quarta-feira, 1 de março de 2017
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
As Ilhas das Cagarras, também
conhecidas por Selvagens!
Martins Raposo
Este minúsculo sub-arquipélago, tem uma área de 273 Hectares
e fica a 250 Kilómetros do Funchal e a 165Kms das Canárias, foram descobertas
no ano de 1394 e batizadas alguns anos depois pelo português Diogo Gomes
Sintra. Ao longo dos anos, teve vários donos, cada um com o seu interesse
particular. Em 1971, o Governo português decidiu comprar as ditas Ilhas que
para além de servirem de nidificação das Cagarras, nada mais servem para
ninguém. Possuem apenas um casinhoto onde dois guardas da chamada reserva
natural, residem e permanecem em estilo de campanha, vivendo como eremitas numa
área assolada por ventos e tempestades e sabe Deus em que condições. Dois
eremitas forçados a viver uma vida de eterna solidão.
Pois este aglomerado
de rochas e duros pedregulhos, já foram bafejadas pela sorte(?) de terem
sido visitadas depois do 25 de Abril, pelos Presidentes da República; Mário
Soares, Jorge Sampaio, Cavaco e Silva e agora pelo "andarilho
saltitão" Sr. Comentador, perdão Sr. Presidente Marcelo, que segundo
alguma Imprensa, andou todo o dia esbaforido a tirar selfies com as Cagarras que
são muito lestas no andar e sempre prontas para voar.
Estas Ilhas, apesar do seu fraco préstimo, já
conseguiram ser mais visitadas pelos
Senhores Presidentes, que a maioria dos municípios portugueses, alguns dos
quais vivem em completo abandono, sem um mísero olhar dos ditos cujos e as suas
populações sofrem de mais isolamento,
que os infelizes guardas das cagarras. Têm ao longo der séculos sido
ignoradas e desprezadas pelos PRs. e pelos Governantes.
CV- 29.08.2016Martins Raposo
terça-feira, 23 de agosto de 2016
RESPOSTA A UM ALEMÃO ZANGADO
Um Alemão, aparentemente bem informado (?) editou um Vídeo, mostrando-se indignado com os radicais islamitas, que têm aterrorizado e assassinado muitos cidadãos desta Europa, em resposta à guerra que lhes têm feito no Iraque e na Síria. Sou totalmente contra os crimes que os radicais têm cometido que considero actos de verdadeiro terrorismo. Mas por outro lado, lembro-me de Brecht e de Bertrand Russel que foram paladinos da Paz entre os Povos, cada um à sua maneira e geralmente, estou de acordo com as suas ideias. Aqui fica pois, um comentário que provavelmente só eu que o li na sua totalidade. Não importa!
23 de Agosto de 2016, algures entre a montanha e o mar.
J. Martins Raposo
Um Alemão, aparentemente bem informado (?) editou um Vídeo, mostrando-se indignado com os radicais islamitas, que têm aterrorizado e assassinado muitos cidadãos desta Europa, em resposta à guerra que lhes têm feito no Iraque e na Síria. Sou totalmente contra os crimes que os radicais têm cometido que considero actos de verdadeiro terrorismo. Mas por outro lado, lembro-me de Brecht e de Bertrand Russel que foram paladinos da Paz entre os Povos, cada um à sua maneira e geralmente, estou de acordo com as suas ideias. Aqui fica pois, um comentário que provavelmente só eu que o li na sua totalidade. Não importa!
Este Alemão fala sobre uma perspetiva pessoal, mas esquece
muita coisa. Esquece que o seu País a Alemanha é um dos principais cúmplices de
toda esta tragédia, na qual os Estados Unidos têm agido como os principais
culpados, tendo sido os criadores dos Talibã. Bin Laden foi apoiado e recebeu
armamento e dinheiro para combater os Soviéticos que ocupavam indevidamente o
país Afegã. Já antes tinha estado no Vietname e ... os Alemães caladinhos. No
Iraque foi o que toda a gente sabe, mais uma vez os Estados Unidos fizeram uma
guerra injusta, os ingleses ajudaram (até Portugal) e a Alemanha nada disse. O
estado islamita radical, fomentou as suas primeiras guerras, com armas vendidas
pelos Americanos, primeiro nas chamadas "Primaveras Árabes" e depois
na Síria. O Governo da Síria pode nem ser o melhor para o seu Povo, mas a
América não tem o mínimo de moral para ser o Supremo Juiz que impõe a sua
democracia ('). Até agora, ainda não vi uma única medida da Alemanha para
ajudar os Países a resolveram os seus assuntos sem guerra e sem a agressão
bélica imposta pelos Estados Unidos. Os Alemães têm muita culpa no cartório ao
longo dos anos, não são todos culpados, mas Hitler chegou a ter o apoio da maioria
do seu Povo, nenhum alemão se conseguiu impor contra o maior criminoso da
história da Humanidade, Que todo este meu arrazoado que é muito pessoal e
portanto perfeitamente discutível , não leve ninguém a pensar que sou a favor
do Islamismo Radical e fundamentalista (sou completamente contra qualquer tipo
de fundamentalismo), não quero dizer que estou contra este Alemão, mas continuo
a pensar que este e muitas outras pessoas estão erradas, ao tentar culpar esta
situação só a uma das partes. Pessoalmente penso que todas os conflitos se
devem resolver a nível diplomático. A Síria era uma ameaça para a Europa? Bom
vamos estudar a maneira de ajudar o seu Povo, sem guerras, sem agressões,
talvez até seja só uma problema económico, ou um conflito político interno que
se possa resolver. Vamos ajudar os Povos que estão em crise, sem estar a
Bombardeá-los, por que no fundo quem morre mais são os civis, novos, velhos,
mulheres e crianças. Vamos ajudá-los com todos os meios menos com os
bombardeiros e os tanques. Talvez assim evitemos o êxodo que se verifica, não
só na Síria, mas também nos Curdos, na Líbia, na Palestina. A ONU foi
criada, não para fazer a guerra (isso é com a maldita NATO), deve ajudar
para ajudar os Povos a viver em Paz. è evidente que ultimamente ( e noutros
tempos), não é só a América, ela é a mais agressiva, digamos que ganha imenso
com as suas fábricas de material bélico, mas há outros países como a
Rússia do senhor putin, a Inglaterra, a Alemanha, a França, a Turquia, Arábia
Saudita, Irão, etc. que ou são cúmplices ou são também intervenientes, a fazer
a guerra aos Povos de Países que na maior parte das vezes, apenas desejam viver
em Paz, com Justiça Social e melhor distribuição da riqueza.
Compreendo perfeitamente que muita e muita gente não estará de
acordo com este ponto de vista. Para todos esses, basta ler as primeiras linhas
e limpar imediatamente todo o resto, que não passa de um blá, blá repetitivo.
Mas como dizia o Cavalo do Alexandre O'Neil - Sim vocês podem me montar, mas
não podem por a pensar do mesmo modo. E tenho dito, por hoje.23 de Agosto de 2016, algures entre a montanha e o mar.
J. Martins Raposo
domingo, 21 de agosto de 2016
O
Maquiavel Português
O
nosso pequeno maquiavel, chama-se Paulo Portas, pequenino mas muito esperto,
tarimbeiro na política, acumulando anos e anos as funções de Ministro com
lugares administrativos em várias empresas, públicas e privadas, misturando
política com grandes negócios que o tem favorecido e ao seu partido de ultra
direita, o CDS. Fugindo à Justiça ao abrigo dos imputáveis lugares no Governo e
no Parlamento ao longo dos muitos anos.
É
um político da extrema direita, conservador, populista reacionário e capaz dos
mais execrandos contorcionismos para alcançar os seus objetivos pessoais, não
se importando nada em renegar aquilo que defendeu ontem se com isso conseguir
embolsar mais uns milhões de euros. Foi
o caso da CEE que se disse contrário aos interesses do País, para hoje se
arvorar no mais acérrimo defensor da troika e da austeridade para o Povo.

Em
tempos foi um inimigo pertinaz do MPLA e ainda ontem foi beijar os pés do velho Eduardo dos Santos que meio tonto e
cego não deu conta do verme que o bajulou, aliás o CDS fez-se representar, ao
mais alto nível, assim como o PSD e o PS. E todos se ajoelharam aos pés do
Presidente Vitalício que parte para mais um mandato do qual já perdeu a conta.
Zédu
manda em Angola e o seu Povo é que sabe os porquês, até aqui nada contra, mas o
que revolta é que todos os Partidos enunciados, foram e são contra o Governo do
MPLA. O resto é pura farsa, escondendo interesses políticos e no caso de
Portas, interesses puramente pessoais, Mário Soares (e seu querido João), Sá
Carneiro e Freitas do Amaral. devem estar rangendo os dentes, sobre as acções
indecorosas destes farsantes.
O
PCP sempre esteve e está solidário com o MPLA e como tal fez-se representar sem
alarde
e com todo o respeito e dignidade. Aliás mesmo que Gerónimo de Sousa o distinto
Secretário do meu Partido, poderia sem qualquer problema ter estado nesta cerimónia, sabendo todavia
que a Imprensa do nosso País, como é habitual. nem uma linha escreveria sobre a
sua presença.
O
Bloquê, não se fez representar, mostrando coerentemente o seu feroz radicalismo
contra o MPLA. Ai, se Catarina, menina e moça azougada, se lembrasse de trocar
as voltas e aparecesse em Luanda, aí sim, teríamos mais uma grande entrevista,
e todo o Luandense ficaria a conhecer as historiazinhas da vida desta
verdadeira artista.
É
claro que o Paulinho das Feiras, teria todo o cuidado em obscurecer qualquer
outro político que quisesse evidenciar-se, ele é o Maior pequeno em tudo, que
ninguém se atreva. Estou em Luanda como muito orgulho e presto a minha
vassalagem a todos os Governantes de Angola. Agora, vamos lá aos negócios!
Sabem que eu sou Administrador de uma Empresa Mexicana de Exploração (?)
petrolífera? Bem se quiserem um bom Conselheiro nessa e noutras áreas, já sabem
aqui o Paulinho está sempre pronto, as Luvas podem ser em Dólares. Na Marinha
também não tenho segredos, precisam de alguns Submarinos, Aviões, Helicópteros,
pentes, sabonetes, e balões? O Paulinho sabe tudo e sou um grande amigo do
Zédu.
São
Martinho do Porto, Agosto de 2016Martins Raposo
PS: O Paulinho das Feiras ainda vai ser Presidente da República de um qualquer País.
NUNCA TIVE ÍDOLOS?Tenho quase a certeza de nunca ter tido ídolos, a não ser na juventude, ter colecionado cromos de Artistas de Cinema de que hoje não me lembro de parte dos nomes. Confesso que já tenho deslizes na linguagem ao distinguir certos compositores e intérpretes de música, e, a palavra "ídolos" pode ter surgido em alguns casos. Na verdade tanto na música, como em qualquer das outras artes, tenho gostos generalistas e muito ecléticos, adorando o seu trabalho, o estilo e o engenho de cada um. De resto, nada mais, nem filósofos, nem escritores e poetas, nem compositores ou intérpretes, nada. Dos políticos e de outras personagens históricas, nenhum me seduz a tal ponto.

Já o mesmo não posso dizer, sobre as minhas referências que são variadas e em todas as áreas da Cultura, do Conhecimento Humano e da Política em geral. Alguns desses casos já os divulguei em crónicas anteriores.
Vem tudo isto a propósito das Homenagens que em determinados países e muito em particular em Cuba, estão acontecendo sobre o 90º. Aniversário de Fidel de Castro. Ele é um dos políticos que tenho acompanhado desde libertou o seu País da Ditadura de Fulgêncio Batista. A sua vida é uma verdadeira odisseia que o seu Povo acompanhou e apoiou desde a sua luta de guerrilheiro até hoje.
Merece que os jovens de Hoje, estudem a sua história e do seu Povo que com toda a certeza vai perdurar para todo o sempre. Não quero, me devo fazer comparações e qualquer crítica à sua governação eu deixo para os profissionais do ofício.
No
meu modesto entender das coisas do mundo, Fidel e o seu Povo enfrentaram todo o
tipo de acções de guerra e confrontação política agressiva. A seu lado, está a
maior potência militar com os meios mais sofisticados em armamento e poder
económico do mundo. Os Governos dos Estados Unidos, sejam os republicados ou os
ditos "democratas", todos têm empregue todos os meios para destruir o
único País Socialista das Américas, Foi no Governo de Kennedy que os Americanos
invadiram Cuba na Baía dos Porcos sem qualquer sucesso e com perdas
consideráveis.
O
Presidente Obama (de quem muita gente foi enganada), conseguiu, não sem muita
dificuldade, avançar pequeníssimos passos de aproximação, mas também será rapidamente
esquecido, pela sua falta de coragem e vontade política, vai-se embora com a
promessa por cumprir de abandonar o tristemente campo de concentração de Guantánamo
que com uma prepotência que se sobrepões a todas as vontades, os Estados Unidos
mantêm em solo Cubano. Uma vergonha para as Nações Unidas e para o Mundo que incompreensivelmente
se calam contra mais esta atitude agressiva dos USA.
O
Povo Cubano tem apoiado massivamente os seus governantes, nesta luta de
resistência e mais cedo ou mais tarde, também esta justa reivindicação será atendida.
Fidel esteve sempre na frente dessa luta, primeiro pela libertação e
democratização e depois pela longa luta
contra o Imperialismo Americano que continua a manter o bloqueio económico.
Por
tudo isto a minha inteira solidariedade com o Povo Cubano e a minha singela
homenagem a essa grande figura, já histórica, chamada FIDEL DE CASTRO. Hasta
Siempre Camarada.
São
Martinho do Porto, Agosto de 2016
Martins
Raposo
NOTA
À MARGEM: Tenho todo o direito de humanamente estar errado, mas quase tenho a
certeza, de que se Fidel de Castro, tivesse sido o Presidente da URSS, o Povo
Russo nunca teria abandonado o Socialismo .
quinta-feira, 30 de junho de 2016
COMISSÃO CONCELHIA DE CASTELO DE VIDE DO PCP
A Comissão Concelhia, eleita na 4ª. Assembleia de Organização Concelhia, no dia 29 de Novembro, na sua primeira Reunião de 06 de Janeiro, decidiu entre outros assunto importantes, proceder à elaboração de um Boletim de Informação, cujas linhas gerais vêm enunciados na Edição nº. 1 de Março/Abril, que se afirma como sendo um olhar (da CC), crítico e justo do panorama Político, Social e Económico do nosso Concelho. Todos os membros da CC podem colaborar e participar, ficando um pequeno grupo de trabalho com a responsabilidade da composição e distribuição.
Este foi primeiro BI que se convencionou com sendo o nº. 0, por se considerar uma experiência que poderia ter ficado assim mesmo e tentar uma outra forma mais aplicada e diferente. Não foi essa opinião dos Camaradas que acharam que se deveria avançar, para já, no formato escolhido e assim nasceu o número seguinte que publicaremos no mensagem seguinte.
Nota: A publicação neste Blogue deste Boletim, advém de vontade pessoal e como o mesmo já foi amplamente divulgado, julgamos não infligir qualquer norma. O que se pretende complementar o trabalho de arquivo.
CV- Martins Raposo
quinta-feira, 30 de abril de 2015
MIA COUTO
O escritor Moçambicano, nascido no ano
de 1955, é já um nome cimeiro das letras a nível mundial que para além de
romancista, escreve também poesia e
crónicas diversas.
Na sua juventude e incentivado pelos pais inscreveu-se em medicina tendo abandonado a Universidade para se dedicar ao jornalismo. Foi durante algum tempo o Director da Revista "Tempo" e trabalhou também na Revista "Notícias".
O tempo vai passando e Deolinda que a princípio ainda ia escrevendo, falando dos seus estudos e adiando com mais estágios, por fim já não dá notícias, não se sabe onde está, nem tão pouco se está viva.
Mas as histórias continuam na voz do velho Bartolomeu que tem como inimigo principal o Administrador da pequena Vila. Este por sua vez acusa-o de ser um mentiroso, devolvendo as acusações como tendo sido o verdadeiro causador do desaparecimento de Deolinda.
São acusações muito graves que implica actos de violência sexual praticados pelo próprio pai, ou como este diz, ter sido o Administrador. No meio desta confusão as duas mulheres, D. Munda e D. Esposinha dão as suas versões como a verdade de factos passados entre as duas famílias.
O mistério vai-se adiantando com o autor a praticar uma escrita envolta em brumas e acontecimentos de uma magia africana que faz parte da cultura africana, com situações que ultrapassam a realidade, em volta de um nevoeiro apocalíptico que serve ao mesmo tempo para o leitor se aperceber de algumas verdades que as personagens vão deixando antever como um fim trágico e cheio de aparentes contradições.
Afinal Deolinda não era filha do casal dos Sozinhos. Ela era a irmã mais nova de D.Munda mas que estes quando regressaram à Vila trouxeram a criança como sendo sua filha.
Já no final, desvenda-se que a jovem tinha morrido da doença da Sida e tinha sido enterrada num cemitério que tinha sido utilizado para enterrar os estrangeiros. Algumas vozes acusam-na de ter infectado o presumível pai que está também às portas da morte.
O choque foi enorme para o médico (que também não é ainda médico) que resolve abandonar a Vila. D. Munda no final tenta incarnar o corpo da Jovem e assim envolver Sidónio Rosa na sua paixão existencial.
O médico sai de Vila Cacimba alucinado por fantasmas e pelo perfume da flor que se chama "beijo da mulata".É com este final, assim termina este belo romance de Mia Couto, que aconselho a todos os meus amigos a lerem com a devida atenção.
CV. 30.04.2015
Martins Raposo
Na sua juventude e incentivado pelos pais inscreveu-se em medicina tendo abandonado a Universidade para se dedicar ao jornalismo. Foi durante algum tempo o Director da Revista "Tempo" e trabalhou também na Revista "Notícias".
Terra Sonâmbula foi o seu primeiro
romance escrito em 1992 que teve um sucesso imediato, tendo-lhe sido atribuído
o Prémio Nacional da Ficção Moçambicana. Varanda do Frangipani, O Último Voo do
Flamingo, O Outro pé da Sereia, A Confissão da Leoa e Venenos de Deus, Remédios do Diabo, são entre
outros alguns dos seus melhores romances.
É precisamente sobre esta última obra
que acabei de ler que quero deixar aqui uma pequena síntese da trama deste belo
romance que começa com um jovem que se inscreve como cooperante na área da
medicina, para trabalhar em Moçambique. Esta sua decisão prende-se com o seu
encontro num Congresso de Medicina, com uma belíssima mulher por quem se
apaixonou de imediato.
Ele vai até Vila Cacimba e procura junto
dos pais pelo paradeiro de Deolinda a mulata feiticeira que o tinha deslumbrado
em Lisboa. Bartolomeu o Pai, está muito doente e é a Mãe D. Munda que manter
acesa a chama familiar que sofre com a ausência da filha a estagiar em parte
incerta.
Sidónio Rosa, assim se chama a nossa
personagem principal, é adoptado pelas gentes simples desta pequena povoação,
onde ainda muitos vivem das recordações do antigamente, quando os colonos ainda
mandavam. Para eles o Dr. Sidonho era muito bem vindo numa altura em que
grassava uma doença misteriosa e mortal que fatalmente desmembrava as famílias.
Os mais velhos, a começar por Bartolomeu
contavam-lhe as suas histórias algumas das quais eles próprios tinha vivido. O
velho falava-lhe de um tempo em que tinha sido mecânico do Infante D. Henrique,
como tinha viajado pelo mundo inteiro o e dos portos em que tinha conquistado
muitas mulheres. As suas recordações nunca mais acabavam e o médico ouvi-a com
paciência e curiosidade.O tempo vai passando e Deolinda que a princípio ainda ia escrevendo, falando dos seus estudos e adiando com mais estágios, por fim já não dá notícias, não se sabe onde está, nem tão pouco se está viva.
Mas as histórias continuam na voz do velho Bartolomeu que tem como inimigo principal o Administrador da pequena Vila. Este por sua vez acusa-o de ser um mentiroso, devolvendo as acusações como tendo sido o verdadeiro causador do desaparecimento de Deolinda.
São acusações muito graves que implica actos de violência sexual praticados pelo próprio pai, ou como este diz, ter sido o Administrador. No meio desta confusão as duas mulheres, D. Munda e D. Esposinha dão as suas versões como a verdade de factos passados entre as duas famílias.
O mistério vai-se adiantando com o autor a praticar uma escrita envolta em brumas e acontecimentos de uma magia africana que faz parte da cultura africana, com situações que ultrapassam a realidade, em volta de um nevoeiro apocalíptico que serve ao mesmo tempo para o leitor se aperceber de algumas verdades que as personagens vão deixando antever como um fim trágico e cheio de aparentes contradições.
Afinal Deolinda não era filha do casal dos Sozinhos. Ela era a irmã mais nova de D.Munda mas que estes quando regressaram à Vila trouxeram a criança como sendo sua filha.
Já no final, desvenda-se que a jovem tinha morrido da doença da Sida e tinha sido enterrada num cemitério que tinha sido utilizado para enterrar os estrangeiros. Algumas vozes acusam-na de ter infectado o presumível pai que está também às portas da morte.
O choque foi enorme para o médico (que também não é ainda médico) que resolve abandonar a Vila. D. Munda no final tenta incarnar o corpo da Jovem e assim envolver Sidónio Rosa na sua paixão existencial.
Depois de visitar "o cemitério dos
alemães" acompanhado de D. Munda ele vive uma experiência entre a
realidade e o sonho que o envolve no habitual nevoeiro cerca a pequena povoação
e é nesse denso nevoeiro que sabe que o velho Bartolomeu morreu e é enterrado
num pequeno barco com a inscrição de Infante D. Henrique e que sua casa
desaparece.
D. Munda acompanha o Médico à Camioneta
que o levará para a capital e entre lágrimas e suspiros se despedem para sempre
de forma dramática. Sidónio chora de magas e D. Munda diz-lhe - "Chore no meu peito, é a campa de Deolinda"O médico sai de Vila Cacimba alucinado por fantasmas e pelo perfume da flor que se chama "beijo da mulata".É com este final, assim termina este belo romance de Mia Couto, que aconselho a todos os meus amigos a lerem com a devida atenção.
CV. 30.04.2015
Martins Raposo
quinta-feira, 23 de abril de 2015
PHOENIX
PHOENIX,UM DOS MAIS BELOS FILMES DO ANO!
Phoenix
é um filme de Christian Petzold, pouco conhecido em Portugal, apesar de já ter
feito mais de uma dezena de filmes,
entre os quais "Bárbara" premiado no Festival Internacional de Berlim,
com o Urso de Prata de Melhor Director.
Phoenix,
relata-nos a história de uma mulher que sobrevive a um campo de extermínio nazi
desfigurada pelos ferimentos sofridos antes da libertação. Ajudada por uma
amiga dedicada que a leva a fazer uma operação ao rosto por um médico altamente
classificado.
A
operação corre muito bem, embora se note algumas ligeiras imperfeição,
aceitáveis por ambas as partes. Ainda em recuperação, confessa à amiga o desejo
de procurar o marido que alguns sabem ter sobrevivido. A Amiga diz-lhe que o
não deve fazer e informa-a de que o verdadeiro culpado da sua prisão foi o
marido, aparentemente para se salvar, denunciou-a à Gestapo.
Nelly,
assim se chama a principal personagem deste drama, ainda ama o marido e começa
por procurá-lo nos bares que ambos tinham actuado em tempos, ela como cantora e
ele como pianista. Persistente na sua procura, acaba por o encontrar a servir
como arrumador num bar chamado Phoenix que até ficava muito próximo da sua casa
semi-destruída pelos efeitos da guerra.
Ela
entra no bar, e logo o reconhece e se lhe dirige alegremente chamando-o por
Johnny. Este volta-se lentamente para a pessoa que o chama, mas fica-se
impassível e de facto não reconhece esta mulher ainda com algumas mazelas da
operação. Pela sua reacção se verifica que ele tem a certeza que Nelly a sua
mulher foi assassinada pelos nazis,
Nelly
não desiste e apesar dos avisos da amiga, volta ao bar e tenta mais uma vez
aproximar-se de Johnny chamando-o pelo nome que ele diz não ser o seu. Esta
insistência leva este homem a gizar um plano maquiavélico para se apoderar da
fortuna que a família tinha e de que não havia mais herdeiros. Apesar da
certeza que tinha de que esta mulher que ali tinha à sua frente não podia ser a
sua mulher, notava-lhe algumas semelhanças que bem poderiam servir para a seu
plano que começou de imediato a por em prática.
O
filme apresenta-nos estas duas pessoas, cada uma com um plano diferente. Nelly
continua apaixonada pelo marido e insiste em fazer com que ele a reconheça e ao
mesmo tempo procura saber se o marido ainda a amava. Johnny, por seu lado
ambiciona fazer com que esta mulher se transforme em todos os aspectos, tanto
no seu visual como na forma de vestir com a finalidade de encenar um encontro
com os seus antigos amigos, para caucionar o seu plano.Nelly corre a informar a Amiga, convencida que apesar da farsa improvisada Johnny acabará por se apaixonar por ela. Para seu desgosto a Amiga tinha posto fim à sua vida, amargurada com o mundo e por não ter conseguido afasta-la daquele homem que ela sabia ser um criminoso. Ela revê os papeis deixados pela Amiga e entre eles o documento assinado por Johnny pedindo o divórcio logo a seguir à sua prisão. Foi a machadada final no seu grande sonho e mostrando de forma muito cruel o verdadeiro rosto daquele homem de quem nunca tinha deixado de amar.
Ela vai cumprir o combinado, chega a Berlim num comboio e apresenta-se aos amigos que de facto a reconhecem como a verdadeira Nelly e a seu convite vão para um bar fazer uma pequena festa. Leva Johnny junto a um piano e desafia-o a acompanhá-la numa das suas canções preferidas, "Speak Low". Assim que Nelly começa a cantar, elevando a sua voz natural, o homem fica aterrorizado com a realidade que lhe entra finalmente nos olhos, aquela voz era a de sua mulher. Parou de tocar e ficou lívido a olhar para ela com espanto, percebendo que todos os seus planos ruíam naquele momento ficando sem defesa dos seus actos criminosos.
A
personagem principal deste grande filme, chama-se Nina Hoss que já entrou em
quatro filmes de Christian Petzold e ganhou o Urso de Prata para a Melhor
Artista em 2012, pela sua interpretação no filme "Yella". O seu parceiro
neste filme, Ronald Zehrfeld, é também um bom actor de cinema alemão, o mesmo se
pode dizer de Nina Kunzendorf que representa a Amiga de Nelly.
É
preciso coragem, fazer um Filme que nos apresenta com um realismo surpreendente
algumas das sequelas provocadas pela guerra provocada pelo seu próprio país.
A Sala do Monumental é acolhedora e geralmente apresenta bons filmes. Este vai ser com toda a certeza um dos melhores Filmes do ano. Ainda bem que resolvemos ver Phoenix, um filme que dificilmente esqueceremos.
CV -
21.04.2015
Martins
Raposo
segunda-feira, 30 de março de 2015
A HISTÓRIA DOS TRÊS
PINHEIRINHOS
Em anos muito recentes, a
Câmara Municipal procedeu à construção de um mirante na estrada da Serra de S.
Paulo, um lugar privilegiado, com uma vista esplêndida sobre Castelo de Vide.
Mãos experientes da CMCV, plantaram no local três lindos pinheirinhos que eram uma
boa promessa de sombras generosas para
todas as pessoas que por ali parassem. O lugar tornou-se ainda mais aprazível
com o rápido crescimento das pequenas árvores. Mas esta Serra que é das mais bonitas
da região, tem como todas o malfadado destino de serem frequentadas por todo o
tipo de animais. E é aqui que começa a tragédia, estamos no ano de 2014 e num
dia de sol radioso parámos no lugar e qual não foi a nossa surpresa ao
verificarmos que os pinheirinhos tinham sido barbaramente atacados por animais
selvagens.
Aproveitando-se da noite
secaram o mais frágil, feriram gravemente o maior e mais bonito. Meses mais
tarde verifiquei que o Pinheiro que tinha sido atacado à "dentada" por animal feroz, resistia parecia estar a salvo. Hoje ao chegar ao local
encontrei a desditosa árvore prostrada no chão, com uma grande pedra a
esmagá-lo sobre a sua antiga crise.
Os animais selvagens por qualquer razão que
nos escapa tinham voltado ao local do
crime e completado a sua acção destruidora . Se o objectivo era acabar com a
vida dos três pinheirinhos, conseguiram-no de forma atroz e impunemente. Até
quando, meus amigos?
CV - Março de 2015
Martins Raposo
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
GALILEU GALILEI
No
mesmo dia em que o filósofo Sócrates foi condenado à morte, nascia alguns
séculos depois, em Florença um dos mais famosos cientistas de todos os tempos a
quem chamavam "O Pai da Ciência Moderna". Galileu Galilei era não só
cientista como também se notabilizou como Matemático e Astrónomo. Foi o
descobridor do princípio da inércia, melhorou o telescópio e defendeu a teoria
do Helocentrismo. Parte dos seus estudos e teorias estão relatados em pormenor
no seu livro, "Siclenus Nancius"
que causou enorme polémica junto do seio da Igreja Católica, nomeadamente a afirmação de que a Terra se movimentava em
volta do Sol e que este sim era o centro não só do Planeta Terra como de outros
Planetas .Tudo isto contrariava a doutrina secular da Igreja para quem a Terra
era o centro do Universo, teoria que vinha de Aristóteles. Foi o primeiro
cientista que utilizou o telescópio para fazer observações astronómicas.
O
Santo Ofício que deu lugar à Inquisição, instrumento implacável ao serviço da
Igreja para impor ao mundo a
teologia do catolicismo com uma
teoria maquiavélica de quem "não
está connosco, é contra nós". O poder da Igreja era enorme na idade média,
sempre ligada ao poder temporal, estando assim tacitamente autorizada a perseguir, prender, torturar e
assassinar todos aqueles que criticavam por escrito ou mesmo só oralmente,
mesmo que fosse um estudo cientificamente demonstrado.
Foi o que aconteceu com Galileu que
foi levado a um Tribunal da Inquisição e obrigado sob coacção a abjurar as suas
teorias científicas sobre o movimento de
rotação e translação da Terra. Reza a história que logo após ter terminado a
fase do interrogatório, terá murmurado a célebre frase "Eppur si muove". Não foi absolvido
pela tenebrosa instituição, o que só veio acontecer alguns séculos depois.
Evitou a prisão mas ficou
Toda esta fase processual afectou
profundamente a vida do cientista. que foi condenado a residência controlada e
todos os seus movimentos vigiados pelos olhos vingativos da Inquisição. A esta
triste situação e devido a doenças prolongadas, inclusive a cegueira levou a
que os seus últimos anos de vida fossem de grande sofrimento.
Aos verdadeiramente grandes são
muitas vezes sonegados os direitos de divulgarem a sua obra. Galileu foi vítima
de injustiças com uma perseguição contínua e cruel, mas podemos afirmar que a
sua grandeza não foi diminuída.
CV- Fevereiro 2015
Martins Raposo
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
BÉLA BARTOK
"O INOVADOR"
Bela Bartok, nasceu na Hungria a 25 de Março de 1881 e foi um dos mais importantes compositores do Sec. XX. Apendeu música e piano com a sua mãe tendo depois frequentado a Academia de Música de Budapeste. Foi um dos fundadores da música etnográfica e em conjunto com o seu amigo romeno, Zoltan Kodálv percorreram os dois países numa pesquisa profunda e muito bem elaborada. Com o início da segunda Grande Guerra, emigrou para os Estados Unidos, mas a sua popularidade desceu por ...falta de interesse dos críticos e musicólogos. Faleceu quase na penúria apenas com 64 anos de idade. Registe-se algumas das suas obras: "Três Concertos para Piano", "Música para Cordas, Percursão e Celesta", "Improvisações sobre Canções Camponesas" e "Danças Populares Romenas sz56. Alguns estudiosos, afirmam que o nosso maior compositor, Fernando Lopes Graça, ter em algumas das suas obras alguma influência do compositor húngaro.CV- 15.01.15
Martins Raposo
OS TRANSPARENTES
Acabei à poucos dias de ler os
Transparentes do jovem escritor Angolano, Ondjaki.
A emoção que senti ao ler
este livro, não foi só pelo tema, ou pelas personagens em particular que de
qualquer modo desempenham todos estranhas figuras estereotipadas, e, por vezes
bastante estranhas a um quotidiano que se quer marginal e imprime uma áurea de
realismo mágico, com situações incríveis, no centro de uma cidade em constante
transformação. Foi também o sentimento de alguém que viveu intensamente grande
parte da sua juventude nesta mesma cidade e que acompanhou muito de perto o
chamado desenvolvimento que a partir dos anos 6o se verificou na capital
angolana.
A descrição da cidade torna-se caótica e em
completa desagregação moral e social, onde a maioria da população vive miseravelmente
do trabalho precário, a maioria vivendo
de expedientes, nem sempre os mais racionais e que resultam em muitos casos o
tipo de desenrascanço que impera também do lá de cá no continente europeu.
Vivem em tugúrios e apartamentos em vias de desagregação e no meio de ruas
esburacas e cheias de poeira e de esgotos a céu aberto.
A cidade está rebentar pelas costuras, as
guerras obrigaram milhares de pessoas a fugir das suas aldeias natais e a
refugiaram-se na grande urbe, quintuplicaram a população, invadindo o asfalto,
as avenidas e os altos prédios que no tempo do colonialismo eram vedado o
acesso aos gentios. A guerra trouxe também os estropiados e os loucos que se
espalharam por todos os cantos onde pudessem estender a sua esteira que tanto
podia ser numa varanda ou num apartamento em ruínas.
É num destes prédios que vivem as
personagens principais deste romance que
vivem na penúria que os arrastam para
uma vida de desenrascanços. Através
destas pessoas que vivem em comunhão nas suas desgraçadas vidas, ficamos
a saber o que se passa nesta cidade (Luanda) onde se misturam as pessoas
honestas que passam enormes dificuldades com a falta de emprego
Por outro lado o autor denuncia os pequenos
e grandes vigaristas que proliferam na
cidade, assim são apresentados fiscais como corruptos e até de "gente superior que
manda mais do que Deus". Aquele
projecto da "Cipel" que tem como objectivo a exploração de petróleo no
meio da cidade.
Para distrair o povo da imensa confusão
instalada, o Poder inventa um mega espectáculo
para que toda a população assista a um eclipse fantástico. A alegoria é de facto muito eficaz num romance que mistura
o realismo com uma comédia fantasista que se lê com imenso agrado. Gostei muito
deste livro que li nos últimos meses do ano de 2014.
CV- Setembro de 2014
Martins Raposo
domingo, 30 de novembro de 2014
EÇA
DE QUEIROZ
A 25 de Novembro de 1845, nasce, na Póvoa do Varzim, o escritor português José Maria Eça de Queirós [ou Queiroz, conforme a grafia vigente na sua época]. Iniciou a sua carreira nas letras, quando era finalista do curso da Faculdade de Direito de Coimbra, com folhetins dominicais na Gazeta de Portugal. De 1866 a 1875, Eça escreve temas românticos mas já com processos de descrição realista. Fazem parte desta época, Prosas Bárbaras, Mistério da Estrada de Sintra e alguns contos. De 1875 a 1887, entra na fase realista, com uma forte crítica social. Neste período, cria o romance de costumes, com análise objectiva e, por vezes, até cruel da sociedade, tendo por sustentáculo a ironia. O Crime do Padre Amaro, O primo Basílio, O Mandarim, A Relíquia, Uma Campanha Alegre e Os Maias, pertencem a este período, sendo esta última obra considerada o expoente máximo do realismo português. Numa terceira fase, de cariz nacionalista / realista (1887 a 1900), de tendências por vezes excessivas, embora atenuadas pela moderação e pelo sarcasmo, inserem-se A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras, A Correspondência de Fradique Mendes, Últimas Páginas e diversos contos. In.: Efemérides - 25.11.2014
. . .
Agradeci-lhe apreensivo e nessa noite fria de Dezembro, corri de imediato para o quarto onde residia e quase tive medo de acender a luz. Fechei as Janelas que eram num rés-do-chão de uma casa de gente pobre que me tinha alugado o quartito, onde mal cabia uma cama de solteiro.
Depois da luz acesa, abri o embrulho que trazia o livro e fiquei espantado com o título de "A Capital" de Eça de Queiroz.
Depois de ler algumas páginas, dei conta de que devia de haver alguma confusão na cabeça do Carlos, pois eu já tinha ouvido falar no Capital mas que este seria de um escritor russo, embora não soubesse o nome, não tinha nada a ver com o Eça de Queiroz que era português.
A história do personagem principal desta obra era muito simples e fácil de compreender, tratava-se de alguém puramente ingénuo e sem conhecimentos para alcançar a fama que tanto almejava. O Jovem que tinha abalado da província para Lisboa (A Capital) para se lançar na escrita e tornar-se famoso, acabou na miséria e voltou para Oliveira de Azeméis ainda mais pobre do que quando se meteu naquela aventura.
Prevendo que havia alguma confusão na cabeça do amigo Carlos, não tive coragem para o desiludir e entreguei o livro agradecendo e dizendo apenas que tinha gostado muito.
Na altura fazia parte de um pequeno grupo que estava a preparar uma peça de Gil Vicente. O encenador, era um aluno mais velho que frequentava o 3º. ano mas de quem o Carlos era muito amigo. Chamava-se Serrano e trabalhava numa Fábrica na Matrena. Ele vinha muitas vezes ao café que nós frequentávamos depois das aulas para tirarmos algumas dúvidas sobre as aulas, ajudava-nos em alguns problemas e partilhava a amizade com muita simpatia e compreensão.
Num fim-de-semana encontrámo-nos por acaso no Jardim do Hotel dos Templários e conversa puxa conversa, veio à baila o tal livro do Eça de Queiroz e perguntei quem era este escritor.
O Serrano, sempre muito compreensivo sobre a minha total ignorância. disse-me - Não tarda que venhas a ter conhecimento com as suas obras, mas A Capital até nem é das mais conhecidas. Deves ler os Maias, O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio entre outros bons livros desse grande escritor. Ele foi um dos principais escritores que se interessou pelo novo estilo que já existia noutros países que era o Realismo. E terminou dizendo - Eça de Queiroz é dos melhores da nossa Literatura.
Depois de o ouvir com muita atenção, confessei-lhe a minha dúvida - Então diga-me lá se este escritor tem alguma coisa a ver com o Socialismo dos Russos.
Ele sorriu complacente e disse - Eça de Queiroz foi um escritor muito crítico da sociedade do seu tempo, era um humanista à sua maneira, mas também muito caustico em relação ao poder existente na altura, mas daí a ser um escritor socialista vai uma grande distância. Ele era um burguês e como tal viveu toda a sua vida, mas tinha ideias muito próprias sobre o Romantismo que vigorava até então. Fez parte de um grupo de escritores muito firmes nas novas ideias sobre a Literatura e foi um dos mais influentes da sua geração.
E foi assim que tive o segundo encontro com o grande escritor. A partir de então comecei a ler todos os livros que havia sobre Eça de Queiroz, mas o Crime do Padre Amaro só mais tarde consegui ler numa edição brasileira e já estava em Luanda.
Agora como notas finais, não deixo de comentar as palavras de Mario Soares num artigo em que comentava a demissão do Ministro Miguel Macedo e a prisão do ex-primeiro Ministro José Socrates. Referindo-se aos episódios desta semana declarou ter havido coisas boas e más ( La Palisse). Pela minha parte refiro o dia 25 de Novembro de 1975,como a parte má da historia contemporânea. Penso ter sido uma tragédia e o começo dos ataques às conquistas alcançadas com o 25 de Abril de 1974. Das boas é saber que neste dia nasceu em 1845, um dos grandes escritores da Literatura Universal.
CV-25.11.14 - Martins Raposo
A 25 de Novembro de 1845, nasce, na
Póvoa do Varzim, o escritor português José Maria Eça de Queirós [ou Queiroz,
conforme a grafia vigente na sua época]. Iniciou a sua carreira nas letras,
quando era finalista do curso da Faculdade de Direito de Coimbra, com folhetins
dominicais na Gazeta de Portugal. De 1866 a 1875, Eça escreve temas românticos
mas já com processos de descrição realista. Fazem parte desta época, Prosas
Bárbaras,
Mistério
da Estrada de Sintra e alguns contos. De 1875 a
1887, entra na fase realista, com uma forte crítica social. Neste período, cria
o romance de costumes, com análise objectiva e, por vezes, até cruel da
sociedade, tendo por sustentáculo a ironia. O Crime do Padre Amaro, O primo
Basílio, O Mandarim, A Relíquia, Uma Campanha Alegre e Os
Maias,
pertencem a este período, sendo esta última obra considerada o expoente máximo
do realismo português. Numa terceira fase, de cariz nacionalista / realista
(1887 a 1900), de tendências por vezes excessivas, embora atenuadas pela
moderação e pelo sarcasmo, inserem-se A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as
Serras, A Correspondência de Fradique Mendes, Últimas Páginas e diversos
contos. In.: Efemérides - 25.11.2014
. . .A 25 de Novembro de 1845, nasce, na Póvoa do Varzim, o escritor português José Maria Eça de Queirós [ou Queiroz, conforme a grafia vigente na sua época]. Iniciou a sua carreira nas letras, quando era finalista do curso da Faculdade de Direito de Coimbra, com folhetins dominicais na Gazeta de Portugal. De 1866 a 1875, Eça escreve temas românticos mas já com processos de descrição realista. Fazem parte desta época, Prosas Bárbaras, Mistério da Estrada de Sintra e alguns contos. De 1875 a 1887, entra na fase realista, com uma forte crítica social. Neste período, cria o romance de costumes, com análise objectiva e, por vezes, até cruel da sociedade, tendo por sustentáculo a ironia. O Crime do Padre Amaro, O primo Basílio, O Mandarim, A Relíquia, Uma Campanha Alegre e Os Maias, pertencem a este período, sendo esta última obra considerada o expoente máximo do realismo português. Numa terceira fase, de cariz nacionalista / realista (1887 a 1900), de tendências por vezes excessivas, embora atenuadas pela moderação e pelo sarcasmo, inserem-se A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras, A Correspondência de Fradique Mendes, Últimas Páginas e diversos contos. In.: Efemérides - 25.11.2014
. . .
Apontamentos - Eça foi desde sempre o meu escritor
predilecto e considero-o um dos melhores romancistas do mundo. A primeira vez
que ouvi falar deste escritor foi nos princípios dos anos 50 e foi pela voz de
um Padre que fazia uma alocução sobre as heresias a que ele assistia e uma
delas era o facto de algumas pessoas lerem livros de escritores amaldiçoados
pela Santa Madre Igreja. Faziam parte do índex estabelecido pela PIDE e da
própria Igreja.
Eu era um miúdo de 10 anos e pouco sabia de
Literatura, embora já tivesse lido muitos livros, mas a maior parte diziam
respeito a histórias de aventuras e de heróis do far-west comprados na
loja do Sr. Cid em Monforte.
Naquele dia tinha ido tocar com a Banda dos
Encarnados, numa procissão na Freguesia de Vaiamonte. O Padre referia-se ao livro
O Crime do Padre Amaro, como sendo um panfleto inspirado pelo Diabo e quem
lesse o livro estaria a praticar um verdadeiro sacrilégio. Não compreendi de
imediato o significado das palavras do zangado Padre e tive que perguntar aos
mais velhos o que ele queria dizer. O Mestre mandou-me calar e aconselhou, não
te metas nestas coisas, quando fores mais crescido certamente saberás
compreenderes mas para já fica sabendo que o Senhor Padre avisa - Quem ler
aquele livro estará a cometer um enorme pecado.
Em fins da mesma década, a frequentar à noite, o 1º.
Ano, na Escola Comercial Júlio das Neves, em Tomar um colega da minha turma,
sabendo do gosto que tinha por ler romances de escritores portugueses e por
demonstrar alguma curiosidade por saber coisas de que se falavam em segredo com
os amigos, sobre Democracia e o Socialismo, certo dia disse-me.
- Queres ler uma obra importante sobre o Socialismo?
Fiquei um pouco admirado com a pergunta, vindo do
Carlos que era mais novo do que eu e que pelo seu comportamento nas aulas
parecia um rapaz muito ajuizado e pacífico, mas respondi-lhe - Sim quando
puderes trazer o livro ficas a saber que vou ler com muita atenção.
Daí a alguns dias o amigo Carlos, passou-me um bilhete
que dizia para nos encontrarmos fora da Escola para emprestar o tal livro.
Enquanto caminhávamos para casa e sem mais ninguém por perto entregou-me o
Livro com todas as cautelas.
- Não mostres este livro a ninguém, está proibido pela
censura e é muito perigoso. Não leves muito tempo a lê-lo e não andes com
ele na rua.Agradeci-lhe apreensivo e nessa noite fria de Dezembro, corri de imediato para o quarto onde residia e quase tive medo de acender a luz. Fechei as Janelas que eram num rés-do-chão de uma casa de gente pobre que me tinha alugado o quartito, onde mal cabia uma cama de solteiro.
Depois da luz acesa, abri o embrulho que trazia o livro e fiquei espantado com o título de "A Capital" de Eça de Queiroz.
Depois de ler algumas páginas, dei conta de que devia de haver alguma confusão na cabeça do Carlos, pois eu já tinha ouvido falar no Capital mas que este seria de um escritor russo, embora não soubesse o nome, não tinha nada a ver com o Eça de Queiroz que era português.
A história do personagem principal desta obra era muito simples e fácil de compreender, tratava-se de alguém puramente ingénuo e sem conhecimentos para alcançar a fama que tanto almejava. O Jovem que tinha abalado da província para Lisboa (A Capital) para se lançar na escrita e tornar-se famoso, acabou na miséria e voltou para Oliveira de Azeméis ainda mais pobre do que quando se meteu naquela aventura.
Prevendo que havia alguma confusão na cabeça do amigo Carlos, não tive coragem para o desiludir e entreguei o livro agradecendo e dizendo apenas que tinha gostado muito.
Na altura fazia parte de um pequeno grupo que estava a preparar uma peça de Gil Vicente. O encenador, era um aluno mais velho que frequentava o 3º. ano mas de quem o Carlos era muito amigo. Chamava-se Serrano e trabalhava numa Fábrica na Matrena. Ele vinha muitas vezes ao café que nós frequentávamos depois das aulas para tirarmos algumas dúvidas sobre as aulas, ajudava-nos em alguns problemas e partilhava a amizade com muita simpatia e compreensão.
Num fim-de-semana encontrámo-nos por acaso no Jardim do Hotel dos Templários e conversa puxa conversa, veio à baila o tal livro do Eça de Queiroz e perguntei quem era este escritor.
O Serrano, sempre muito compreensivo sobre a minha total ignorância. disse-me - Não tarda que venhas a ter conhecimento com as suas obras, mas A Capital até nem é das mais conhecidas. Deves ler os Maias, O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio entre outros bons livros desse grande escritor. Ele foi um dos principais escritores que se interessou pelo novo estilo que já existia noutros países que era o Realismo. E terminou dizendo - Eça de Queiroz é dos melhores da nossa Literatura.
Depois de o ouvir com muita atenção, confessei-lhe a minha dúvida - Então diga-me lá se este escritor tem alguma coisa a ver com o Socialismo dos Russos.
Ele sorriu complacente e disse - Eça de Queiroz foi um escritor muito crítico da sociedade do seu tempo, era um humanista à sua maneira, mas também muito caustico em relação ao poder existente na altura, mas daí a ser um escritor socialista vai uma grande distância. Ele era um burguês e como tal viveu toda a sua vida, mas tinha ideias muito próprias sobre o Romantismo que vigorava até então. Fez parte de um grupo de escritores muito firmes nas novas ideias sobre a Literatura e foi um dos mais influentes da sua geração.
- Já me dei conta da tua confusão, o que
querias ler é uma obra de Marx (Filósofo Alemão) que se chama O Capital. Um
destes dias vou-te emprestar um resumo dessa obra, está em espanhol, mas
ajudo-te nas palavras mais difíceis de compreender. Este sim é um Livro proibidíssimo
pela Censura e pela PIDE. Ai de ti se souberem que andas a ler estes livros . É
um segredo que fica só entre nós os dois.
Prometi guardar o segredo com todas as
cautelas e que ninguém o vai saber. Dias depois o Serrano entregou-me um caderno
volumoso onde vinham os princípios da obra de Marx, escritos em espanhol.E foi assim que tive o segundo encontro com o grande escritor. A partir de então comecei a ler todos os livros que havia sobre Eça de Queiroz, mas o Crime do Padre Amaro só mais tarde consegui ler numa edição brasileira e já estava em Luanda.
Agora como notas finais, não deixo de comentar as palavras de Mario Soares num artigo em que comentava a demissão do Ministro Miguel Macedo e a prisão do ex-primeiro Ministro José Socrates. Referindo-se aos episódios desta semana declarou ter havido coisas boas e más ( La Palisse). Pela minha parte refiro o dia 25 de Novembro de 1975,como a parte má da historia contemporânea. Penso ter sido uma tragédia e o começo dos ataques às conquistas alcançadas com o 25 de Abril de 1974. Das boas é saber que neste dia nasceu em 1845, um dos grandes escritores da Literatura Universal.
CV-25.11.14 - Martins Raposo
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Uma Vida De Sol e de
Chuva!
Um pequeno conto
-Ainda bem que chegastes, já não tínhamos nada para cozinhar.
Acabaram-se as couves e as batatas, precisava destas hortaliças para misturar com o feijão.
João Manuel Antunes, gostava de se levantar cedo e nessa
manhã nem sequer parou na Taverna do Tavares que ficava logo ali perto de casa.
O costumado copito de aguardente bem podia esperar pela tarde. Ainda tinha que
sacar cinco ou dez tostões à sua Esmeralda. Ela é que administrava os parcos
meios que possuíam, resultado da pequena reforma e do seu trabalho diário.
A manhã estava fria, tinha geado e as plantas estavam
cobertas por uma fina camada branca de gelo. Das oliveiras caiam algumas gotas,
tornando as suas folhas verdes e luzidias e as azeitonas que começavam a ter a sua cor negra. Estavam grandes e
prontas a ser colhidas. O Antunes olhou-as pensativamente, estava na hora de
estender os panos e encostar as escadas, subir e colher o fruto. Terminou a inspecção do arvoredo que estava carregado de frutos.
Abanou a cabeça, com um longo suspiro e com uma espécie de queixume levou as
mãos aos quadris.
Antunes, a meia voz desabou só para consigo; Isto da velhice
é a pior coisa que nos pode acontecer, vêm as dores nos ossos, a falta de
paciência e de forças para as tarefas da agricultura que ainda é bastante dura
para alguns que como eu têm que tratar da terra com as antigas ferramentas. Entrou dobrado na cabana que tinha apenas único espaço, com alguns mochos espalhados à volta de uma pequena lareira. A um canto tinha uma mesa e alguns utensílios pendurados que serviam para fazer breves refeições. Do outro lado estava uma velha tarimba com um enxergão cheio de folhas de milho.
Nesta manhã ainda em jejum, procurou num pequeno saco, donde tirou um naco de pão já um pouco duro. De uma das gavetas retirou o queijo e as azeitonas. Acendeu a lareira sobre o lume pôs uma trempe onde colocou uma velha cafeteira de alumínio com um pouco de água. Alguns minutos depois com a água a ferver, retirou-a do lume e adicionou-lhe duas colheres de café com um pouco de açúcar amarelo.
Já com a caneca a fumegar, veio até à porta espreitar o sol que começava lentamente a clarear o dia. Ainda é cedo pensou ! Retirou da cantareira uma garrafa de aguardente deitando algumas gotas no café. O lume estava grande e convidativo. Antunes sentou-se a pensar na vida. Era bom que o meu António viesse uns dias antes do Natal com os filhos, sempre me davam uma boa ajuda na colheita. As oliveiras este ano estão bem carregadas, ainda vão dar uns bons litros de azeite.
Veio-lhe então à lembrança as discussões que a Família tinha tido lá em casa quando ele apareceu anunciando a sua vontade de comprar a quinta do "tio" Anacleto. Os mais acerados foram os filhos que tinham vindo todos passar a Páscoa à terra. A Camila dizia que os Pais não precisavam de estar a comprar terras que já não iam ter proveito e lucro. O António perguntava, se a reforma do caminho de ferro não lhe chegava para viveram bem. O pais já não têm idade de aventuras. Até a Ana a mais nova, dizia que se a reforma não chegasse, os pais podiam muito bem ir para sua casa no Algueirão. Aonde comem dois, comem mais dois ou três.
Dos três filhos só a Camila, a mais velha, não era casada. Tinha tirado o Curso de Professora e vivia no Barreiro como Professora. Era a que vivia melhor e vinha mais vezes a casa dos Pais. O António, trabalhava como carpinteiro na construção civil. Casara muito jovem e tinha três filhos. A mulher andava sempre doente e a educação dos filhos, todos rapazes, ficaram-se pelo básico. Cada um trabalhava no que aparecia ocasionalmente. O casal vivia em dificuldades permanentes.
A Ana também tinha casado muito jovem, com um rapaz aqui da Vila. A escassez de trabalho levaram-nos a ir para fora da terra como os outros. Ela trabalhava de mulher a dias em várias casas de gente da média burguesia. O marido pertencia como soldado à GNR. Tiveram duas filhas já um pouco tarde para a sua idade, mas viviam remediados sem grandes complicações.
Naquele ano, o Antunes, fazia dois anos que se tinha reformado dos caminhos de ferro. Trabalhara mais de trinta anos, nas oficinas no Entroncamento. O vencimento não era grande, mas depois que os filhos tinham saído de casa, ele e a sua Esmeralda, sempre muito comedida nos gastos de casa, conseguiram arranjar um pequeno pé de meia. Quando se reformou, venderam a casita que tinham comprado com grandes sacrifícios mas que na altura ainda lhes rendeu uns bons patacos. O sonho de voltar à terra concretizava-se ao fim de trinta e cinco anos de ausência.
Ainda hoje se lembra da alegria da Esmeralda ao voltar para junto dos familiares e de alguns amigos que tinham na Vila. Compraram uma casita na Rua do Alecrim, muito modesta mas em boas condições. Ainda sobraram alguns cobres, esses mesmos que ele resolveu aplicar na compra da "Quinta dos Canchos Brancos". As reticências dos filhos de nada valeram. Ele estava com 67 anos e a esposa tinha menos três. Ainda se sentiam com forças para cuidar da Horta.
Hoje passados dez anos, não estava nada arrependido de ter feito esta compra. As terras eram ferteis e felizmente tinham um poço que nunca secava e deitava quase todo o ano, água para o tanque que transbordava e alimentava um pequeno regato onde crescia o agrião, a salsa e a hortelã.
Encostado à cabana, o Antunes construiu com pedras soltas, uma pequena casota onde guardava as ferramentas para o amanho das terras. Seguiam umas toscas capoeiras, feitas com ripas de madeira e redes, tudo de forma artesanal mas que faziam muito jeito para as criações de coelhos, galinhas e alguns perus. Um pouco afastado havia uma pocilga que os antigos donos tinha deixado e que ele mantinha sempre ocupada com dois ou três porcos.
Tudo isto lhes dava imenso trabalho e se não fosse a esposa, Antunes já tinha desistido desta aventura há bastante tempo. Mas Esmeralda eram uma mulher forte e felizmente sem maleitas graves, não era raro vê-la a sachar e a mondar as couves, os feijões e o mais que se criava naquele bom rincão.
A quinta ficava a pequena distância da Vila que se fazia bem a pé quando o tempo estava bom. Muitas vezes ela acompanhava o marido logo pela manhã. Nesses dias almoçavam na cabana ou debaixo do carvalho, de sombra grande e generosa.
No Outono o entusiasmo redobrava e o filho António metia sempre umas férias para vir ajudar nas colheitas, dos cereais e da vinha. Ajudava o Pai a fazer o vinho e a aguardente que saía sempre muito bem. A vizinhança adorava, o Antunes que gostava de repartir. Quando terminavam as colheitas, matava um porco e fazia uma festa, para a qual todos os filhos e netos eram convidados, assim como os amigos mais chegados. Os filhos levavam sempre abundantes produtos e alguns "bicos" que ajudavam os mais necessitados a minorar os seus problemas.
Na noite em que descamisavam a milharada, Antunes convidava o Ambrósio, para animar a festa com o seu acordeão. Vinha a família, os amigos e os vizinhos e debaixo do enorme carvalho, havia cantares, risos e anedotas toda a noite, misturados com algumas ousadias dos jovens que entravam alegremente no jogo do milho rei. A quem saia tinha o direito de beijar a moça que estava mais perto.
Raro era o ano em que depois da festa acabar, se seguia o
namoro a sério de jovens que tinham participado na festa.
O Outono estava a chegar e o inverno vinha depois para acabar
mais um ano, sem mais nada a acrescentar neste modo de vida por si escolhido, desafiando
o tempo, para acalentar um sonho de criança. Ele tinha nascido num pequeno hortejo
que pertencia ao seu avô.
CV-1998
José A. Raposo
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