ligeiras escoriações.
Deixa a sua jovem viúva sem emprego e com uma doença incurável, sendo toda a sua família bastante pobre e carenciada, aquém apresentámos o nosso profundo pesar e solidariedade nesta hora de tragédia e de dor.
Ao Rogério Trindade, meu familiar e amigo, destroçado pela dor por ter perdido o único filho que tinha, eu lhe peço que tenha ânimo e coragem para enfrentar esta dolorosa perda.
CV - Dezembro de 2009
Martins Raposo
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
DO SOFRIMENTO DOS POBRES!
NÃO SABER E NÃO PODER!
Joaquim era um menino bonito e forte! Nascera em Fevereiro de 1943 e parecia pela sua curiosa vivacidade vir a ser um menino inteligente. Toda a Família ficou radiante com o nascimento deste menino.
José, o irmão mais velho 14 meses tomou uma especial atenção a este mano que prometia ser um bom companheiro para as suas brincadeiras.
José, o irmão mais velho 14 meses tomou uma especial atenção a este mano que prometia ser um bom companheiro para as suas brincadeiras.
A mãe de José tinha-lhe dito que já tivera um outro irmão, nascido em 1940, mas que faleceu alguns semanas depois. Talvez por isso olhava para o Joaquim com uma ternura redobrada de atenções e cuidados. Quando este adoeceu, recusou-se a sair do seu lado, faltando ao trabalho para poder acompanhar a sua doença, sempre atenta a todos os seus movimentos de aflição.
Moveu mundos e fundos para que internassem o seu menino no Hospital. Alguns dias depois o médico chamou os Pais e disse-lhes que não havia cura para o menino. O vosso filho tem um “nascido ruim” e o sangue não está bom. Não vai resistir a uma operação e não temos remédios para o salvar. Têm que se conformar, mais dia, menos dia…
Família pobre, sem meios e conhecimentos e sem ninguém "influente" que os pudesse ajudar, não baixaram os braços, eles não queriam aceitar o que parecia inevitável. Já tinham perdido o primeiro filho!
Alguém lhes sugeriu um “ervanário”, muito bom, que vivia lá para os lados do “porto” na Ribeira da Vide.
A Mãe levou o Joaquim ao conhecido “ervanário”, que lhe receitou três chás diferentes, sem quase olhar para o pobre menino, que gemia cheio de dores. Saiu do cubículo incomodada com os maus cheiros de coisas podres e azedas que enchiam o compartimento acanhado, os copos mal lavados e as garrafas vazias indicavam um ambiente com poucas condições de higiene.
Os dias corriam lentos e tristes, o menino não melhorava e a Mãe inconformada ainda recorreu a outros “ervanários/curandeiros” que lhe receitaram outros medicamentos caseiros que também não tiveram qualquer resultado. Um deles chegou a insinuar que o menino tinha sido envenenado.
- Mas por quem meu Deus? Disse a Mãe! Isso não pode ser verdade, nós damo-nos bem com toda gente e os vizinhos são bons, se mais não ajudam é porque não podem. São pobres como nós!
Os Pais não se conformavam com o cruel e fatal destino, decorridos alguns meses, o Joaquim acabou por falecer, sem nunca terem chegado a saber qual teria sido a verdadeira doença.
Naquele tempo, as famílias pobres não tinham direito a Médico de Família. Quando as pessoas adoeciam iam ao Hospital, os médicos eram muito poucos para atender toda a população do Concelho, sentiam-se impotentes perante os parcos meios de que dispunham, mesmo com grande esforço e dedicação era muito difícil resolver os inúmeros problemas de saúde. Por isso os curandeiros, os ervanários e os simples “adivinhos” eram muito procurados por gente do povo e até por pessoas com alguns meios económicos.
Algum tempo depois, saímos da Rua da Amoreira, no Castelo para a Quinta dos Exames, perto do Monte de Carvalho e umas vizinhas levaram-nos a ouvir as prédicas de um Jovem Pastor dos Adventistas do 7º Dia.
A igreja estava cheia, o pastor tinha parentes na aldeia e possuía uma voz influente e simpática e com uma máquina de Filmar, projectava imagens que se adaptavam ao sermão do dia, que eu seguia sem grande interesse até ao momento em que o Pastor falando da ressurreição dos mortos, afirmava que havia casos de meninos, que passados sete anos, voltavam ao convívio dos vivos
O Zeantónio estava fascinado com as palavras que ouvira e logo ao chegar a casa, perguntou à Mãe há quanto tempo tinha o Joaquim falecido. Será que vai voltar Mãe?
A Mãe comovida, com os olhos marejados de lágrimas de uma dor que ainda sentia, mas sabendo já das experiências da vida que as coisas não se passavam assim como pregava o Pastor, sentiu-se na obrigação de explicar por palavras simples que aquilo que o Pastor queria dizer é que por vezes aconteciam fenómenos que a fé transformava em verdadeiros milagres.
Seguiu-se um longo silêncio, mas a Mãe vendo o filho na expectativa à espera de uma resposta mais convincente, acabou por confessar que nunca em sua vida tinha assistido a milagres desta natureza. Ela tinha ficado órfão de mãe e de pai, muito criança e se não fosse a sua avó materna dificilmente teria sobrevivido. A perda de um Filho é muito dolorosa, mas perder a Mãe e o Pai é ainda muito maior.
Na pequena cabecinha do pequeno, de cinco anos apenas, deu-se um choque tremendo. A “mentira” do Pastor tinha-lhe retirado o sonho que mais queria ver realizado – o de voltar a brincar com o seu mano Joaquim!
Depois dessa noite, nunca mais os vizinhos conseguiram convencer o Zé a acompanhá-los à sua Igreja!
CV-2009
Martins Raposo
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
DA MÚSICA
CARMEN DE BIZET – UM BOM ESPECTACULO
Georges Bizet, que nasceu em Paris, é considerado um dos grandes representantes do romantismo com obras como os “Pescadores de Pérolas”, “Don Procópio e a Suite L´Arlesiene, esta última alcançou um grande sucesso, mas foi com a Cármen que obteve o seu maior êxito. Infelizmente, o autor já pode usufruir essa suaúltima glória, por ter falecido pouco depois desta belíssima obra que Brahms chegou a considerar como uma das melhores Óperas do género.
Foi um Espectáculo de grande qualidade esta Cármen com adaptação e encenação de Maria Carrasco, que recebeu calorosos aplausos do público, levando os actores a ofereceram-nos três bonitos “encores” o que de certo modo veio atenuar a única nota dissonante provocada pelo sistema de aquecimento da Sala avariado, e com a cafetaria fechada que deu azo a alguns comentários menos simpáticos que creio que com algum esforço poderiam terem sido evitados, até porque a escolha criteriosa dos espectaculos de grande qualidade que nos têm oferecido, merecem os nossos melhores elogios.
Portalegre,19.12.2009
CARMEN DE BIZET – UM BOM ESPECTACULO
A bonita Sala do CAEP – Casa de Espectáculos de Portalegre, estava praticamente esgotada, na expectativa de assistirem a uma versão livre de Cármen de Bizet, adaptada pelo Ballet Flamenco de Maria Carrasco, acrescida com muita boa música flamenca e uma coreografia muito bem encenada por Maria Carrasco que desempenha também a figura principal com uma força dramática fora do vulgar,
As restantes personagens, revelando uma enorme experiência e profissionalismo tiveram um desempenho digno dos melhores aplausos, os bailados, parte deles acompanhados por músicos ao vivo, deram-nos momentos de grande beleza estética, seguindo de perto o tema principal da obra de Prosper Mérimée e seguindo as partes principais da musica composta por Georges Bizet que continua a cativar o grande público.
Georges Bizet, que nasceu em Paris, é considerado um dos grandes representantes do romantismo com obras como os “Pescadores de Pérolas”, “Don Procópio e a Suite L´Arlesiene, esta última alcançou um grande sucesso, mas foi com a Cármen que obteve o seu maior êxito. Infelizmente, o autor já pode usufruir essa suaúltima glória, por ter falecido pouco depois desta belíssima obra que Brahms chegou a considerar como uma das melhores Óperas do género.
Foi um Espectáculo de grande qualidade esta Cármen com adaptação e encenação de Maria Carrasco, que recebeu calorosos aplausos do público, levando os actores a ofereceram-nos três bonitos “encores” o que de certo modo veio atenuar a única nota dissonante provocada pelo sistema de aquecimento da Sala avariado, e com a cafetaria fechada que deu azo a alguns comentários menos simpáticos que creio que com algum esforço poderiam terem sido evitados, até porque a escolha criteriosa dos espectaculos de grande qualidade que nos têm oferecido, merecem os nossos melhores elogios.
Portalegre,19.12.2009
Martins Raposo
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
O MEU LIVRO DE NOVEMBRO
"A CONSPIRAÇÃO CONTRA A AMÉRICA"
O MEU LIVRO DE NOVEMBRO
De: Philip Roth
Este Livro foi escrito em 2004, mais de 60 anos após os acontecimentos que provocaram a Segunda Guerra Mundial, com Hitler a intensificar a monstruosa perseguição aos judeus e o governo nazi a preparar os tenebrosos campos de concentração onde foram exterminados milhões pessoas inocentes apenas porque pertenciam à comunidade judaica. O Holocausto marcará assim o século XX, como uma das tragédias mais dramáticas da história da Humanidade.
Fhilip Roth, nasceu em 1933, na América, na cidade de Newark, de origem judaica, tem dedicado muitos dos seus livros e ensaios, à problemática da exclusão dos Judeus em muitos países do mundo. A “Conspiração Contra a América” tem como tema a vitória (virtual), nas Eleições Americanas de 1941, de Charles Lindbergh, um perigoso populista que ganhou fama de herói pelo facto de ter concluído com êxito o primeiro voo transatlântico, ligando Nova York a Paris.Intitulando-se o salvador da Pátria com o falso propósito de afastar a América do conflito que já alastrava a todos os países da Europa, Lindeberg um confesso simpatizante do nazismo, começou uma perseguição à vasta comunidade judaica, perseguindo e assassinando os seus melhores líderes, corrompendo os mais fracos e isolando os mais fortes.
De certa forma, este Livro de desesperança de medo e de opressão, com a maioria do povo americano duplamente enganado por uma enorme farsa levada aos extremos pelo populismo demagógico de um verdadeiro fanático anti-semita e pró-nazi. Enquanto prometia evitar que os jovens americanos entrassem na guerra, tomava declaradamente posições contra os aliados, chegando a ameaçar o Canada. No cúmulo da hipocrisia falava de Paz, mas fazia a guerra mais suja e criminosa, contra uma minoria étnica no seu próprio País.
Mas o mais trágico deste livro de pura ficção(!) é a de que não só tudo poderia ter acontecido, transformando em realidade os planos de loucura e de tragédia para o povo americano e para todos os povos do mundo, como ainda nos dias de hoje, a humanidade não está completamente livre de aparecer um líder semelhante a este Lindberg que com um populismo radical e extremista destrua tudo o que de bom se construiu por um mundo melhor, mais tolerante e mais humano e em Paz.
O Livro de Philip Roth tenta avisar-nos e convida-nos a estarmos alerta contra todas as formas de intolerância. As “cores” com que nos descreve as cenas mais dramáticas, podem não cativar alguns leitores, mas em minha modesta opinião, o facto desta obra ter sido escrita em data muito recente, o autor de forma muito hábil e eficaz quis lançar um “Alerta Geral” para nos precavermos contra os Populistas, os Demagogos e os Fundamentalistas de todas as espécies.
CV- Dezembro de 2009
Martins Raposo
APONTAMENTOS: Philip Roth é hoje considerado um dos melhores escritores da Literatura Mundial, tendo sido premiado com o Prémio Pulitzer em 1997, com o seu livro “Pastoral Americana”. Em 2002 ganhou a Medalha de Ouro da Ficção, atribuído plea Academia Americana de Artes e Letras.
“A Conspiração contra a América”, recebeu o prémio da Sociedade de Historiadores Americanos, pelo “excepcional romance histórico sobre um tema americano”.
Recentemente recebeu dois dos mais prestigiados prémios do PEN/Nabokov em 2006 e o PEN/Saul Bellow em 2007.
Adeus Columbus, O Complexo de Portnov, Diário de uma Ilusão, Casei com um Comunista, Pastoral Americana, o Animal Moribundo, Homem Comum, Teatro de Sabath, são alguns dos Livros da sua extensa obra literária.
FONTES: Wikipédia, Portaldaliteratura e Wook.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
QUANDO UM HOMEM QUIZER
Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Paulo de Carvalho
Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Paulo de Carvalho
Dia de Natal
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
PRÉMIO NOBEL DA PAZ
OBAMA AINDA NÃO MERECE!
"A guerra não será erradicada no nosso tempo de vida, disse Obama, alegando que as nações serão obrigadas a avançar para o conflito quando estiverem em causa os seus legítimos direitos. E mais do que necessária a guerra pode ser justificada, seja por razões humanitárias, seja porque o inimigo não luta com as mesmas armas: Nenhuma negociação pode convencer a Al-Qaeda a depor as armas”.
OBAMA AINDA NÃO MERECE!
"A guerra não será erradicada no nosso tempo de vida, disse Obama, alegando que as nações serão obrigadas a avançar para o conflito quando estiverem em causa os seus legítimos direitos. E mais do que necessária a guerra pode ser justificada, seja por razões humanitárias, seja porque o inimigo não luta com as mesmas armas: Nenhuma negociação pode convencer a Al-Qaeda a depor as armas”.
Já por diversas vezes tenho manifestado as minhas dúvidas em relação aos critérios do Comité Nobel Norueguês noutros anos, a figuras no mínimo controversas. Desta vez, ainda fiquei mais apreensivo com atribuição do Premio Nobel da Paz ao Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama.
Independente do factor positivo de ter ganho as eleições que disputou de forma digna contra o candidato republicano e ter nos seus discursos incutido alguma esperança que apontava para algumas mudanças sociais, a verdade é que o jovem Presidente tem vindo a por em dúvida, as suas promessas iniciais.
Desde as controversas medidas económicas que tomou para enfrentar a “crise” cujos resultados tardam em inverter a grave situação com que se defrontam milhares de trabalhadores no desemprego. Mesmo na área da saúde o seu projecto inicial tem vindo a descaracterizar-se nos seus aspectos mais positivos por cedências constantes perante os lóbis e com alguns deputados democratas que conseguem ultrapassar os republicanos em conservadorismo retrógrado.
Mas no meio de todas as medidas controversas do seu programa, sem uma política concreta e bem definida, o que mais nos espanta a todos os que de certo modo acalentaram algumas esperanças na sua política externa, Obama não tem mostrado a firmeza necessária da defesa das suas ideias que apontavam para mudanças mais positivas em prol da Paz e do concerto com todos os países, melhorando as suas relações com a Europa, abolindo segundo dizia a forma arrogante e paternalista com que os Governos Americanos têm tratado os outros povos.
O tom inicial dos seus discursos foi-se alterando significativamente, em especial no que diz respeito à resolução dos conflitos em que os US estão envolvidos, escolhendo deliberadamente a manutenção e o reforço de militares e armamento, prosseguindo a instabilidade no Iraque e a guerra no Afeganistão, usando de todos os artifícios e ameaças contra muitos outros povos. A sua autoproclamada intenção de querer em curto prazo desmantelar as bases de Guantánamo, parece cada vez mais retardada no tempo e na forma, não só em relação à extinção desta prisão (num país estrangeiro), como também continuam nebulosos os critérios e medidas que vão ser utilizadas em relação aos prisioneiros, muitos deles encarcerados há longos anos, sem uma justa avaliação das causas.
Antes de mais, devo esclarecer que sou totalmente contra os meios de terror e violência que os fundamentalistas de todos os credos se servem para impor o seu poder e as suas ideias. Condeno veementemente, todos os actos de terrorismo, sejam os praticados no 11 de Setembro nos US e no 11 de Março em Espanha, sejam todos os outros que ao abrigo de uma pretensa liberdade ou de religião são praticados em todo o mundo, utilizando diversas formas de terror e violência, provocando a morte de milhares de pessoas inocentes. Muito embora reconheça de que em alguns casos a palavra terrorismo é aplicada injustamente contra os povos que se querem efectivamente libertar contra o colonialismo e outras formas de opressão, como foi o caso dos países Africanos que só com a perda de muitas vidas conseguiram almejar a sua liberdade.
Mas o que está em causa nesta atribuição do Nobel da Paz ao Presidente dos Estados Unidos, é o facto de se estar a condecorar uma pessoa que poucos meses após a sua tomada de posse, nega em actos e palavras todos os seus discursos a favor da Paz e da concórdia entre todos os Povos, sendo o exemplo mais flagrante a recente decisão de enviar mais 30.000 Militares para o Afeganistão, para quem anunciava a vontade de resolver as contendas através de negociações e consenso estamos bem servidos.
Ao receber o Prémio de Nobel da Paz, Obama num acto de hipocrisia farisaica, enalteceu as figuras cimeiras da Paz, Luther King e Nelson Mandela, mas logo assumiu o discurso dos antigos Presidentes Americanos, defendendo a estranha teoria de guerras justas e necessárias. Até quando e como é que uma guerra de ofensiva e ataque a um país estrangeiro pode ser considerada justa? Isso o laureado não explica, assim como não pode explicar o porquê de um em cada cinco americanos acharem que o “seu” Presidente não é merecedor desta distinção.
Para mim mais do que uma enorme desilusão pelos duvidosos critérios do Comité Nobel Norueguês na atribuição de tão alto galardão que já no passado cometeram erros históricos na sua avaliação, fica o acto de aceitação por parte do Presidente Obama de um Prémio para o qual ainda em nada contribui e que tudo aponta que no futuro só teremos a lamentar ainda mais a sua politica belicista, com mais guerras, dando-nos a dolorosa sensação de que as ideias do Imperialismo e Expansionismo americano continuam a servir de guia e orientação do detentor do Prémio Nobel da Paz em 2009.
CV-Dezembro de 2009
Martins Raposo
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
ARY DOS SANTOS
Passam 25 Anos após o falecimento de um dos maiores Poetas contemporâneos que cantou o amor e a revolta como ninguém. Polémico, arrebatado e interveniente político, sempre solidário e militante consequente.
A sua postura vertical e acutilante, criou-lhe grandes inimizades, mas foram muitos os que ultrapassando a fanática segueira partidária lhe renderam a justa homenagem e foram seus amigos até ao fim da vida, entre muitos outros salienta-se o nome da Poetisa Natália Correia que fez um espantoso prefacio n o seu livro " As Palavras Das Cantigas",
Passam 25 Anos após o falecimento de um dos maiores Poetas contemporâneos que cantou o amor e a revolta como ninguém. Polémico, arrebatado e interveniente político, sempre solidário e militante consequente.
Os seus poemas foram cantados pelos melhores intérpretes portugueses e alcançaram enorme êxito a nível nacional e internacional. Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Simone de Oliveira, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, foram entre outros, aqueles que deram voz à sua poesia.
A sua frontalidade e o engajamento ao PCP, contribuíram por uma certa imprensa o terem votado ao desprezo e olvidarem por completo a sua Obra, considerada uma das mais importantes no género. Cabe à minha geração que viveu e tetemunhou o seu valor, tudo fazer para que se não esqueça a sua voz e denunciar a hipocrisia dos vendilhões do " templo neoliberal" que tanto mal tem causado a todos os povos do mundo.
A sua postura vertical e acutilante, criou-lhe grandes inimizades, mas foram muitos os que ultrapassando a fanática segueira partidária lhe renderam a justa homenagem e foram seus amigos até ao fim da vida, entre muitos outros salienta-se o nome da Poetisa Natália Correia que fez um espantoso prefacio n o seu livro " As Palavras Das Cantigas",Poemas como a "Estrela da Tarde", Meu Amor, Meu Amor", "Lisboa Menina e Moça", É Tarde Meu Amor" e tantos e tantos outros Poemas feitos canções memoráveis que andaram de boca em boca, no povo que ele amava.
Falta fazer em Portugal a Homenagem que este Poeta bem merece. Não basta que só o "seu" Partido se continue teimosamente bem a honrar a sua memória o País continua em dívida para com o grande Poeta que foi José Ary dos santos.
Que Viva o Poeta!
CV -04 de Dezembro de 2009
SUÃO
O MEU LIVRO DE OUTUBRO
Deixo para vós meus queridos amigos este lindo Poema, "Senhor Vento" e ao mesmo tempo uma recomendação, se ainda não leram nenhum livro deste escritor, façam-no enquanto é tempo, os "bombeiros do Fahrenheit 451" andam por aí.
Senhor Vento, ó Senhor Vento,
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
Antunes da Silva
CV-Novembro 2009
Martins Raposo
O MEU LIVRO DE OUTUBRO
O livro escolhido neste mês é da autoria de Antunes da Silva, Alentejano nascido em Évora em 1921 e falecido nesta cidade em 1997. O autor iniciou a sua obra em 1946, com Gaimirra, uma colectânea de contos, que relatam as vivências dos trabalhadores alentejanos, gente do povo, pequenos seareiros, ganhões, malteses, assalariados sem mais qualificações do que a força do trabalho. Gente que sofre as inclemências do clima e das leis que favorecem os senhores da terra, lutando contra as injustiças, perdendo quase sempre contra todas as forças adversas.
A seguir a Gaimirra, seguem-se com o mesmo estilo as Coletâneas, Vila Adormecida, Aprendiz de Ladrão, O Amigo das Tempestades; os Romances O Alentejo é Sangue, Terra do Nosso Pão e a Fábrica, este último editado em 1979.
Suão, escrito em 1960, é o seu primeiro romance, onde nos descreve num estilo vigoroso, a planície Alentejana com os senhores da terra impondo as suas leis arbitrárias, mesquinhas e selvagens contra os trabalhadores, sejam os pequenos seareiros, sejam os assalariados, uns acorrentados às imposições de rendas insuportáveis, os outros condicionados aos salários de miséria.
O drama deste povo, submetido ao poder dos latifundiários, despojado de todos os direitos até nos seus amores é roubado e desumanamente desapossado. Aos ricos tudo é permitido, aos pobres tudo lhes é retirado.
O autor descreve-nos um Alentejo, no qual predomina o agrário, inculto e mesquinho, autoritário, rei sem coroa que abusa na exploração desenfreada, manda e castiga a seu belo prazer, minimiza o trabalho de quem o serve, porque o trabalho o enerva, pagando mal ao campaniço e ao artista, chorando os tostões que entregam a quem lhe põe no bolso a sua fortuna..
Ainda existem hoje tais senhores, aborígenes de uma elite devassa e são eles, alguns dos latifundiários insensíveis, péssimos condutores de homens, que medem por varas de porcos, armazéns de lã e barracões de cortiça a sorte do seu semelhante nas escola dos seus valores sociais, que não acreditam na ciência, porque a ciência os obriga a pensar, que pressionam e convencem as entidades governativas para que não sejam instaladas zonas fabris nos concelhos aonde residem, que vão à igreja na tentativa de negociar a dimensão dos seus desvarios, e que não aceitam, tão pouco, nenhumas opiniões, intolerantes e ceguetas, ridículos e lambões que deixam ao desbarato e ao abandono, superfícies enormes de terrenos sem qualquer cultivo.
Retrato exagerado, radical e injusto? Eu diria que passados que são cinquenta anos, após a edição deste livro, basta percorrer as mesmas terras que o autor conhecia muito bem e verificamos que os grandes agrários pouco ou nada evoluíram e que a grande maioria das herdades, estão hoje cercadas por arame, sem qualquer cultivo, abandonadas e nem a possível exploração pecuária é correctamente exercida, sem critérios e a distribuição equilibrada de acordo com a natureza dos terrenos.
Acusam os críticos e detractores deste estilo de escrever e de apresentar a sua obra, denegrindo o neo-realismo, escola que dizem ser sectária e socialmente estar ultrapassada. A grande maioria destes críticos, são acérrimos defensores do neoliberalismo, contrários a tudo que cheire a teorias socializantes, porque dizem ser contrárias à “sua democracia” e defendem com todo o ardor, todas as medidas que levem ao esquecimento das obras de todos os escritores que se atreveram a escrever sobre os conflitos sociais e sobre luta de classes que declaram inexistente.
Para obterem o sucesso completo das suas teorias, tudo fazem para relegar para o ostracismo e esquecimento, escritores como Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Fernando Namora, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, José Gomes Ferreira, Castro Soromenho, Armindo Rodrigues, João José Cochofel, Sidónio Muralha, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Alexandre Pinheiro Torres e muitos, muitos outros.
Na minha modesta forma de entender o mundo, considero que é perfeitamente natural que quem escreve, possa escolher livremente o estilo que melhor se adapte ao seu gosto, aos seus conhecimentos e à sua sensibilidade estética. Actualmente, os grandes críticos e pensadores portugueses, são quase unânimes em considerar o neo-realismo como morto e enterrado nas catacumbas dos seus crânios fecundos e donos absolutos da verdade e do conhecimento universal. Pessoalmente, como simples leitor e como alentejano, filho de camponeses, continuo a deliciar-me com o SUÃO de Antunes da Silva e a considerar a sua obra como um testemunho de imenso valor sobre uma época que não está assim tão longe e que pelos vistos, deixou sementes que germinaram e sobrevivem como pragas funestas na paisagem alentejana.
Deixo para vós meus queridos amigos este lindo Poema, "Senhor Vento" e ao mesmo tempo uma recomendação, se ainda não leram nenhum livro deste escritor, façam-no enquanto é tempo, os "bombeiros do Fahrenheit 451" andam por aí.Senhor Vento
Senhor Vento, ó Senhor Vento,
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
Antunes da Silva
CV-Novembro 2009
Martins Raposo
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Apenas cinco anos…
- Na semana passada perdi um cordeiro já grandote. Deve ter resvalado na encosta da Ribeira da Vide. Sem ajudas e com os cães fracos e inúteis não consigo guardar o rebanho como deve ser. - O borrego era dos seus?
Leve lá o gaiato, a verdade é que a vida está muito difícil e já há dias em que vai faltando a comida para tanta gente e os que podem ajudar, ainda nos gozam, dizem que somos mal governados. A vida é um inferno!
Quando chegava a noite, o velho acendia a fogueira à porta da choupana, para fazer as sopas, enxugarem as roupas e ao mesmo tempo afugentarem as raposas e os lobos que vigiavam e atacavam o rebanho ao menor descuido. Depois de terem comido as couves com feijão, o avô desembrulhava o queijo seco e duro e se estava com boa disposição, repartia com o neto, uma pequena parte a que juntava um bocado de pão de centeio.0
Levantava-se num repelão, sacudia os safões, tirava a peliça que punha em cima da palha e deitava-se com uma velha manta a cobrir os ossos. Ainda bem que o lume estava grande e o calor entrava pela porta da choupana sempre a resmungar baixinho acabava vencido pelo sono.
O velho estava sentado à lareira com a filha, lastimava-se com o tempo e a ingratidão dos "ajudas", que só ficavam no campo quando andavam muito precisados, depois desapareciam sem dizer agua vai. Estávamos em Janeiro e o Inverno estava muito agreste com muita chuva e frio. Há mais de quinze dias que mal se via o sol, amanhecia a chover e por todo o dia a agua corria por todo o lado, descendo os valados e engrossando as ribeiras que extravasavam o leito inundando os campos, arrastando nas correntes os animais mais pequenos.
- Na semana passada perdi um cordeiro já grandote. Deve ter resvalado na encosta da Ribeira da Vide. Sem ajudas e com os cães fracos e inúteis não consigo guardar o rebanho como deve ser. - O borrego era dos seus?- Não era, mas o patrão assim que soube, disse logo para repor um dos meus. Não basta a miséria do ordenado mal dar para as sopas, como ainda o mau tempo me rouba os cordeiros. Já só tenho três depois dos outros dois terem morrido, um atacado pelos lobos e agora este vai na enxurrada.
-Onde é que anda o João?
-Qual deles? O mais velho anda aos mandados na D. Francisca, o mais pequeno deve andar por aí a vadiar, mas ele é tão pequenito.
O velho coçou a cabeça rala de cabelos brancos. Pensando bem o gaiato podia vir comigo, preciso de separar o rebanho, as cabras não podem estar mais tempo com a ovelhas. Eu dava-lhe as sopas, sempre ajudava.
A filha ia argumentar, mas o velho atalhou – Oh mulher, o que é tens nessa cabeça dura. Eu só quero ajudar, há por aí muito "ganapos" à boa vida, é só eu querer e levo um ou dois. Depois mais conciliador – Oh Quitéria a vida é assim, nós somos pobres e tu já tens cinco bocas, sem contar com o teu marido que muitas vezes não consegue arranjar trabalho. Estamos em crise, a guerra deu-nos cabo da República que dizia ser a favor dos pobres. Uma gaita…
Leve lá o gaiato, a verdade é que a vida está muito difícil e já há dias em que vai faltando a comida para tanta gente e os que podem ajudar, ainda nos gozam, dizem que somos mal governados. A vida é um inferno!E foi assim que o João, apenas com cinco anos feitos em Abril, abalou para a Atalaia como ajuda do avô Pedro, na guarda das ovelhas e das cabras que só se lembra de serem muitas e mais altas do que ele.
Naquele Inverno, a erva não crescia com o gelo e o avô zangava-se muitas vezes com João que corria para junto das ovelhas, elas o defendiam do cajado que voava direito à sua cabeça.
Foram tempos muito duros, de madrugada quando saia da choupana, tinha que ir com grande cuidado pois os campos quando não estava a chover, estavam acamados de geada que lhe feriam os pés descalços, abrindo-lhe feridas dolorosas.
Naqueles ermos da Herdade, dias e dias sem ver ninguém, o João transido de frio, pensava na Mãe e nos Irmãos e nas brincadeiras no Castelo. Das duas vezes que fugiu o avô o veio buscar depois de levar uma sova da mãe e com os puxões de orelhas que o velho o arrastava até aos campos de martírio e sofrimento. Foram dois anos terríveis que jamais poderá esquecer.
O Ti Pedro, até nem era má pessoa, mas a vida dura tinha embotado os sentimentos, sempre a trabalhar nos campos dos senhores, ganhando uns míseros patacos, só há muitos poucos anos quando as forças já fraquejavam, o patrão concordou com o seu pedido para ser o pastor da casa. Já trabalhava nesta herdade há mais de cinquenta anos e tinha passado por todos os serviços mais duros da lavoura, abrindo valas, cavando os milheirais, ceifando as searas, debulhando os cereais com o mangal, vindimando e fazendo o vinho nas tunas. Tudo isto sem férias e sem regalias sociais, quando chega-se o tempo de não poder andar atrás do gado seria despedido sem apelo nem agravo, forçado a pedir de porta em porta, como tantos outros.
Quando chegava a noite, o velho acendia a fogueira à porta da choupana, para fazer as sopas, enxugarem as roupas e ao mesmo tempo afugentarem as raposas e os lobos que vigiavam e atacavam o rebanho ao menor descuido. Depois de terem comido as couves com feijão, o avô desembrulhava o queijo seco e duro e se estava com boa disposição, repartia com o neto, uma pequena parte a que juntava um bocado de pão de centeio.0Nessas noites se a chuva não incomodava, ficavam um pouco de mais tempo ao lume e depois da ceia o velho tirava o cantil da choça, bebia duas ou três goladas de vinho e arrotando alarvemente, olhava com simpatia o “pequenote” que era um pouco reguila mas era despachado e leve a correr atrás do gado. Passava a mão calosa sobre os cabelos crespos do rapaz e desabafava – Esta vida é mesmo madrasta para com os pobres, devias de ir para a Escola, com algumas letras talvez escapasses a esta escravatura.
O João abanava a cabeça – Avô, o que eu quero é ir trabalhar numa horta. Tinha ouvido dizer que as pessoas que trabalhavam nas hortas dormiam na Vila e comiam bem – coelhos, frangos e muita fruta e ainda recebiam dinheiro.
O velho ficava fulo – Se te queres ir embora vai. Pensas que alguém te arranja trabalho? Onde é que tens força para pegar numa enxada? Se te fores embora, tenho logo aí meia dúzia de gaiatos mais fortes e valentes e sem medo das cobras e dos lobos. Ingrato e mal agradecido é o que tu és!
Levantava-se num repelão, sacudia os safões, tirava a peliça que punha em cima da palha e deitava-se com uma velha manta a cobrir os ossos. Ainda bem que o lume estava grande e o calor entrava pela porta da choupana sempre a resmungar baixinho acabava vencido pelo sono. O João, olhava o escuro da noite com os seus olhos muito vivos e atentos, parece que tinha ouvido o uivar de um lobo. Chamou o “farrusca”, o cão mais pequeno que o avô deixava dormir na sua enxerga aquecendo-se um ao outro. Hoje a noite estava cheia de medos, ergueu a sua pequena cabeça para o céu à procura do sete-estrelo que o avô dizia que dava sorte e suspirando pensava – que bom seria trabalhar numa horta, nem que fosse como “ajuda”.
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