FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quarta-feira, 19 de maio de 2010

LA CIOCIARA
O MEU LIVRO DE ABRIL
La Ciociara é um dos romances mais importantes que no estilo neo-realista, Alberto Morávia escreveu em 1957, numa altura que o autor, já era considerado um dos melhores escritores contemporâneos e após ter escrito os “Indiferentes”, o “Conformista” e o “Desprezo”. Considerava-no muito próximo de escritores como Elio Vittorini e Pavese, embora alguns críticos lhe encontrassem algumas afinidades com o existencialismo de Sartre, e com obra de Albert Camus.
La Ciociara (A Camponesa) é um romance extraordinário que relata a odisseia de Césira, uma camponesa que casa com um pequeno comerciante que vive em Roma e a deixa viúva ainda bastante jovem com uma filha.
Estávamos no início dos anos 40, a guerra alastrava por todo o mundo. A pequena mercearia de Césira a princípio beneficiou com a situação, até que o Governo Fascista de Mussolini e os Alemães se instalaram em Roma e no Sul da Itália.
Os bens de consumo começaram a faltar e a cidade tornou-se perigosa com o aumento da criminalidade, da opressão e do medo generalizado que os nazis e os fascistas impunham aos mais fracos, atingindo severamente as crianças, os idosos e as mulheres.
Césira foge de Roma, para proteger a sua filha Rosetta dos desmandos da ocupação, procurando no campo a segurança e tranquilidade.
Os obstáculos que encontra pelo caminho, espreitam em todos os lugares, mesmo naqueles onde tem pessoas conhecidas, as dificuldades económicas em que vivem as famílias faz aumentar o oportunismo e o banditismo nas aldeias e vilas campesinas.
Césira é uma mulher corajosa e persistente. Com algum dinheiro que conseguiu ganhar com o comércio, consegue de forma inteligente, escapar a todas as ciladas que os escroques tentam encurralar Mãe e Filha, que decidem fugir para as montanhas, por intermédio de um velho amigo.
Santa Eufémia, assim se chamava o lugarejo onde conseguiram ser aceites, depois de vencerem a hostilidade e desconfiança dos montanheses que lhes cedem uma cabana com o chão térreo, sem qualquer comodidade.
Neste meio claustrofóbico, triste e miserável, apenas se destaca o jovem Michelle, filho de uma das famílias remediadas e que tinha feito estudos superiores na cidade, sendo respeitado pela população, pela sua honestidade e o seu carácter bondoso para com os mais fracos. Odiava a guerra e tinha uma especial aversão aos fascistas, nazis e em geral a todos os corruptos e oportunistas que nestes tempos de morte e destruição apareciam como cogumelos em todos lugares, até mesmo em Santa Eufémia, corajoso afirmava que “não há amigos em tempo de guerra, nem homens, nem dinheiro, nem nada". Michelle, torna-se o anjo da guarda destas duas mulheres desamparadas, num meio hostil e com a guerra a invadir todos os lugares, os refugiados aumentam e ao mesmo tempo fogem para mais longe porque a aldeia já não oferecia segurança.
Com o conflito quase a terminar, os destroços deixados pelos inimigos em fuga, continuaram a aumentar as dificuldades e as agressões não vinham só dos alemães. Os fascistas de Mussolini não lhes ficavam atrás na maldade e nos meios que utilizavam.
Mas foi um alemão que utilizando a sua arma obrigou Michelle a indicar-lhe o caminho a norte das montanhas.

Sem a protecção de Michelle, o ambiente em Santa Eufémia, tornava-se perigoso para as duas mulheres que resolveram sair de surpresa para o vale onde se dizia os aliados tinham derrotado os alemães. A desolação que encontraram nas aldeias destruídas sem ninguém conhecido, obrigou-as a tomarem a resolução de voltar para Roma. No seu íntimo, Césira, tinha esperanças que aqueles americanos, seriam amigos do povo e as ajudariam a chegar a casa sãs e salvas dos imensos perigos que tinham vivido.
Quando julgavam estar próximo dos seus objectivos, aconteceu-lhes o mais trágico imprevisto de todos os maus tempos porque passaram. As sementes da guerra provocam em todos os seres, alterações de personalidade e de caracter, fazendo-as praticar os mais hediondos crimes, sejam eles de um lado ou do outro.
Por absurdo que pareça, a inocência de Rosetta que sua Mãe tão resolutamente tinha defendido, foi violada precisamente por soldados Marroquinos ao serviço dos Aliados quando as duas mulheres já quase tinham alcançado os seus objectivos.
Foram os dias mais terríveis para Césira, pela humilhação sofrida, por não ter conseguido salvaguardar a honra de sua filha, e por ter que se rebaixar a pedir o apoio dos “falsos amigos” que tinham sido uns escroques no princípio da sua fuga.
A guerra para Césira continuava, desmedidamente cruel e dolorosa., agravando-se com a notícia do assassinato de Michelle pelos alemães. Perdera definitivamente o seu melhor amigo que ela amava como se fosse seu filho, o que a levou a desabafar – “que a guerra atinge justamente os melhores, porque são os mais corajosos, os mais altruístas, os mais honestos; uns morrem como o pobre Michelle, outros ficam estropiados por toda a vida, como a minha Rosetta”.
O seu desespero atingiu o cúmulo que a levou quase ao suicídio, perdendo definitivamente a esperança de chegar a casa. Como sempre esta enorme mulher, de uma coragem sem igual, mais uma vez se levanta enfrentando os infortúnios e os azares da vida provocados pela guerra e de cara bem levantada segue em frente até chegar ao seu lar querido e acolhedor.
A guerra tinha acabado, fazendo-lhes renascer nas duas mulheres a esperança de terem conquistado o direito de voltar a viver em paz.
Esta obra monumental, que segue nos seus traços gerais a denúncia do flagelo das guerras que castigam cruelmente os mais desprotegidos, a Mãe Coragem” de Berthold Brecht, prende o leitor da primeira à última página, com uma escrita despojada de artifícios e fantasias. Esta era uma das regras dos neo-realistas que nos quiseram mostrar a miséria de uma sociedade em decadência nos seus valores, agravados por guerras cruéis e injustas. Num tempo em que muitos escritores actuais tecem as piores críticas a este estilo que marcou o Sec. XX, o neo-realismo continua sendo a “escola” que denunciou desassombradamente todas as calamidades provocadas pela burguesia gananciosa, defensoras do capitalismo selvagem e posteriormente do neo-liberalismo que continua nos dias de hoje a ser o mais nefasto inimigo dos trabalhadores de todo o mundo.
Após ter escrito este romance, Albert Morávia foi nomeado para receber o Prémio Nobel da Literatura, mas à última da hora por imposição da CIA, a Academia viu-se obrigada a atribuir a Boris Pasternack o mais alto galardão da Literatura.
La Ciociara foi adaptada ao cinema pelo argumentista, Cesare Zavattini e realização Vitorio de Sica que escolheu Sophia Loren para interpretar a corajosa figura de Césira.
Martins Raposo - Abril 2010
DADOS: Extractos do próprio Livro de Morávia; Wiquipédia; Google;Site Literatura. A última imagem sobre o momento em que Berlim é conquistada, é uma simples homenagem aos heróis que há 65 anos conseguiram derrotar o nazismo.
JMR

quarta-feira, 5 de maio de 2010

COMEMORAÇÕES POPULARES
DO 25 DE ABRIL EM CASTELO DE VIDE
Pode-se dizer que o dia maravilhoso deste Domingo que assinalou o 36º. Aniversário do 25 de Abril, foi um perfeito aliado que beneficiou positivamente o encontro de largas dezenas de pessoas, que corresponderam ao apelo formulado pelo Convite elaborado por um grupo de pessoas de várias tendências políticas, na qualidade de cidadãos, empenhados em mobilizar os Castelovidenses para festejarem o 36º. Aniversário do 25 de Abril, de forma espontânea e popular.


Por uma feliz coincidência, estavam presentes por iniciativa da OCRE, um numeroso grupo de cidadãos dos PALOP (s), São Tomé, Guiné e Cabo Verde, que quiseram de forma voluntária associar-se a esta iniciativa. Tal como o Convite enunciava houve muita música, comida e bebida à descrição, num ambiente de saudável convívio e aberto a todas as pessoas que quisessem intervir, o fizessem em inteira liberdade sobre o tema do 25 de Abril.


E foi assim que ouvimos o Professor Joaquim Canário, relembrar o papel importante que teve o nosso conterrâneo Tenente Coronel Fernando Salgueiro Maia, nesse dia glorioso da “Revolução dos Cravos” e ao mesmo tempo advertir contra os perigos do neoliberalismo que contribuiu para a crise existente e também para a existência de injustiças sociais que se têm vindo a agravar, desvirtuando os ideais pelos quais se bateram os “Capitães de Abril”.


Falaram também os responsáveis pelos jovens de São Tomé, Guiné e Cabo Verde e todos foram unânimes em concordar que o 25 de Abril abriu as portas da Liberdade ao Povo Português e aos Povos dos seus países.
No final das intervenções cantou-se a Grândola Vila Morena, o Hino da Revolução.



Seguiu-se uma Romagem ao cemitério onde foram colocados cravos vermelhos na campa de Salgueiro Maia, e se teceram algumas palavras alusivas a verticalidade moral e cívica deste nosso herói.

A Festa que começara logo de manhã, terminava com muitas pessoas a comentar alegremente o ambiente caloroso e popular desta forma de comemorar o 25 de Abril e já a pensar que para o ano se pode envolver muito mais gente, muito em especial a juventude. Serpa Soares informou da vontade manifestada de envolver a comunidade escolar, para que os jovens estejam em maior número e todos podermos com mais força e confiança dizer: VINTE E CINCO DE ABRIL SEMPRE!

NOTAS: Esta iniciativa que se realizou pela primeira vez em Castelo de Vide, teve a sua origem num grupo de cidadãos que na sua maioria teve o privilégio de viver e participar no 25 de Abril e que sem querer entrar em conflito com as cerimónias públicas levadas a efeito pela Autarquia, decidiram promover este encontro festivo e popular com um significado mais de acordo com os ideais da Revolução dos Cravos.
Sem esquecer todas as pessoas que quizeram associar-se à "Festa do Parque 25 de Abril", registamos por ordem alfabética os nomes dos primeiros responsáveis pela organização: Alcino Maniés, Amândio Patacas, António Barrocas, Francisco Carapeto, Francisco Hilário, João Carrilho, Joaquim Canário,José Raposo, Julio Ribeiro, Romero Palmeiro, Serpa Soares e Tiago Malato.
CV – Abril 2010
Martins Raposo
AGRUPAMENTO ESCOLAR DE CASTELO DE VIDE

PROMOVE SESSÃO SOBRE O 25 DE ABRIL
A Direcção do Agrupamento de Escolas de Castelo de Vide, em conjunto com um grupo de Professores, Auxiliares e Alunos, inaugurou no passado dia 21 de Abril uma Exposição sobre o Poeta Ary dos Santos, com Fotografias, Enxertos de alguns Poemas. No mesmo dia realizou uma Sessão de Esclarecimento para os alunos do 6º. Ano, sobre essa data histórica para a qual convidou a Direcção do Núcleo da Associação 25 de Abril do Norte Alentejano que se fez representar pelo seu Presidente, Tenente Coronel Francisco Matos Serra, o Professor Joaquim Pinto Ferreira Canário e José A. Martins Raposo.
O orador principal foi o Tenente-Coronel Matos Serra que fez uma breve síntese sobre os acontecimentos antes que deram origem à “Revolução dos Cravos”, assim como a forma como os militares se organizaram para derrubar o antigo regime e de como obtiveram uma vitória “sem guerra” ao qual se juntou o Povo com alegria empunhando o célebre cravo vermelho, que ficou para sempre como um símbolo do 25 de Abril.
A seguir falou o Sr. Professor Joaquim Canário que recordou algumas das regras injustas a que os alunos eram expostos, assim como do sistema anti-democrático que submetia o povo pelo medo e pela opressão e enviando os jovens para as colónias numa guerra injusta e inglória.
Alguns alunos e professores colocaram à mesa algumas perguntas, entre elas qual tinha sido a razão do cravo vermelho ter sido considerado um ícone da Revolução que ainda hoje perdura nas Comemorações.
Há mais do que uma versão sobre o aparecimento dos cravos nos canos das espingardas e nas mãos dos populares, uma delas regista a coincidência de um Restaurante que festejava o seu aniversário ter pedido um grande ramo de cravos vermelhos, como o mesmo teve que fechar, a senhora que ia fazer a entrega acabou por dar os mesmos aos soldados e populares que lhe pediam. Outra aponta para o facto de na Praça do Rossio, haver naquela altura alguns quiosques com venda de flores dos quais os cravos eram os mais abundantes, com um ambiente de festa pela vitória pacífica dos Capitães de Abril sobre o antigo regime, torna-se fácil compreender a oferta de flores pelas próprias vendedoras.
Assim acabou esta Sessão de Esclarecimento junto dos alunos que tem sempre a máxima importância para que a memória do 25 de Abril e dos seus ideais, continue presente junto dos jovens. É de saudar esta iniciativa da Direcção deste Agrupamento Escolar.
CV – Abril de 2010
Martins Raposo
NÚCLEO DO NORTE ALEJANO DA ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL
ELEIÇÃO DOS CORPOS SOCIAIS
Realizou-se no dia 31 de Janeiro de 2010, Freguesia do Assumar, uma Assembleia Geral, para eleição dos Corpos Sociais, do Núcleo do Norte Alentejano e que por unanimidade ficou assim constituída:
Mesa da Assembleia Geral
Presidente, Joaquim Pinto Ferreira Canário; 1º. Secretário – José J. Pinheiro; 2º. Secretário – António Jacinto Pascoal.
Direcção
Presidente – Francisco Manuel Matos Serra; Secretário – José A. Martins Raposo; Tesoureiro – Joaquim Gabriel L. Martins.
A não existência do Conselho Fiscal, deve-se a que o Núcleo apresenta as suas contas à Delegação do Alentejo.
Logo a seguir realizou-se no Centro Desportivo e Cultural do Assumar, gentilmente cedida pelo Sr. Presidente da Junta de Freguesia, uma outra Assembleia Geral, com a presença de muitos associados de diversas localidades do Alentejo que de acordo com a Convocatória, procederam à Eleição para os Corpos Sociais da Delegação do Alentejo, da Associação 25 de Abril, sediada em Grândola.















Foi apresentada uma única Lista que foi eleita por unanimidade e que fica assim constituída:

Mesa da Assembleia Geral
Presidente – José Catalino dos Santos; Vice-Presidente – Aníbal M. Guerreiro Cordeiro; Secretário – Rafael Francisco L. Rodrigues.
Direcção
Presidente – José Manuel Nunes Fernandes; Vice-Presidente – Joaquim Gabriel L. Martins; Vice-Presidente – José Joaquim C. Baguinho; Secretário – António Lacerda; Tesoureiro – Mariano Pacheco R. Paixão; Vogais – João Manuel Oliveira, António José Mourinho, Ana Luísa Pinto Soares e José Saldanha Correia Matias.
Após as eleições dos referidos órgãos, usaram da palavra o Presidente eleito da Delegação do Alentejo que se referiu à Proposta Eleitoral, consignados num vasto Programa de muitas iniciativas, entre as quais salientou o compromisso da criação dos Núcleos Locais de Évora, Santiago do Cacem e Alcácer do Sal. Fomentar o recrutamento de novos sócios, procurando sobretudo junto das camadas mais jovens. Proceder à recolha para acervo de poesia popular alentejana, relativa ao 25 de Abril. Realizar mais Exposições itinerantes e participar nas feiras e eventos do Alentejo. Organizar de novo as Tertúlias do Fim do Mundo; promover um espectáculo com artistas sócios e amigos da Associação. Colaborar com a AJA nas comemorações do 80º. Aniversário do Nascimento do Zeca A fonso; relançar novamente o projecto “Espaço Abril Liberdade; promover um Encontro de Corais Alentejanos. Dar o contributo para se associar a algumas Efemérides relativas a figuras proeminentes da Revolução de Abril, nomeadamente as de Vasco Gonçalves e Melo Antunes.Organizar uma viagem-excursão à República de Cuba.
De seguida o Presidente do Núcleo Alentejano, Francisco Matos Serra, falou sobre os principais objectivos a que se propõem e que têm no recrutamento a sua tarefa principal. Reforçando as palavras do anterior orador, referiu a necessidade de angariar mais jovens para a Associação e de continuar o trabalho que todos os anos temos realizado com sucesso, junto das Escolas, em colaboração com os seus Executivos e com as Associações de Pais, por ocasião das Comemorações do 25 de Abril.


 
Vamos privilegiar a colaboração com as Autarquias e outras Associações do Distrito de Portalegre, na realização de Exposições Temáticas sobre o 25 de Abril e a participar em eventos culturais que promovam o encontro de associados e amigos em convívios e festas populares.
Finalmente, em nome da Direcção Nacional da Associação 25 de Abril, falou o Comandante Martins Guerreiro, que agradecendo o convite que lhe foi formulado, teceu algumas palavras de incentivo ao trabalho já efectuado pela Delegação e pelo Núcleo, salientando as propostas enunciadas como um bom instrumento de trabalho que a Sede Nacional dará todo o seu apoio.
Após as intervenções foi servido um almoço-convívio que teve a participação do Grupo Coral Etnográfico de Grândola que brindou os presentes com um reportório magnifico e que obteve calorosos aplausos, tendo sido brindados no final com alguns presentes, da Delegação e da Junta de Freguesia.
Assumar, Fevereiro de 2010
Martins Raposo



terça-feira, 20 de abril de 2010

EM VEZ DE UM LIVRO, UMA CANÇÃO!

Este “apontamento” era para falar de Alberto Morávia, um dos melhores escritores do Sec. XX de quem acabei de ler “A CIOCIARA”, um romance maravilhoso sobre a as injustiças e os crimes da II Grande Guerra e o extraordinário amor de Mãe para salvar a sua Filha do conflito. Mas desta vez, necessito de alguns momentos de reflexão, antes de escrever sobre este Livro que marca uma época de desesperança e de sofrimento por um povo, neste caso o italiano que foi espezinhado pelos fascistas a mando de Mussolini e pelos nazis de Hitler que enviaram os seus soldados para evitar o desembarque dos aliados no Sul da Itália.
LUZ CASAL
Enquanto lia o livro, ouvi uma extraordinária intérprete espanhola, chamada Luz Casal que nasceu em 11 de Novembro de 1958 na Galiza e se notabilizou no início da sua carreira como cantora pop-rock.
Em 2007, a cantora passou por momentos de grande sofrimento e de luta contra o cancro da mama que acabou vencendo com uma perseverança igual ao empenho com que sempre dedicou à sua carreira. Afectada espiritualmente com essa grande luta, acabou por lançar o Álbum “Vida Tóxica” que reflecte esses momentos de angústia e de esperança, numa dessas canções “Bajo tu abrazo” teve a parceria de Rui Veloso.
O seu último Álbum “La Pasión” aparece-nos com um espírito mais confiante, mas marcado com um romantismo fora de vulgar, escolhendo o velho estilo dos “Boleros”, que Tonia La Negra, Los Panchos, José Feliciano e Aldemar Dutra. A sua voz inconfundível, quente e sensual, dá a cada uma das suas interpretações uma emoção particular, mesmo que muitas das suas canções já tenham sido interpretadas por grandes artistas, ficamos sempre emocionados pelo calor da sua voz sensacional e apaixonada, em grandes temas como “Alma Mia”,Historia de Un Amor”,Un Ano de Amor”, “Piensa en Mi”. Esta última canção foi utilizada por Almodôvar no seu Filme “Saltos Altos”.
Luz Casal anda em digressão pela Europa com este último Álbum “La Pasión”, esperemos que venha a Portugal em breve para ao vivo no encantar com a paixão que dá voz aos “Boleros” que têm também a marca do compositor brasileiro, Eumir Deodato e o selo da Editora “Blue Note”.
Enquanto isso não acontece, fiquemos com a sua voz no Youtube.



CV – Abril 2010
Dados: Wikipédia, Youtube, Ípsilon.
Martins Raposo

quarta-feira, 24 de março de 2010

PEDRO ABRUNHOSA
UM DOS ÍCONES DA MÚSICA PORTUGUESA
A propósito de uma mensagem que o meu Amigo Álvaro Monteiro, bancário por acaso e necessidade, mas grande músico e invulgar intérprete de Jaz e de música portuguesa, actuando actualmente com o duo “Álvaro & Zé Victor", que tem merecido o aplauso dos numerosos admiradores que conquistaram com actuações memoráveis, em toda a zona de Sesimbra, Setúbal e outras localidades.
Como ia dizendo, hoje enviou-me um post, em que se vê o músico Pedro Abrunhosa, nos primórdios da sua carreira musical, integrando um grupo musical, ainda sem os famosos óculos que marcaram mais tarde o culto da sua personalidade. Aproveitei para dar uma espreitadela ao seu vasto currículo e aqui ficam alguns dados para os mais jovens que não conheceram este extraordinário intérprete de Jaz que tantos êxitos alcançou nos anos 80.
Pedro Machado Abrunhosa, nasceu no Porto, em 20 de Dezembro de 1960, descendente de músicos amadores que o incentivaram a seguir os estudos das artes musicais.
O seu primeiro instrumento foi o Contrabaixo de Cordas, integrando o Grupo de Música do Porto, dirigido pelo Maestro Cândido de Lima. Ao mesmo tempo iniciou as suas experiências na área do Jaz, seguindo de perto nomes como Billy Hart, David Liebman, Todd Coolman e outros. Neste período formou a Banda de Bolso e o Sexteto de Pedro Abrunhosa, tendo efectuado numerosas actuações com músicos internacionais e foi um dos co-fundadores da Escola de Jaz do Porto.
Já na década de 90 com a composição do Álbum Viagens, deu-se a grande viragem no estilo de composições musicais, aproximando-se musicalmente do “pop-rock”, reforçando a sua atitude de rebeldia e de contestação à situação política.
A sua nova imagem impõe-se com uma gestualidade provocatória, combinando o vestuário negro, com os célebres óculos escuros que jamais vai tirar nos seus espectáculos e no contacto com o público.
Os anos 90 são contemplados com grandes espectáculos e com grandes êxitos musicais, radicalizando o seu estilo musical com aproximações ao “funky e ao hip-hop”, utilizando técnicas de “sampling” com as suas interpretações que transitam invariavelmente do canto para a pura declamação. O Álbum “Silêncio” obtém enorme sucesso em todos os seus espectáculos.
A sua já longa carreira como intérprete e compositor afirmou-se como um dos grandes “ícones pop”da musica portuguesa contemporânea, reconhecido além fronteiras, muito em especial em Espanha e no Brasil onde famosos intérpretes como Elba Ramalho e Zeca Baleiro, têm utilizado as suas canções nos seus reportórios.
São muitos os Prémios que Abrunhosa já conquistou, entre os quais se contam dois Globos de Ouro, vários prémios da Revista Blitz, da Rádio Nova Era e ainda o Prémio da Melhor Banda Sonora em Espanha e o Prémio Melhor Compositor pela RCL.
Esta pequena súmula da bem sucedida vida deste extraordinário músico está naturalmente muito reduzida na verdadeira dimensão, que ainda muito recentemente nos surpreendeu com a criação de uma nova formação musical, “Comité Caviar”, confirmando a coragem de prosseguir com a sua irreverência e demonstrando que se pode ser “contestatário militante” sem perder a excelente qualidade que as suas composições sempre têm tido.
 
CV- 24.03.10
Martins Raposo
NOTAS: Dados recolhidos na Enciclopédia da Música em Portugal no Sec. XX, Wikipédia e Álvaro Monteiro, para o qual vai um  abraço amigo e o meu muito obrigado, pelas excelentes músicas que tem enviado.














O Duo "Alvaro& Zé Vitor"

segunda-feira, 22 de março de 2010


ISABEL FIGUEIRA
UMA ATLETA EXTRAORDINÁRIA



Isabel Maria Andrade Figueira, nasceu em 05 de NOvcembro de 1979, viveu uma parte da sua juventude em Castelo de Vide, onde teve os seus primeiros treinos de natação, modalidade em que se viria a notabilizar como mais adiante veremos pela excelente entrevista que concedeu a meu pedido, para ser publicada no Jornal NCV. Isabel Figueira, licenciou-se em Educação Física e Desporto, é Tecnica Superior de Desporto na Câmara Municipal de Faro e Treinadora no Clube de Natação de Faro.
JMR - Conte-nos um pouco como foi a sua infância.
IF - Tive uma infância normal como tantas outras crianças, com a particularidade de ter tido uns pais que me apoiaram e trilharam comigo os caminhos que decidi percorrer e um irmão que tem sido até hoje um alicerce na minha vida.
JMR – Onde iniciou os seus estudos? Como foi a sua iniciação desportiva?
IF - Fiz até ao 9º ano na Escola C+S de Castelo de Vide e o Secundário na Escola Secundária Mouzinho da Silveira em Portalegre.
Desde cedo que o meu pai me incutiu a mim e ao meu irmão (também ele atleta) o gosto pela prática desportiva. Foi nas aulas que o meu pai dava nas piscinas em Portalegre que aprendi a nadar e mais tarde passei para a associação desportiva de Castelo de Vide onde fui acompanhada pelo meu antigo treinador (João Augusto) até ao momento em que iniciei a minha vida académica em Faro.
JMR – Com que idade começou a praticar desporto de competição?
IF - Comecei a praticar desporto de competição com 6 anos.
JMR – O facto de o seu pai ser professor de E F e além disso se ter distinguido no atletismo, teve alguma influência na decisão?
IF - Possivelmente um pouco.

JMR – Nos campeonatos europeus, realizados em Cádiz, em 2009, a Isabel obteve três medalhas de ouro e dois recordes da Europa. Como viveu esses momentos? Foi a melhor época da sua carreira?
Os resultados que obtive em Cádiz foram fruto de muito trabalho ao longo da época e de um verão praticamente todo passado na piscina e no ginásio a treinar, fiquei por isso muito feliz com os resultados.
IF - Sim, esta foi uma das melhores épocas da minha carreira.
JMR – Quais as provas e os prémios mais importantes que alcançou. Pode-nos indicar o lugar onde decorreram as provas e o porquê da sua importância?
IF - A minha carreira é longa e já participei em inúmeros campeonatos, menciono por isso os últimos prémios mais importantes para além obviamente de Cádiz. A ascensão do meu actual clube (Clube de Natação de Faro) à 2ª divisão e o bronze obtido no meeting internacional da Póvoa de Varzim foram os últimos prémios de destaque.
JMR – Consegue dar-nos o número de provas e prémios que já consegui ganhar?
IF - Como referi anteriormente, a minha carreira é longa, já perdi a noção do número das provas e dos prémios que consegui ganhar.
JMR – Como vai ser o seu calendário de provas para esta época?

IF - Os meus objectivos neste momento são a participação nos Campeonatos de Portugal e a preparação para o Mundial em Julho na Suécia.
JMR – Já participou em Castelo de Vide em alguma prova desportiva?
IF - Participei em muitas!!! Até aos 17 anos representei a Associação Desportiva de Castelo de Vide.
JMR – Qual ou quais os clubes em que já esteve inscrita? Actualmente qual o clube que representa?
IF - Representei o Clube de Natação de Portalegre, a Associação Desportiva de Castelo de Vide e quando vim para Faro para a Universidade, integrei o Louletano Desportos Clube, mais tarde a convite de um amigo, representei o Clube Futebol Benfica e actualmente estou no Clube de Natação de Faro.
JMR – Acha que Castelo de Vide tem condições para a prática da natação? Em sua opinião o que deve ser feito para que esta prática tenha mais adeptos e se possam realizar provas com regularidade?
IF - Castelo de Vide tem condições em termos de infra-estruturas, no entanto não existe uma escola de formação como em todos os clubes pelos quais já passei, e este aspecto é fulcral na criação de uma equipa de competição.
JMR – Quais os seus sonhos e a sua maior ambição em termos desportivos?
IF - O meu sonho neste momento é ser a mulher com 30 anos mais rápida do mundo aos 50 e 100 metros bruços, e a minha maior ambição é continuar com capacidade de lutar para me superar.
JMR – Quais as suas referências a nível desportivo? Tem algum(s) ídolo(s) desportivo(s)?
IF - Admiro o Phelps, e o nadador japonês Kosuke Kitajima.
JMR – Qual o seu hobby preferido?
IF -Tenho vários, praticar outros desportos, ir à praia, cinema…
JMR – Deseja deixar alguma mensagem aos castelovidenses e em particular aos jovens?
IF - Aproveito a oportunidade para deixar algumas mensagens:
Uma à autarquia da vila que me viu crescer, para que não se esqueça de valorizar e congratular os feitos que os castelovidenses vão conseguindo…
Outra de agradecimento ao meu antigo treinador João Augusto, porque muito do que sou como atleta a ele lho devo.
Aos meus pais, irmão e amigos, obrigada por estarem sempre!
E para os jovens de Castelo de Vide…
tem pelos vossos sonhos porque não há impossíveis!
NOTAS: Esta Entrevista já foi publicada no Jornal "Notícias de Castelo de Vide""  na sua Edição de Março. No entanto, trata-se de um projecto pessoal que a Direcção do NCV, teve a gentileza de publicar. A elaboração das perguntas e composição foram de minha autoria e as respostas estão na íntegra tal e qual a Isabel Figueira respondeu de forma muito objectiva, precisa e clara, realçando o valor incontestável da Entevista.A sua inserção neste Blogue corresponde sob o meu ponto de vista, ao interesse geral que a mesma possa ter para todas as pessoas que não tenham acesso ao Jornal. JMR







quinta-feira, 11 de março de 2010

MATOS SERRA, UM HOMEM QUE GOSTA DE POESIA (PARTE II)

Para que os amigos e leitores tenham o prazer de conhecer melhor o nosso Poeta aqui fica um pouco da sua Poesia premiada. O primeiro Poema obteve o 1º. Prémio dos Jogos Florais de Outono XVII, realizados em Monforte no dia 21 de Outubro de 2009 e promovidos pela Autarquia Local.
O Júri do certame era composto pelo Professor António Matias, a Professora Maria das Dores e o Professor Jacques Songy, tendo como convidado de honra o Sr. Miguel Rasquinho, Presidente da Câmara Municipal que se congratulou com o sucesso deste evento que de ano para ano aumenta o número de concorrentes.
O auditório da Biblioteca Municipal estava completamente cheio, com a presença de numerosos concorrentes e convidados. De acordo com a informação do Júri, este ano foi difícil de selecionar os premiados, devido à superior qualidade dos trabalhos apresentados.
Este certame, muito semelhante ao que outras Autarquias do Alentejo vêm promovendo em prol da cultura popular, ganhou ao longo dos anos uma grande popularidade e os concorrentes vêm de todas as regiões do País, alguns dos quais são já caras bastante conhecidas nesta simpática Vila de Monforte, onde grangearam bastantes amigos.
Não é valida qualquer comparação com os Jogos Florais promovidos pela Câmara Muncipal de Castelo de Vide que decorreram pela 2ª. vez em Castelo de Vide, neste ano de 2009, quer em termos de experiência quer do número de participantes, muito embora se deva dizer que o trabalho coordenado pelo Sr.Major Carlos de Oliveira, foi muito importante e merece que a nossa Autarquia o continue a apoiar para que a obra não esmoreça. De qualquer modo, agrada-nos saber que há mais "Majores da Cultura" neste recanto do Alentejo.














CONSELHO AOS SENIORES
Inevitavelmente o tempo vai
A hora flui e urge o dia-a-dia…
Não penses muito nisso e abstrai,
Põe na vida a doçura da poesia.
Põe graça nas palavras e recria
O teu sonho de um dia que se esvai
Noutro sonho de amor e alegria
Que adoça a tua vida e descontrai.
E, revive o teu tempo de criança
Com prazer, alegria, sonho e graça
Olha o tempo que passa, não espera…
Abre-lhes as portas largas da bonança,
Convive sem espinhos nem mordaça
E faz do teu Outono a Primavera.
M.S.
PÁSSAROS DE FOGO
Em pássaros de fogo
chega o pelotão da morte
para impôr como jogo
a lei do mais forte.
Da orla da mata
parte fogo e metralha
e o terror se espalha
por cada cubata.
Morteiro a morteiro
há corpos caídos
em sangue esvaídos
no pó do terreiro
que serão consumidos
no horror do braseiro.
O menino escuro
indefeso chora
pretende ir-se embora
mas...treme inseguro,
ainda o vejo agora
tem as tripas de fora.
Ainda o vejo agora
mas tento esquecê-lo
ao menino que implora
num eterno apêlo.
Era terno e puro
mas... morreu p'lo futuro
já não pode tê-lo
é por isso que eu juro
que tento esquecê-lo.
Eu tento esquecê-lo...
mas a toda a hora
continuo a vê-lo...
 tem as tripas de fora
e num pranto sem fim
é dentro de mim
que o menino chora.
M.S.
COMENTÁRIO AO ADÁGIO POPULAR "BURRO MORTO, CEVADA AO RABO"
( Poesia picaresca)
Neste tão velho ditado
o rabo que vem descrito
tem sentido figurado, 
ele é, ao fim e ao cabo,
'ma outra forma de rabo...
não o propriamente dito;
dito não literalmente...
não é cauda propriamente
mas algo mais redondito
aquela forma inocente
que é, afinal, somente,
'ma espécie de buraquito,
que fica localizado
no ponto mais recuado
da 'strutura do burrito.
Dar de rabo na moral,
não sou eu a fazer tal.
Por isso, devo dizer:
O que houver para fazer,
não se guarde p'ró final
quando a pena já não vale.
Dizia certo poeta,
de forma muito concreta,
muito concreta e serena...
Para se atingir a meta
tudo vale sempre a pena
se a alma não é  pequena:::
Mas... eu, nem sou da poesia...
nem de grande pensamento...
nem me tenta a fantasia
de ir fazer filosofia
sobre o rabo de um jumento
que para além de figurado
é um burro já finado,
e por esse passamento
eu só não choro e lamento
por ser um burro inventado.
M.S.
DEMOCRACIA
(Crítica social)
Quando a coerência e a razão
puserem laivos de amor
em cada coração...
Nesse dia!...
será dia de mudança!
O Sol voltará a iluminar a esperança
e haverá de novo
flores na rua e risos de criança
paz e harmonia!
Quando a Justiça. enfim, tiver vencido,
o amor for um dado adquirido
houver solidariedade,
sem embuste
e com verdade...
e for a voz dos justos libertada...
reataremos a obra começada,
num Abril mais florido.
E ouviremos a música prometida...
e ver-se-á uma bandeira erguida
e desfraldada...
a hipocrisia voltará ao seu redil
e ver-se-á envergonhada
de tanto embuste e tanto ardil
e será de novo Abril
com cravos muitos mil
numa Pátria libertada.
Quando a mentira for banida
e da razão uma bandeira içada,
e a voz dos justos for ouvida
e não seja a verdade acorrentada
para que seja comedida e controlada
dos barões a gula desmedida...
A justiça reinará
e... nesse dia
diremos que haverá
enfim...DEMOCRACIA!...
Autor: Francisco Matos Serra
DADOS RECOLHIDOS: Matos Serra, O Distrito de Portalegre e Câmara Municipal de Monforte.
JMRaposo
MATOS SERRA, UM HOMEM QUE GOSTA DE POESIA!
Francisco Matos Serra nasceu em Monforte, no dia 26 de Março de 1937, filho de gente humilde, trabalhadores rurais que sofreram as agruras impostas aos trabalhadores pelo Estado Novo, mas sempre de cabeça levantada. Senhores do campo, vivendo uns no Assumar, outros em Monforte, gente rija e de numerosa prole.
Francisco, ainda sofreu na pele a dura lei do proletariado agrícola, passando a sua juventude, junto dos ganhões e dos pastores nas herdades dos agrários que nesta região detinham todos os poderes, sob o beneplácito de Salazar, o ditador. No seu tempo ainda apareciam os malteses, de duro traço e alma de aventureiros românticos que eram adorados pelos campesinos que ouviam as suas histórias rocambolescas, relatadas sempre com um humor por vezes cáustico, por vezes ingénuo, mas admiráveis no seu imaginário de raízes populares.
Apetrechado com estas ricas experiências, o descendente dos Serra, não se conformava com a rude vida que levava, rebelando-se com as injustiças sociais de que ainda foi vítima, saíu da sua terra, para outra vida e para outros muitos lugares que percorreu, com o seu porte altivo, de “guerreiro”, idealista e sonhador.
Matos Serra, é um dos amigos da nossa Terra, que há muitos anos nos honra não só com a sua amizade, mas também com uma colaboração prestigiada pela enorme simpatia de um comunicador por excelência, com saber e conhecimento pessoal dos actos que descreve com simplicidade e elegância.
Corria o ano de 2000, quando a Associação de Pais das Escolas de Castelo de Vide, o convidou para falar com os alunos, sobre os acontecimentos do 25 de Abril, vividos pelo anfitrião, como jovem oficial militar. Daí para cá, voltou várias vezes à Escola, sempre a convite da Associação de Pais.
Colaborou activamente com o GACV, na Sessão “Poetas de Abril”, realizado em 30 de Outubro de 2004, contactando com os Poetas Populares que participaram neste evento. Ajudou a realizar a “Exposição Revisitar Abril”, nas Comemorações do 30º. Aniversário da Revolução dos Cravos.

A mais recente colaboração foi a sua intervenção, na Evocação dos 65º. Aniversário do Capitão de Abril, Salgueiro Maia, dando-nos mais uma vez o testemunho da amizade que o ligava ao nosso herói conterrâneo, o respeito pela intérprete ousadia do jovem Capitão, ao mesmo tempo que manifestava a sua preocupação pelos tempos de crise e de desesperança em que vivemos.
Por estranho que pareça, este nosso Amigo é praticamente desconhecido da sua faceta extraordinária que o liga à Poesia Popular, e digo estranho por que o Matos Serra é na verdade um dos melhores Poetas Populares da nossa Região, com um palmarés de Prémios de grande mérito, os últimos dos quais tive o prazer de presenciar nos XVII JOGOS FLORAIS DO OUTONO DE 2009, realizados em Monforte, no dia 11 de Outubro e promovidos pela Câmara Municipal.
Matos Serra,  foi neste precioso evento, galardoado com o 1º. Prémio (ex-aequo) com o Poema “Conselho aos Seniores”, o 2º. Prémio, com a Poesia “Poesia é Vida Eterna, outro 2º. Prémio com o Soneto, “O Bosque em Alvoroço” e o 3º. Prémio no Tema Poesia a Mote, com a Poesia “Ir às Tertulhas (tertúlias), tendo ainda, sido distinguido com Sete Menções Honrosas.
Para não tornar este apontamento demasiado extenso, não posso por agora alongar-me muito mais nesta área da Poesia Popular, em que o nosso amigo já provou ser um dos mestres exímios, no jogo das palavras, com um sentindo romântico carregado de um lirismo sedutor, aliado a um fino sentido de humor onde não faltam as cenas picarescas tão usuais nos meios campestres e bucólicos, no chão do nosso Alentejo.
É mais do que uma certeza de que voltaremos a falar desta figura que se destaca agora no mundo da poesia, mas que tem ainda muito que nos contar da sua história como militar de Abril, interveniente e activo nos momentos mais quentes da Revolução dos Cravos. Homem Vertical, seguro e solidário nos momentos de crise, enfrentando com coragem e dignidade todas as adversidades impostas pelos “próceres” vencedores do 11 de Novembro.

Hoje, este nosso amigo, vive voluntariamente afastado das ondas palacianas que nunca o seduziram, numa Quinta junto às Termas de Cabeço de Vide que é um pequeno jardim, construído sobre ruínas de um velho casarão, pedra a pedra, árvore a árvore, pelas suas mãos. Neste retiro bonançoso, junto de sua dedicada esposa, Maria Antónia, vai dando largas à sua fértil imaginação poética. Escreve sempre em forma poética e a sua vasta produção, vai decerto transformar-se em livro que eu aguardo com a certeza de que terá enorme sucesso.
De vez em quando o Poeta, desce à cidade de “José Régio” (ele, que adora Pessoa), para participar em amenas tertúlias, aumentando em cada dia o enorme espólio de amizades que crescem espontaneamente em cada pessoa que vai conhecendo, com a mesma simplicidade com que dispõe os cravos e as gardénias do seu jardim.
CV - Novembro 2009
Martins Raposo
Nota: Seguem noutro texto os Poemas de Matos Serra

quarta-feira, 3 de março de 2010

UMA TRAGÉDIA MORTAL


Em vésperas de Natal



Paulo Jorge Samarra Trindade, nasceu em Lisboa no dia 29 de Março de 1969 e era filho dos Castelovidenses, Sr. Rogério Trindade e de D. Camila Samarra, já falecida.
O Paulo era neto da minha Tia Libânnia, irmã do meu Pai.
No dia 22 de Dezembro, este jovem apenas com quarenta anos de idade, foi mortalmente colhido por um automóvel desgovernado, com o seu condutor perdido de bêbado que veio embater violentamente na paragem do autocarro que o malogrado Paulo Jorge se preparava para tomar a caminho do emprego.
Paulo Jorge que nem sempre teve sorte nos seus empregos, encontrava-se agora com uma situação estável, nos serviços de segurança na Securitas, colocado na Carris, onde era estimado por superiores e companheiros.
A cerimónia do funeral acompanhada por muitos familiares e amigos, deu-se na Igreja da Charneca do Lumiar e o infeliz foi sepultado no Cemitério do Lumiar. Era bem visível a consternação por esta tragédia provocada por uma pessoa que já tem cadastro criminal e que cobardemente abandonou o carro e a vítima que teve morte imediata. Havia no local uma senhora e duas crianças que sofreram ligeiras escoriações.
Deixa a sua jovem viúva sem emprego e com uma doença incurável, sendo toda a sua família bastante pobre e carenciada, aquém apresentámos o nosso profundo pesar e solidariedade nesta hora de tragédia e de dor.
Ao Rogério Trindade, meu familiar e amigo, destroçado pela dor por ter perdido o único filho que tinha, eu lhe peço que tenha ânimo e coragem para enfrentar esta dolorosa perda.
CV - Dezembro de 2009
Martins Raposo



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

DO SOFRIMENTO DOS POBRES!


NÃO SABER E NÃO PODER!



Joaquim era um menino bonito e forte! Nascera em Fevereiro de 1943 e parecia pela sua curiosa vivacidade vir a ser um menino inteligente. Toda a Família ficou radiante com o nascimento deste menino.
José, o irmão mais velho 14 meses tomou uma especial atenção a este mano que prometia ser um bom companheiro para as suas brincadeiras.
A mãe de José tinha-lhe dito que já tivera um outro irmão, nascido em 1940, mas que faleceu alguns semanas depois. Talvez por isso olhava para o Joaquim com uma ternura redobrada de atenções e cuidados. Quando este adoeceu, recusou-se a sair do seu lado, faltando ao trabalho para poder acompanhar a sua doença, sempre atenta a todos os seus movimentos de aflição.
Moveu mundos e fundos para que internassem o seu menino no Hospital. Alguns dias depois o médico chamou os Pais e disse-lhes que não havia cura para o menino. O vosso filho tem um “nascido ruim” e o sangue não está bom. Não vai resistir a uma operação e não temos remédios para o salvar. Têm que se conformar, mais dia, menos dia…
Família pobre, sem meios e conhecimentos e sem ninguém "influente" que os pudesse ajudar, não baixaram os braços, eles não queriam aceitar o que parecia inevitável. Já tinham perdido o primeiro filho!
Alguém lhes sugeriu um “ervanário”, muito bom, que vivia lá para os lados do “porto” na Ribeira da Vide.
A Mãe levou o Joaquim ao conhecido “ervanário”, que lhe receitou três chás diferentes, sem quase olhar para o pobre menino, que gemia cheio de dores. Saiu do cubículo incomodada com os maus cheiros de coisas podres e azedas que enchiam o compartimento acanhado, os copos mal lavados e as garrafas vazias indicavam um ambiente com poucas condições de higiene.
Os dias corriam lentos e tristes, o  menino não melhorava e a Mãe inconformada ainda recorreu a outros “ervanários/curandeiros” que lhe receitaram outros medicamentos caseiros que também não tiveram qualquer resultado. Um deles chegou a insinuar que o menino tinha sido envenenado.
- Mas por quem meu Deus? Disse a Mãe! Isso não pode ser verdade, nós damo-nos bem com toda gente e os vizinhos são bons, se mais não ajudam é porque não podem. São pobres como nós!
Os Pais não se conformavam com o cruel e fatal destino,  decorridos alguns meses, o Joaquim acabou por falecer, sem nunca terem chegado a saber qual teria sido a verdadeira doença.
Naquele tempo, as famílias pobres não tinham direito a Médico de Família. Quando as pessoas adoeciam iam ao Hospital, os médicos eram muito poucos para atender toda a população do Concelho, sentiam-se impotentes perante os parcos meios de que dispunham, mesmo com grande esforço e dedicação era muito difícil resolver os inúmeros problemas de saúde. Por isso os curandeiros, os ervanários e os simples “adivinhos” eram muito procurados por gente do povo e até por pessoas com alguns meios económicos.
Algum tempo depois, saímos da Rua da Amoreira, no Castelo para a Quinta dos Exames, perto do Monte de Carvalho e umas vizinhas levaram-nos a ouvir as prédicas de um Jovem Pastor dos Adventistas do 7º Dia.
A igreja estava cheia, o pastor tinha parentes na aldeia e possuía uma voz influente e simpática e com uma máquina de Filmar, projectava imagens que se adaptavam ao sermão do dia, que eu seguia sem grande interesse até ao momento em que o Pastor falando da ressurreição dos mortos, afirmava que havia casos de meninos, que passados sete anos, voltavam ao convívio dos vivos
O Zeantónio estava fascinado com as palavras que ouvira e logo ao chegar a casa, perguntou à Mãe há quanto tempo tinha o Joaquim falecido. Será que vai voltar Mãe?
A Mãe comovida, com os olhos marejados de lágrimas de uma dor que ainda sentia, mas sabendo já das experiências da vida que as coisas não se passavam assim como pregava o Pastor, sentiu-se na obrigação de explicar por palavras simples que aquilo que o Pastor queria dizer é que por vezes aconteciam fenómenos que a fé transformava em verdadeiros milagres.
Seguiu-se um longo silêncio, mas a Mãe vendo o filho na expectativa à espera de uma resposta mais convincente, acabou por confessar que nunca em sua vida tinha assistido a milagres desta natureza. Ela tinha ficado órfão de mãe e de pai, muito criança e se não fosse a sua avó materna dificilmente teria sobrevivido. A perda de um Filho é muito dolorosa, mas perder a Mãe e o Pai é ainda muito maior.
Na pequena cabecinha do pequeno, de cinco anos apenas, deu-se um choque tremendo. A “mentira” do Pastor tinha-lhe retirado o sonho que mais queria ver realizado – o de voltar a brincar com o seu mano Joaquim!
Depois dessa noite, nunca mais os vizinhos conseguiram convencer o Zé a acompanhá-los à sua Igreja!
CV-2009
Martins Raposo









segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

DA MÚSICA

CARMEN DE BIZET – UM BOM ESPECTACULO


A bonita Sala do CAEP – Casa de Espectáculos de Portalegre, estava praticamente esgotada, na expectativa de assistirem a uma versão livre de Cármen de Bizet, adaptada pelo Ballet Flamenco de Maria Carrasco, acrescida com muita boa música flamenca e uma coreografia muito bem encenada por Maria Carrasco que desempenha também a figura principal com uma força dramática fora do vulgar,
As restantes personagens, revelando uma enorme experiência e profissionalismo tiveram um desempenho digno dos melhores aplausos, os bailados, parte deles acompanhados por músicos ao vivo, deram-nos momentos de grande beleza estética, seguindo de perto o tema principal da obra de Prosper Mérimée e seguindo as partes principais da musica composta por Georges Bizet que continua a cativar o grande público.

Georges Bizet, que nasceu em Paris, é considerado um dos grandes representantes do romantismo com obras como os “Pescadores de Pérolas”, “Don Procópio e a Suite L´Arlesiene, esta última  alcançou um grande sucesso, mas foi com a Cármen que obteve o seu maior êxito. Infelizmente, o autor já pode usufruir essa suaúltima glória, por ter falecido pouco depois desta belíssima obra que Brahms chegou a considerar como uma das melhores Óperas do género.



Foi um Espectáculo de grande qualidade esta Cármen com adaptação e encenação de Maria Carrasco, que recebeu calorosos aplausos do público, levando os actores a ofereceram-nos três bonitos “encores” o que de certo modo veio atenuar a única nota dissonante provocada pelo sistema de aquecimento da Sala avariado, e com a cafetaria fechada que deu azo a alguns comentários menos simpáticos que creio que com algum esforço poderiam terem sido evitados, até porque a escolha criteriosa dos espectaculos de grande qualidade que nos têm oferecido, merecem os nossos melhores elogios.
Portalegre,19.12.2009
Martins Raposo


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O MEU LIVRO DE NOVEMBRO


"A CONSPIRAÇÃO CONTRA A AMÉRICA"
O MEU LIVRO DE NOVEMBRO

De: Philip Roth



















Este Livro foi escrito em 2004, mais de 60 anos após os acontecimentos que provocaram a Segunda Guerra Mundial, com Hitler a intensificar a monstruosa perseguição aos judeus e o governo nazi a preparar os tenebrosos campos de concentração onde foram exterminados milhões pessoas inocentes apenas porque pertenciam à comunidade judaica. O Holocausto marcará assim o século XX, como uma das tragédias mais dramáticas da história da Humanidade.
Fhilip Roth, nasceu em 1933, na América, na cidade de Newark, de origem judaica, tem dedicado muitos dos seus livros e ensaios, à problemática da exclusão dos Judeus em muitos países do mundo. A “Conspiração Contra a América” tem como tema a vitória (virtual), nas Eleições Americanas de 1941, de Charles Lindbergh, um perigoso populista que ganhou fama de herói pelo facto de ter concluído com êxito o primeiro voo transatlântico, ligando Nova York a Paris.
Intitulando-se o salvador da Pátria com o falso propósito de afastar a América do conflito que já alastrava a todos os países da Europa, Lindeberg um confesso simpatizante do nazismo, começou uma perseguição à vasta comunidade judaica, perseguindo e assassinando os seus melhores líderes, corrompendo os mais fracos e isolando os mais fortes.
De certa forma, este Livro de desesperança de medo e de opressão, com a maioria do povo americano duplamente enganado por uma enorme farsa levada aos extremos pelo populismo demagógico de um verdadeiro fanático anti-semita e pró-nazi. Enquanto prometia evitar que os jovens americanos entrassem na guerra, tomava declaradamente posições contra os aliados, chegando a ameaçar o Canada. No cúmulo da hipocrisia falava de Paz, mas fazia a guerra mais suja e criminosa, contra uma minoria étnica no seu próprio País.
Mas o mais trágico deste livro de pura ficção(!) é a de que não só tudo poderia ter acontecido, transformando em realidade os planos de loucura e de tragédia para o povo americano e para todos os povos do mundo, como ainda nos dias de hoje, a humanidade não está completamente livre de aparecer um líder semelhante a este Lindberg que com um populismo radical e extremista destrua tudo o que de bom se construiu por um mundo melhor, mais tolerante e mais humano e em Paz.
O Livro de Philip Roth tenta avisar-nos e convida-nos a estarmos alerta contra todas as formas de intolerância. As “cores” com que nos descreve as cenas mais dramáticas, podem não cativar alguns leitores, mas em minha modesta opinião, o facto desta obra ter sido escrita em data muito recente, o autor de forma muito hábil e eficaz quis lançar um “Alerta Geral” para nos precavermos contra os Populistas, os Demagogos e os Fundamentalistas de todas as espécies.
CV- Dezembro de 2009
Martins Raposo
APONTAMENTOS: Philip Roth é hoje considerado um dos melhores escritores da Literatura Mundial, tendo sido premiado com o Prémio Pulitzer em 1997, com o seu livro “Pastoral Americana”. Em 2002 ganhou a Medalha de Ouro da Ficção, atribuído plea Academia Americana de Artes e Letras.
 “A Conspiração contra a América”, recebeu o prémio da Sociedade de Historiadores Americanos, pelo “excepcional romance histórico sobre um tema americano”.
Recentemente recebeu dois dos mais prestigiados prémios do PEN/Nabokov em 2006 e o PEN/Saul Bellow em 2007.
Adeus Columbus, O Complexo de Portnov, Diário de uma Ilusão, Casei com um Comunista, Pastoral Americana, o Animal Moribundo, Homem Comum, Teatro de Sabath, são alguns dos Livros da sua extensa obra literária.
FONTES: Wikipédia, Portaldaliteratura e Wook.





segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

QUANDO UM HOMEM QUIZER


Tu que dormes a noite na calçada de relento

Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

És meu irmão amigo

És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme

Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

E sofres o Natal da solidão sem um queixume

És meu irmão amigo

És meu irmão

Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

Tu que inventas bonecas e comboios de luar

E mentes ao teu filho por não os poderes comprar

És meu irmão amigo

És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

És meu irmão amigo

És meu irmão

Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Paulo de Carvalho


Dia de Natal


Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos,

entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento

e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa

a sua comoção é tanta, tanta, tanta,

que nem dorme serena.
Cada menino

abre um olhinho

na noite incerta

para ver se a aurora

já está desperta.

De manhãzinha

salta da cama,

corre à cozinha

mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza

da matutina luz

aguarda~o a surpresa

do Menino Jesus.

Jesus,

doce Jesus,

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

do Pedrinho

uma metralhadora.

Que alegria

reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortas:

tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

que caíam

crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,

dia de Amor, de Paz, de Felicidade,

de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão